Como fui educada por pais humanistas, comunistas, mas, ateus, não entendo algumas pessoas que se dizem religiosas. Entendo apenas religiosos como Dom Pedro Casaldáliga, Frei Betto, Chico Xavier e outros, que possuem uma religião de prática cotidiana, humanista, com preocupação social.
Também fui educada para respeitar a diversidade, a fé alheia, as diversas fés. Por isso, quando revelei ser uma pessoa de fé, meus pais também respeitaram. Mas isso porque minha fé não estava desvinculada de uma preocupação social, coletiva, humanista. Não me alienava da vida, e, suas relações.
Fico preocupada com os extremos: a falta total de fé – e - a falta de respeito com quem tem fé, a fé cega em sua própria religião – mas – que faz desrespeitar quem não tem e quem tem outra fé. Nada e nenhum destes extremos nos trazem para um equilíbrio saudável de convivência. Porque nada que signifique imposição e desrespeito ao outro é saudável, muito menos, democrático.
A Páscoa dos hebreus significa a liberdade do povo judeu ao fugir do Egito, onde eram escravos. A Páscoa do cristão, o renascimento. Nenhum destes símbolos estão relacionados com atitudes extremistas de imposição um ao outro. Todos os dois símbolos da Páscoa estão relacionados com liberdade, renovação.
Devemos agora, nestes tempos, nos libertar de preconceitos, futilidades, preocupações excessivas com aparências, renovar a mentalidade de consumismo desenfreado que nos prende à busca pelo ter – e nos faz infeliz e vazios – em vez do ser : solidário, humano. Não é possível que possamos ser felizes – de fato – sabendo que estamos nos destruindo e destruindo nosso mundo – que se renovará um dia – mas a espécie humana talvez desapareça.
O verdadeiro sentido da Páscoa está longe daqueles que só pensam em lucro, ambição, que enriquecem às custas da fé alheia, que expulsam famílias de seus lares para transformar terrenos em shoppings, que lucram com a doença das pessoas, que poluem nosso ar, que boicotam a educação pública, que roubam. Enfim, o verdadeiro sentido da Páscoa está longe do jeito capitalista de ser e agir, mas está intrinsecamente relacionada com a liberdade, respeito e o socialismo humanista.
Naquele tempo da Alemanha Nazista, um país do tamanho ou menor que nosso estado de Minas Gerais, os jovens eram educados para pensarem que judeus, homossexuais, deficientes físicos e outros seres humanos: eram inferiores. Havia no maquiavelismo das elites uma vontade de usurpar os bens dos judeus, mas isso não chegava lá na “formação” dos jovens, que eram aliciados e doutrinados em suas fardas na Juventude Nazista.
Ninguém falava em direitos humanos e o clima era de terror.
Há tempos tento me lembrar o nome de um filme em que um grupo de jovens amigos se encontravam para dançar, se não engano o Fox Trote, num Clube aos finais de semana. Como era um ritmo americano, logo o ritmo foi proibido, assim como qualquer coisa que não fosse alemã. Neste grupo havia um judeu e ele foi uma das primeiras vítimas do Holocausto, antes que ele ocorresse. O triste é que em um dos grupos de jovens nazista que o espancaram: estava um velho amigo das danças, agora proibidas.
Era proibido amar, era proibido se sensibilizar, era proibido sentir compaixão, respeitar a vida.
O Holocausto veio e muitos que estavam com armas nas mãos, matando vidas, pensavam que faziam aquela violência por algo bom.
Achavam que a violência se justificava por ela mesma.
O filme de Charles Chaplin, genial por inteiro, O Grande Ditador, foi proibido lá e em muitos outros países. Terminada a Guerra a humanidade percebeu a genialidade daquele ator-diretor.
Quando o Holocausto acabou, depois de milhares e milhares de vidas mortas, alguns países se reuniram e resolveram debater que nada, exatamente nada, justificaria violência e desrespeitos aos direitos humanos fundamentais.
