UM ANO DE GOLPE

Hoje faz um ano que estava com companheiros em SP – da Frente Brasil Popular da Mogiana e de lá – olhando para um telão numa esperança em vão.

Um ano em que nossos sonhos de projetos políticos de país mais justo, com mais democracia, transparência, distribuição de renda através de projetos sociais, investimento como nunca em ciências, tecnologia, democratização do conhecimento (com pronatec, prouni, sisu, Ciências Sem Fronteiras, etc) foram para o lixo.

O que diferencia um projeto político petista, de um projeto político neoliberal, é que este último claramente não tem nada de investimento no Estado, apenas nas contas de uns poucos pertencentes às corporações. No programa que não sei se ainda está disponível, mas na época estava no site do PMDB, a Ponte para o Futuro, está lá na página nove que educação e saúde não serão obrigações do Estado. Ou seja, tudo será privatizado, estruturas de escolas técnicas federais provavelmente vendidas.

Falava sobre o medo deste programa aos que entraram na onda de odiar o PT, propagado há anos pela imprensa golpista (historicamente golpista, apoiou também a ditadura militar), mas as pessoas pareciam não enxergar.

Logo na primeira semana o Temer exonerou vários funcionários do MEC responsáveis por lindos projetos dentro dele. Também retirou a assistência estudantil para alunos da graduação e de lá para cá só perdermos: esta semana o Ciências Sem Fronteiras, que era a chance de um estudante brilhante, mas sem dinheiro, ir estudar e aprender em outro país, acabou!

Nossa saúde e educação pública de qualidade estão sucateadas, o dinheiro que era crescente e diferenciava os Institutos Federais de Educação, Ciências e Tecnologia (IFs) de outras escolas técnicas  diminuiu tão drasticamente que alguns não conseguem fechar suas contas, pagar funcionários terceirizados da limpeza, nem luz e água.

Dói muito em meu coração porque sempre me emocionava ao ouvir lindas histórias de alunos que superavam a situação histórica de miséria em sua família com os IFs, o bolsa família, a boa escola. Foi por isso que votei no PT a vida inteira, para ver justiça social. Ver alunos com potencial e inteligentes estudando.

Agora de uns tempos para cá tenho visto novamente umas cinco/seis crianças trabalhando por dia, olhando carro, vendendo em sinais, engraxando sapatos, coisas que só via nos tempos neoliberais de FHC.

Em votos pela própria família (e uns dinheiros de companhias como a Oi, de petróleo como a Shell, bancos como Itaú) num instante nossos políticos corruptos jogaram no lixo o sonho de um país menos dolorido, desigual, que se construía.

Votando pelos próprios bolsos faz um ano que arrasaram nosso país e o levou de volta aos anos 90, quando a injustiça social era tão dolorida de se ver em cada semáforo das grandes cidades…

Um ano de golpe, tão pouco tempo e tanto para chorarmos…

Camila Tenório Cunha, professora de Um IF, mãe, sonhadora golpeada.

17/04/2017

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Novamente a juventude.

Ontem, pelo menos aqui no DF, novamente foi a juventude que me trouxe esperanças.

Vi imagens da Av. Paulistas que companheiros do PT de São João da Boa Vista enviaram, mas foi aqui que vi a juventude se manifestar contra o que transformam o país deles.

O IFB passa por uma grave crise de orçamento, muitos estão ameaçados fechar, deste modo, a juventude que estuda num lugar público de qualidade se manifestou, tentando garantir seu futuro.

Nem todos entendem, muitos defendem um estado neoliberal porque as mídias ensinam assim, bem como ensinam a odiar pensamentos de esquerda, de educação pública de qualidade.

Coisas que o conhecimento superficial das mídias constroem. Porque muitos países capitalistas mesmo que dão certo investem em educação e saúde pública de qualidade.

Influenciado ontem pelo ódio das mídias um senhor tentou atropelar manifestantes estudantes ontem no DF. Um companheiro se indignou porque além dele tentar atropelar saiu do carro com uma face e em vez da polícia proteger os jovens, o protegeu. Ela colocou o depoimento do companheiro que viu a faca na rede.

Contudo, talvez este tempo de ódios estejam com dias contados se depender desta juventude que fez uma manifestação tão bonita.

Camila Tenório Cunha, hoje é primeiro de abril, mas o escrito acima é verdadeiro.

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Dança e chances sociais:

Observava a vida de dentro do carro, com trânsito parado outro dia, quando vi uma jovem moradora de rua dançar de contente por algo. Ela tinha leveza e coordenação, até mesmo postura, algo difícil num estado de vulnerabilidade social assim, tão massacrada pela vida, com peso da sobrevivência em seus ombros…

Pensei então, inevitavelmente, que se esta jovem fosse de classe média, talvez tivesse a chance de fazer ‘ballet’ ou dança moderna, e, em vez de estar pelas ruas sofrendo riscos, estaria alegrando a alma das pessoas com sua arte.

Nem todos podem dançar neste país, não no sentido literal, as classes sociais recebem ou não estas chances.