Nenhuma propriedade, nenhuma ideologia, nenhum suposto crime não ocorrido, e sequer, um crime ocorrido, justificaria violação de Direitos Humanos. EUA participou da elaboração destes direitos e logo se esqueceria dele com a caça às bruxas aos seus próprios conterrâneos que demonstrassem uma ideologia próxima à URSS. Também massacrou milhares de crianças logo depois no Vietnã, e, o que movia cada ação, era o lucro.
Lucro nunca pode mover ação nenhuma, vida sempre em primeiro lugar.
Pois, estamos, agora, em São Paulo, vivendo tempos em que comunidades estão sendo queimadas.
Não lá num filme da História, mas agora, no Brasil, em 2012.
E vamos falar de uma que sofreu imensa violência no amanhecer de um domingo, que ficou conhecido como Domingo Sangrento. Esta comunidade estava num terreno, sem herdeiros desde 1969, todavia com um grileiro desde 1981. Este grileiro chegou até a ser procurado internacionalmente, nunca deu função social ao terreno e sequer pagou seus impostos.
Esta comunidade se organizou naqueles terrenos desde 2004: fez casas, hortas, igrejas, galpões, parques infantis, enfim, algo que finalmente dava uma função social a um terreno urbano, como exige nossa Constituição, promulgada em 1988. Vários grupos – espíritas, evangélicos, apenas culturais como a Cia Bola de Meia – trabalhavam naquela comunidade, que como todo lugar do Brasil, possuiu traficantes, e, portanto precisava de ações para proteção social dos trabalhadores e seus filhos, a maioria dali.
Naquela véspera do Domingo Sangrento foi um sábado com ar de comemoração, pois uma sentença julgava o pedido de reintegração, pelo grileiro, suspenso por um juiz Federal. Estavam lá senadores, deputados, líderes do Movimento dos Sem Tetos, o próprio secretário Nacional da Habitação, com esperanças renovadas no período de negociação que parecia existir. Estavam lá também agentes culturais, como o poeta cordelista Paulo Roxo Barja e outros, solidários com esta causa mais do que justa. Alguns – ali pela primeira vez – se encantavam com a forma como as pessoas, tão excluídas do sistema, se organizaram coletivamente. Catadores de papéis, boleiras, etc, construíram parques infantis, plantaram árvores, flores.
Então, por volta das seis horas e trinta minutos da manhã de um domingo, típica manhã onde crianças dormiam, trabalhadores descansavam seus corpos exaustos de semanas duras e apreensivas, chegaram tropas de choque, com balas de borracha, escudos. Pediram para pessoas deixarem suas casas e levarem apenas as coisas que poderiam carregar. Cachorros ficaram, pois algumas famílias possuíam muitos filhos que choravam, ainda pequenos, como carregar o cão também? Deficientes também eram carregados, assim como idosos. Hortas, flores, cortinas de crochês feitas por pessoas caprichosas em seus lares, ficaram para trás, num sonho que se desfez pela ambição de poucos.
Seres humanos que tentaram resistir levaram balas de borracha, que fere também. O secretário Nacional de Habitação tentou mostrar a ordem do juiz Federal e foi impedido de chegar perto, quando conversava com outras pessoas de costas, levou um tiro de bala de borracha. Uma criança pequena foi ferida e não resistiu. Idosos e crianças passaram mal, no hospital municipal próximo as enfermeiras recebiam ordens de não falarem dos feridos que chegavam. Policiais da Rota violentaram uma jovem de 17 anos. Tudo isso está em relatório pelos direitos humanos, entregue dias depois, numa assembléia para apuração de fatos, onde boletins de ocorrência foram apresentados.
Alguns foram expulsos do abrigo em que foram levados, outros escolheram igrejas para não irem para abrigos da prefeitura aonde somente adultos iriam, as crianças iriam para abrigos separados dos pais. Poucos dias depois, quando alguns tiveram autorização para pegar o resto de suas coisas, já não encontrou mais nada, apenas entulho, apenas destruição. As autoridades nazistas se apressaram em levar tratores para destruírem tudo. Autoridades nazistas entregaram pulseirinhas azuis para aquelas pessoas. Não entregaram mais uma estrela de David amarela para as roupas, houve, então, uma pequena diferença, a humilhação é bem semelhante.
Infelizmente, anos se passaram desde aquela Alemanha nazista, onde Direitos Humanos não eram compreendidos, mas ainda vemos por aqui, cenas muito semelhantes àquele tempo sombrio.
Felizmente, naquele tempo, jovens de valor não tinham vez, aqui alguns ainda conseguem escapar e virar heróis, como o Vítor Cunha, que apanhou e foi desfigurado por defender um sem teto embriagado que apanhava, mas agora é um exemplo que talvez possa ser multiplicado. Naquele tempo toda imprensa alemã só dava voz aos nazistas, agora temos alguns canais (como a Record News) que mostram a verdade e divulgam pesquisas e livros, como a Privataria Tucana, que a imprensa dos poderosos não divulga. Naquele tempo os poderosos estavam todos no poder e não havia possibilidade de investigá-los e agora, investigaremos o motivo do grileiro do terreno ter sua dívida de imposto abaixado em um milhão. Investigaremos o motivo de atos de desrespeito aos direitos humanos, tão apressados.
Muita coisa em comum, muita dor em comum, contudo, sinceramente, agora estamos nos tempos em que podemos falar em Direitos Humanos. Demorei muito para desabafar sobre este caso porque foi um dos mais doloridos que já presenciei nestes meus 39 anos, havia muita dor. Demorei a perceber que há esperança também, apesar desta dor.
Neste mundo globalizado tudo nos é imposto. Isso de uma classe dominante impor padrões de crenças, comportamentos, é antigo, já discutimos aqui em outros textos, mas agora, na globalização, as elites ditam modelos de comportamentos que nos bombardeiam em várias fontes. O que mais me choca é que até pessoas inteligentes uma hora passam a acreditar nestes modelos e nem nosso tempo livre escapa de imposições.
Sempre fui de seguir o que meu coração acreditava, ele sempre acreditou que era bom fazer o bem porque ficava feliz quando agia assim, tentava acompanhar minhas amigas de infância em catecismos e nunca via lá o mesmo Jesus que minha avó paterna ensinou a amar, lá só tinha um demônio a temer. Nunca acreditei no medo, nunca gostei de nada que me fizesse sentir isso. Detesto filmes de terror. Mas sempre acreditei no poder do amor e por isso acreditava no Jesus que minha avó falava, ela falava que Ele dizia: “Faça aos outros aquilo que gostaria que lhe fizesse.” Simples assim.
Contudo, respeitava demais a fé das minhas amigas católicas e protestantes, cheguei a assistir vários cultos e missas, algumas vezes gostei muito, principalmente quando não se lembravam de imposições ou medos, mas falavam de amar ao próximo. Também sempre respeitei meus amigos e parentes ateus, via em vários uma prática até mais coerente com o cristianismo do que em alguns que “se diziam” cristãos.
Fui assim, feliz, com este modo de viver. Na faculdade nadava muito, estudava, descobria autores que releio até hoje (até porque minha profissão pede estudo) participava de grupos como de Educação Física Adaptada, onde ficava muito feliz quando um aluno com lesão alta de coluna conseguia participar de um vôlei com bola leve e rede baixa, era pura emoção quando dançavam conosco, etc. Também sentia alegria quando nadava e esquecia da vida dentro da piscina; quando no frio corria; quando olhava o pôr do sol da FEF, na Unicamp… Como era um curso integral e ainda havia tantas coisas que descobria, além da possibilidade de poder fazer aulas em outros cursos, de participar de centro acadêmico, nunca gostei muito das festas, fui em poucas e só sentia falta de repor a energia do dia atribulado. Todavia, na minha vida, sempre respeitei quem gostasse. Também nunca gostei de beber, mas sempre respeitei quem gostasse. Minha crença era que cada um deve buscar seu próprio caminho para ser feliz, ainda penso assim. Minha alegria estava em nadar, dançar, trabalhar com adaptada, era bem simples, entretanto respeitava e entendia quem gostasse das festas até de madrugada.