No projeto político do governo anterior as chances estavam aumentando, desde o golpe as chances de pessoas com vulnerabilidade social sobreviverem diminuíram.

As chances de vermos pessoas em risco com talento para artes exercerem seu talento, também diminuíram, com isso, nossa chance de ver mais beleza neste país.

Nossa chance de ver mais projetos de artes, sociais e científicos despencaram,  por isso agora ver uma jovem com talento nas ruas me traz tanta angústia.

Aqueles que fazem arte e dizem, como me disse um jovem grafiteiro  outro dia, que a arte precisa ser neutra, sinto muito, nada é. Ou você se cala e sofre as consequências de injustiças, ou usa sua arte contra elas. Sendo assim ou assado, nada permanece neutro.

Esta neutralidade que os fascistas querem na escola é apenas um “se calar com o que é injusto”, porém, nada é neutro, passivo, apenas, quando muito, submisso.

Quero ver de novo um país que possamos ver todos com chances de dançar, tocar, compor, escrever, descobrir.

A dança da jovem foi linda, mas me deixou triste.

Camila Tenório Cunha, num domingo chuvoso de carnaval, 26/02/2017

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Dona Marisa e Lula: amor que a turma do ódio burguesa não consegue entender.

Quem tem relacionamentos promíscuos, está com uma pessoa e engana outra para se aproveitar de outra naquele momento; quem tem amantes; quem se casa com alguém que é mais nova que a filha, como o Temer;  nunca entenderá um relacionamento de AMOR real, no cotidiano, na dor, na cumplicidade de Lula e Dona Marisa.

Estas pessoas rasas e superficiais nunca entenderão um relacionamento profundo, por inteiro.

Não entenderão a dor do Lula, a dor de quem entende o quanto um relacionamento assim, de respeito, dia a dia, profundo, tem valor.

Sinto também porque além do ódio que a imprensa construiu contra esta família, está a construção dela, cotidiana, pela banalização das relações.

Valorização do tipo de mulher como a Marcela, em vez da mulher guerreira, digna, trabalhadora.

Valorização do tipo de relacionamento imaturo, vai e volta algumas vezes, como mostram as novelas, de casais adultos que se comportam como adolescentes, em detrimento do compromisso REAL, sério, com respeito, fidelidade.

Desvalorizar a história de Dona Marisa e Lula é desvalorizar os relacionamentos e tipo de ser mulher  que lutamos e acreditamos.

Estou triste não só por eles terem sido vítimas do que há de mais podre na direita, mas por esta direita passar valores de ódio e de desvalorização do relacionamento de respeito, construído no dia a dia juntos. Relacionamentos com maturidade, sem términos e retornos como muitos fazem, mesmo depois dos 50 anos, com uma imaturidade tipicamente pequena burguesa que as novelas valorizam.

Imaturidade de quem não sabe lidar com problemas sem ‘ ficar de mal’, então, pedem “tempo” e depois retornam, sem se importarem muito com as vidas que podem estar seguindo, como mostram bem as novelas, filmes e séries globais.

Este tipo de mulher fútil,  superficial que é valorizado pela imprensa burguesa (e o homem fascista e/ou pequeno burguês).

Não a mulher guerreira, que luta, que fica junto nos piores momentos e fazem estes momentos ficarem melhores, com ternura. Esta mulher a imprensa burguesa não valoriza. Por isso tenho visto casais pequenos burgueses que cada um vive na sua casa, ou, que ao primeiro problema terminam, depois voltam e na verdade nunca constroem nada profundo.

Brincam de relacionamentos.

Estes do ódio, das superficialidades, nunca entenderão que amor, que  relacionamento, é construído.

Estes nunca entenderão o amor Lula-Marisa, nunca entenderão a dor do Lula e a dor de todas as mulheres, que lutam e lutaram, como Dona Marisa, quando ela parte. O vazio que fica em nossos corações, a tristeza ao vermos ódios que não compreendem o amor.

Camila Tenório Cunha, 2 de fevereiro de 2017.

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Dia 13/12, fatídico dia de uma PEC 55 assinada às pressas:

Neste dia fatídico para a pátria brasileira – mais um depois do golpe – em que o governo golpista segue com suas políticas neoliberais, estas que ferraram povos como os gregos, acordei e fui fazer diários (sou professora) e de repente vi que tudo seria ela manhã, esperávamos que seria pela tarde. Tenho este hábito de acordar cedo, senão perderia a luta…

Fomos para congresso esperar grupos convocados para protestar. Depois de lutar tanto desde o dia 17 de novembro de 2015, não perdendo manifestações até julho em SP e depois aqui, estou no limite das forças, por isso já fui esperar onde estava marcado o protesto.

Lá vimos companheiros paulistas estudantes, professores e também metalúrgicos de São José dos Campos. Os estudantes socorreram um pássaro filhote caído da árvore, quando fomos perguntar ao policial se poderiam chamar ibama ou bombeiro para colocá-lo de volta, pois a árvore era alta e espinhosa, ele nos disse para colocar em qualquer canto porque o passarinho iria morrer mesmo. O estudante Daniel resolveu ficar com ele.