Mesmo assim percebo hoje um movimento contrário ao que penso, de respeito ao modo que cada um tem de ser feliz. Refletindo sobre isso me dei conta que há neste mundo globalizado não só uma imposição de corpos – magros, trabalhadores, etc – mas de como se deve agir em seu tempo livre. Ninguém aceita que alguém possa ser feliz se não beber, ir para balada, fazer sexo. Até o fazer sexo é uma imposição, de repente alguém não precise assim tanto dele quanto se divulga na mídia, algumas pessoas precisam mais de afeto do que de sexo, mas a mídia divulga a cerveja e o sexo. E as pessoas pensam que para ser feliz precisam desta combinação. Como se alguém não pudesse sentir felicidade ao chegar em casa depois de uma caminhada, tomar um banho quente e ler um bom livro! Como é bom abrir um bom livro e ler com tranquilidade! E quando podemos sentir o cheiro de um livro novo? Porque compro muito livro em sebo, mas ganho às vezes livros novos de presente e a-do-ro o cheiro! Tão simples e tão fácil ser feliz.
Lógico que contas para pagar, parentes doentes, dor em seu próprio corpo, um luto que custa a passar, uma saudade que aperta, perceber que não tem amigos de verdade, ir para um trabalho em que se é massacrado, alienado e pouco pode transformar, tudo isso significa tristeza. Viver a tristeza também é algo que a sociedade globalizada do “alegrinho”, não permite. Outro modelo imposto é o da alegria, como se todos tivessem que sentir a mesma coisa, no mesmo instante.
É preciso que retomemos o significado da palavra respeito, ela é uma das palavras mais revolucionárias que temos, quando se tem respeito se tem democracia real, se tem o ouvir real, o sentir real, e, principalmente, o “olhar” real. Com ele é possível se colocar no lugar do outro, dizer apenas o que não irá impor nada ao outro – muito menos suas próprias crenças – seja na cerveja, seja na cruz, seja na poesia. Usar as palavras para trocar ideias e não “jogar” adjetivos, ou, colocar todos dentro do mesmo modo de vida que escolheu para si. Respeito é a palavra que irá revolucionar este mundo globalizado.
Há tempos que gostaria de falar sobre o racismo. Minha avó materna era racista, só que achávamos graça pelo fato dela ser negra, cabelos “encaracolados”, como ela dizia, pele escura. Se alguém pegar os documentos da minha avó não achará nomes africanos, são todos portugueses. Quando brincávamos com ela, para vê-la indignada de que era negra, ela dizia: “Negra, não, sou jambo!” Ela tinha uma irmã de olhos verdes, minha bisavó era a típica indígena, mas em algum lugar de duas familias que formaram o nome dela, teve negro, pois estava na pele e no cabelo dela. Os nomes, como já disse, eram portugueses: Nascimento/Deodato. Depois, ela se casou com meu avô, também apenas com nomes portugueses na sua árvore: Cavalcanti/Tenório/Albuquerque. Na história oficial nenhum negro, mas é uma história antiga, como bem lembrou o Chico Buarque, quanto mais antiga é a família no Brasil, mais chances de ter negros na sua árvore, portanto, não há brancos no Brasil, apenas mestiços.
A questão é que muitos, como minha avó, não assumiram e nem assumem sua mistura – exatamente o que faz de nós tão especiais – porque por trás deste racismo existe a questão econômica: os africanos, de pele negra, foram os que viveram a escravidão, sofreram, embora, ao contrário do que diga a história oficial, tenham sempre resistido. Desta resistência herdamos a capoeira, a feijoada e tantas coisas lindas que nos fazem brasileiros. Então, quando uma classe domina outra – economicamente – ela implanta subjetivamente na mente dos dominados, desculpas para esta exploração. Destas desculpas subjetivas nascem os preconceitos. Os brancos tinham que justificar o motivo de explorarem – de modo cruel e desumano – aqueles povos africanos, então, disseram que eram inferiores. Infelizmente alguns, como a minha avó, acreditaram nisso.
Ocorre que muitas pessoas não percebem as artimanhas de classes/economias, se deixam envolver pelas mentiras das elites. Minha avó cresceu em uma época machista, racista e que achava que comunista comia criancinhas. Hoje a exploração econômica, na época da globalização, continua entre as elites e as classes trabalhadoras, que vendem sua força de trabalho! E de novo, as elites criam mentiras subjetivas de que quem está sendo explorado é inferior, então, temos o preconceito socail, de classe. Onde vemos isso hoje? Principalmente nos absurdos contra o Lula. Ninguém questionou o direito que sempre existiu da família dos presidentes possuírem passaporte diplomático, até que a família do Lula recebeu este questionamento. Por que? Porque na mentalidade difundida pelas elites e – infelizmente – comprada por milhares que não são das elites, uma família de trabalhador não pode ter alguns direitos, mesmo que garantidos por lei. O racismo e o preconceito social sempre andam juntos porque ambos nasceram de uma justificativa subjetiva da exploração de um ser humano pelo outro, falar contra esta exploração na época da minha avó, era ser comunista. Historicamente falar pela maioria era ser de esquerda porque, certa vez na história, quem defendia o povo se sentava ao lado esquerdo do parlamento e as elites , do lado direito. Surgiu, então, há tempos, a expressão direita e esquerda.
No Brasil nossas elites se acostumaram a manipular alguns instrumentos para justificarem seus poderes: a mídia, a imprensa, e, até as religiões. Religiosos que não aceitaram defender absurdos das elites, como as torturas na ditadura militar, foram torturados e alguns mortos. Leiam “Cartas da Prisão”, do frei Betto, confiram este período triste. Só que com a globalização temos a soma de fatores que trazem tudo que as elites querem, inclusive a força da tecnologia e mídia ao lado de delas! Em alguns estados, como SP e Paraná, as elites também nunca abriram mão das forças policiais para reprimirem os movimentos sociais, que são movimentos que se preocupam em impedir as injustiças sociais, típicas do sistema que vivemos. Juntamos à isso outro fator: desde a ditadura militar que as escolas públicas são enfraquecidas, professor trabalha demais e ganha de menos, num círculo infinito de luta pela sobrevivência. Esta mistura era tudo que as elites queriam para que sua exploração pudesse ser aceita como natural: escola ruim que forma e não transforma, e, mídia forte que vende as verdades subjetivas das elites. Como? Dizendo que – por exemplo – políticos são todos iguais e criminalizando os movimentos sociais. Assim temos um esvaziamento de jovens nas lutas e pior, temos jovens que ficaram com aversão à política. E qual o perigo disso: que as elites construam aquelas subjetivadades que minha avó materna, Dona Alice, tinha como verdade, ela que cresceu na Era Vargas e por isso era racista, preconceituosa e reacionária. Tudo isso significava que minha avó aceitava: ser explorada e tinha vergonha da sua origem negra, isso porque não sabia que historicamente não éramos inferiores, apenas exporados por uma classe que tentava justificar esta exploração, usando a cor de pele.
Quem sente esta vergonha e se incomodou com o que o Chico Buarque disse, ainda hoje, é porque também não entende as mentiras subjetivas das elites. Assim como quem diz que político é tudo igual, não entende que esta frase é a que mais agrada as elites, porque assim ninguém vai tentar transformar e lutar nos movimentos sociais. E pior: não irá buscar a história dos partidos: PDS na ditadura, que era apoiado pelos militares, hoje tem filhotes que mudam de nomes, como PFL, DEM e estes estão sempre juntos ao PSDB. Se estão juntos é porque querem continuar construindo as mesmas verdades, não? Treze vereadores em SP, capital, foram cassados por corrupção, todos destes partidos, nenhum do PT, mas se tivesse um único do PT, era dele que a mídia falaria todo tempo! A mídia nem uma vez falou o partido destes vereadores, apenas os nomes. Todavia, sempre que um “suspeito” é do PT ela faz questão de falar o partido. Por que? Simples: continuar construindo a verdade de que políticos são todos iguais. Quando provam que o “suspeito” era inocente divulgam apenas uma pequena nota, ou, falam em alguns segundos antes do futebol. Assim que as elites de hoje constroem suas verdades e justificam seus erros, dizendo que a esquerda e a direita é algo sem diferença. Por que isso é ruim? Porque temos pessoas que nas relaçoes sociais repetem estas verdades e machucam. Quando as pessoas ficam racistas, elas ficam cruéis, pois além de propagarem mentiras de uma elite que deveria estar extinta – a escravocrata – continuam aceitando as outras mentiras do pacote subjetivo que justifica a exploração do homem pelo homem.
Digo isso porque aqui em São João da Boa Vista, SP, ouvi já vários absurdos que em São José dos Campos e – muito menos – em Ouro Preto, jamais ouvi. “Que estranho,fulana foi presa e era tão clarinha, hein?”. Como se cometer crime fosse algo inerente da pessoa “escurinha”. Meu sobrinho nas férias, voltou da praia e ficou uns dias na minha casa, minha mãe recebera umas roupinhas dele mesmo para doação e resolveu doar para uma senhora que já havia feito faxina em casa. Quando esta senhora veio buscar as roupinhas olhou para meu sobrinho e disse: “Nossa, ele é tão escurinho, não?” Pior foi a expressão em seu rosto, a expressão corporal que usou! Ser clarinha (o), escurinho (a), aqui em São João, podem ser qualidades, ou defeitos, respectivamente!
Um outro episódio: minha filha nunca tinha sofrido na escola por falar em quem votaria se fosse votar, aqui algumas meninas disseram em 2010: “Se você votaria na Dilma não pode andar conosco porque somos PSDB”. Quase “normal” que uma cidade sem tolerãncia democrática seja também racista, mostrei que estes movimentos caminham juntos.
Fico preocupada porque em toda intolerância, dentro de todo racismo, através de qualquer preconceito social nasce sociedade como aquela Alemanha de Hitler. Não saber diferenciar as classes, valorizar as diferenças e as riquezas culturais de vários grupos, não conhecer a história de luta dos povos, não saber que por trás de tudo está a vontade da elite de justificar sua exploração, é algo muito perigoso numa sociedade. Como diz Boaventura de Sousa Santos, devemos sempre lutar pelas nossas diferenças, o respeito à elas, mas ao mesmo tempo, por nossos direitos, quando estes estão desiguais.
Somos um povo mestiço e devemos nos orgulhar disso, não por puro orgulho, mas porque sempre lutamos, por mais que as elites queiram que esqueçamos nossas lutas, e ainda, que a tornemos crime.
Crime – eticamente – sempre será fazer as pessoas acharem que algum ser humano pode ser superior ou inferior ao outro.
Ontem levamos alguns alunos dos cursos técnicos de informática e eletrônica para o espetáculo do Circo Roda: DNA, somos todos muito iguais. Foram apenas alunos do segundo ano e alguns do projeto Expressa IF. Todos que conversei amaram e isso não me impressiona.
Contudo, o que mais me chamou a atenção foram os olhares de alguns alunos bem sensíveis, moradores daqui de São João e que nunca saíram daqui, para a metrópole que eles não conheciam.
Não é a primeira vez que levo alunos daqui do interior para SP, em geral, eles reclamam do cheiro de poluição e do rio Tietê, mas desta vez ouvi algo à mais.
Ouvi de uma aluna sensível, que gosta de artes e participa como voluntária no Sopão, assim que entramos na Av. Tiradentes: “Nossa, uma mendiga, coitadinha”. “Ai, olha, tem mais…” “Nossa, quantos!” Então, conversamos, eu, ela e outros ali perto, sobre a exclusão e o exército de reserva que o sistema capitalismo causa, que isso ocorre na maioria das metrópoles capitalistas pelo mundo, que em NY são milhões de sem tetos, excluídos totais… Nestas conversas, seus olhares fitavam a janela, tristes.
Numa cidade pequena como São João nós temos algumas figuras pela rua, um que usa microfone e fica narrando a vida, muito solitário, e, também o “tio Oswaldo”, como meus alunos chamam, que tem um violão e toca para alguns alunos, na beira da quadra. A assistência social, numa cidade pequena, consegue dar conta, algo que numa grande metrópole e ainda sem prioridade humana em sua política pública (Kassab), é impossível.
Outra coisa que chamou a atenção e já havia observado outra vez com alunos que foram à SP, são as pichações e esta mesma aluna disse: “Nossa, mas por que estragaram tudo assim? Por que picharam tudo?” Uma aluna que já morou em SP explicou: “ São gangues, elas competem entre si”. “Que horror! Deixam tudo feio”. “Tem o grafite que é bonito, mas isso é feio mesmo”, a aluna de lá explicava. Aqui no interior percebo que o jovem gosta de ver sua cidade bonita, não vemos estas pichações, isso causou angústia em minha aluna e alguns ouviam nossa conversa assustados e concordando com a indignação dela.
Ser professor é isso também: levar o aluno para ver além de seu jardim, além de seu quintal. Levar este olhar sensível e discutir suas dores: as misérias e suas causas. Refletir sobre os cheiros: discutimos a poluição e o que temos que fazer para nosso rio, em São João, não se tornar um Tietê. Ser professor é isso e acho que este dia foi bem comemorado antecipado, podendo ouvir e conversar além de nosso quintal, com uma arte linda para finalizar.
Depois de um pouco deste mundo assustador de miséria, degradação – isso, muito por culpa desta miséria – a minha aluna falou: “Ai, quero a minha roça, professora.” Lógico, amaram o Circo Roda, que veio depois deste assombro com a metrópole, mas as palavras e os olhares assustados me chamaram a atenção.
As empresas hoje em dia não procuram mais, como antigamente, um profissional “competitivo”. Pela competição, através dela e com ela, quase acabamos com nosso mundo.
Os competitivos dentro das empresas não acrescentam, são aqueles que esquecem a ética, querem subir a qualquer custo, se comprazem com a tristeza alheia, quando vêem uma lágrima, em vez de oferecerem o ombro, dizem que a pessoa não sabe separar seus problemas pessoais e os leva para a empresa. É aquele que só sabe fazer piadas se humilhar alguém, deste modo só causa desconforto.
Este pensamento é um resquício da filosofia positivista: seja razão, esqueça o coração.
Todos os cursos de direito, filosofia, e outros, discutem hoje em dia o quanto esta linha filosófica já causou estragos neste mundo, principalmente quando estudam a ética.
Hoje em dia pensadores discutem ética e o quanto ela fica em falta quando o subjetivo, a alteridade e a compaixão também não estão. O francês Paul Ricouer discute como precisamos colocar mais generosidade e compaixão na vida moderna. O nosso filósofo Rubem Alves passou a vida com a angústia e a discussão sobre como se ensinar compaixão, ele dizia que com a tecnologia, sem compaixão, construímos mísseis nucleares, com a mesma tecnologia com compaixão: máquinas para curar o câncer! Precisamos de mais tecnologia com compaixão.
Meu irmão mais novo sempre foi um amante de livros, filósofos, natureza, surf, skate e fez publicidade…. Como meu irmão mais velho, que fez medicina e luta por uma medicina humanizada, cada um na sua área, mas acho que toda família é assim um pouco idealista, vira seu perfil para um sonho de mundo melhor. Tivemos adultos que nos ensinaram: amor pela natureza, humanismo, artes e liberdade. Com este perfil, deste jeito, cabelo rastafari, meu irmão mais novo conseguiu estágio, ainda estudante de publicidade, numa grande empresa de tecnologia. Minha cunhada, cyber-ecologista e com as mesmas paixões, idem. Isso faz uns dez anos, agora os dois continuam nesta mesma empresa, formados e como funcionários! Levando ideais que até combinam com suas crenças pelo mundo, uma hora eles estão em Bali, pela empresa, em outra na África.
Não adianta mais formar apenas excelentes técnicos, sem senso de responsabilidade coletiva, sem visão humanista da vida, sem sensibilidade ou compaixão, nem as empresas de tecnologia escolhem pessoas com estes perfis. O perfil executivo frio está morrendo com o mundo que quase morre e que agora lutamos arrumar. A sensibilidade, a criatividade, o idealismo, muita visão coletiva, responsabilidade em cada ato: é isso que as grandes empresas querem.
Digo isso porque trabalho num curso técnico e vejo que muitos possuem uma visão de início da industrialização, quando pensa em mercado de trabalho, como se a arte, os jogos de cooperação, a filosofia e outras disciplinas fossem “menos” importantes do que as técnicas. Contudo, vejo pelo meu irmão mais novo, de que não é bem assim, elas – as empresas – querem um perfil diferente: um “brother” mesmo, um surfista, crítico, criativo, ecologista, sincero, engraçado muitas vezes! Nesta formação do “brother” a educação para a sensibilidade, o coletivo, as artes, o trabalho em grupo, a literatura estão em pé de igualdade com as disciplinas técnicas.
É preciso agora saber olhar no olho mais do que dominar a alta tecnologia. É urgente educar para a sensibilidade, para formar seres humanos melhores, seres que dominam apenas a tecnologia já quase acabaram com o mundo e uma vida saudável no trabalho. Hoje em dia já se discute qualidade de vida com: um trabalho em que as relações humanas sejam saudáveis, de respeito, com a presença do subjetivo, com envolvimento entre as pessoas, o trabalho alienante já estragou vidas demais. Dentro e fora dele. É necessário que conteúdos para a sensibilidade possam estar dentro dos cursos técnicos, senão não formaremos alunos para um século XIX.
Este final de semana assisti um filme de suspense com a minha filha, que perto dela, foi divertido, mas não teve suspense nenhum.
Esta não é a página dos filmes, mas resolvi dividir sobre este filme aqui.
Durante o filme ela dizia: “Mas que protagonista! Não percebeu que o ministro era um ingênuo, que a esposa que deve ser a vilã por trás de tudo?”
Então, para piorar, o protagonista confiava bem na esposa! “Nossa, que burro!” Minha filha ficava indignada. Eu ria, em casa sempre que vemos filme temos esta política de comentar, em cinema deixamos para depois, mas em casa é assim.
Teve um momento que ela não aguentou, depois daquele protagonista fazer tudo que ela “pedia” para não fazer , disse: “Mãe, vou ler meu livro dos Três Mosqueteiros porque pelo menos o D’Artagnan é inteligente.” Ela está há um tempo se deliciando com a versão integral deste livro, achamos esta versão por um preço baixo aqui na livraria da cidade, não tem capa dura, nem nada, mas é muito bom.
Depois ela voltou, não aguentou de curiosidade, mas mesmo assim reclamou muito e quando o filme acabou disse: “Precisarei ler mais um pouco, quero esquecer este filme e sonhar com um protagonista inteligente.”
O filme é bem óbvio e deve ser de propósito que o diretor usou isso, afinal, realmente o espectador percebe todo tempo que o protagonista faz tudo errado, quem são os vilões verdadeiros, etc. Não há chance para ele, e seu fim só pode ser o que foi. O que ele quis dizer, este diretor, com este caminho sem volta e óbvio que o seu protagonista vai? Quis apenas criticar o óbvio?
É que o óbvio dos heróis que temos aos 15 anos é a vitória, a inteligência, mas o óbvio da vida real quase sempre é a morte, principalmente quem se coloca nela com a ingenuidade do “escritor fantasma”.
Há algum tempo assistira com a minha filha “O Discurso do rei” e ela adorou, afinal, custou, mas o protagonista superou seus problemas. Ela ficou encantada com sua luta, admirou o seu “mestre de superação”, que o acompanhou durante toda vida. Precisamos desta esperança de que tudo pode melhorar, quando se luta, ainda mais quando temos 15 anos. Precisamos sempre da esperança, já discuti isso aqui, mas ela é importantíssima no coração jovem. Este protagonista não usava espadas e lutava bem, mas usava princípios, palavras e com isso, custou, porém aprendeu a lutar bem.
Lutar bem, por ideais, transformando injustiça em justiça, é isso que esperamos nas histórias, aos 15 anos e na realidade, sempre.