Depois estava sentada na lateral do congresso conversando com companheiros da cidade que vivi por muito tempo, São José dos Campos, quando passou um ônibus da PM para entrar no congresso, nesta hora caiu ou foi jogado um gatinho filhote todo machucado.

Se deixássemos o gatinho ali ele morreria sangrando, então atravessamos a Esplanada inteira com ele, para pegar carro no final dela e levarmos ao veterinário. Ontem à noite a veterinária disse ao telefone que não foi atropelamento, foi maldade, “judiação”, e estavam decidindo se operariam a gatinha ou não.

Na minha opinião os sádicos dos policiais jogaram aquele gatinho machucado para nos assustar ou distrair.

Mas depois de deixar o gatinho no veterinário a “pec da morte” já tinha sido aprovada, achei que os manifestantes estariam perto do congresso.  Parei de novo na S2 e fui por uma escada do ministério perto da barraca do sindsef para congresso, estava lá quando começaram as explosões perto da Catedral…

Um advogado do PSTU do RS  tinha me ajudado a socorrer o gatinho e ele já tinha retornado para frente da Catedral. Primeiro vimos viaturas passando por nós e cavalaria para lá, perto da Catedral. Minha filha tinha acabado de vir de lá. Tiramos fotos com companheiros do “anula golpe STF” e fomos correndo para lá, tentar ajudar estudantes.

Achamos que tudo pararia assim que chegamos lá, onde  havia um cenário de guerra, um reciclador catava um saco de restos de explosivos no chão e mesmo depois o cheiro de gás era tanto que tivemos que usar máscaras. Contudo, soubemos por companheiros que a polícia perseguiu os manifestantes até várias quadras da Esplanada, perto da CONIC,  perto da 405 norte, perto da Torre de Tv… Cada lugar, direção,  com um tipo de policiamento perseguidor. Mais de 63 pessoas foram detidas, humilhadas, atiraram em idosos no meio do caminho, trabalhadores que saiam e apenas esperavam nos pontos.. .

Enquanto isso soube que o grupo “do anula golpe” tentava chegar ao STF e lá um grupo de direita contra o aborto  protestava sossegadamente. O ‘anula golpe” não pode ir perto e os policiais disseram que o “contra aborto” estava lá porque chegaram lá primeiro.

Quando soube que tinham menores presos na DCA fui verificar se não tinha alunos do IF, advogados pela democracia já estavam lá, mas fiquei chocada de ver estes meninos algemados como bandidos. O rostinho aflito de um jovem algemado no banco nunca vou me esquecer. Não havia alunos.

Que tempos são estes que nos roubam a democracia, os sonhos de sociedade justa e melhor, mas  prendem jovens?

Deputados do PT como Chico Vigilante, Paulo Pimenta, Érika Kocai, Ana Perugini, Padre João, e outros além de defensores de direitos humanos, advogados populares se mobilizaram para soltar os manifestantes e agora pela manhã soube que já foram soltos. Passaram fome, humilhações, mas estão soltos. Estava chegando em casa , que é bem longe, quando soube dos presos. Soube que estavam  com fome e comecei campanha via whassapp para conseguir alimentação para eles. Já estavam com deputados e advogados lá.

Acordei indignada, ontem não tive forças depois de saber e ver tantos horrores de escrever, hoje acordei ainda chocada com o rumo que este país está tomando.

Um boicote econômico internacional para nosso país, caso nossa democracia não retorne, como teve para o “apartheid” na África do Sul, seria bem vindo até desfazerem golpe! Medidas como venda de pré sal, roubo da previdência dos mais pobres, roubo de nossos direitos com a PEC 55, roubo de nossa melhoria da educação com a MP 246, etc, precisam ser anuladas de alguma forma…

Por que roubo? Porque este grupo que está no poder por golpe possuem nomes na lista de Furnas, envolvimento com Odebrecht (lista que não encontramos nomes de Lula e Dilma) e ainda foram naqueles jantares oferecidos pelo Temer por milhões. Querem roubar sossegados o país, enchendo barrigas, bolsos, enquanto ficamos condenados à fome, como éramos antes do PT.

Só que a imprensa golpista mostra como se manifestantes fossem vândalos. Como começaram as bombas? Manifestantes contam que houve um intervenção poética, a poetisa começou a apanhar dos policiais, pessoas em volta se revoltaram e a repressão começou para não ter fim, com novo exagero desproporcional, como no dia 29.

O ônibus na verdade não foi queimado, para se protegerem os manifestantes colocaram fogo em lixo para fazerem barricadas e pegou nele. A barricada é uma forma de proteção. E foi tanto gás que mesmo depois da repressão só conseguíamos passar ali com máscaras. E as pessoas passavam saindo de seus empregos (estes que elas ficarão até morrer) nos olhando com ódio, pois estávamos com máscaras.

Quando a população brasileira acordará de sua dormência para todo roubo de direitos, desrespeito à nossa Constituição que ocorre, sem achar que estudantes e trabalhadores sindicalizados são vândalos?

Durante nossa caminhada pela S2 nos mandaram trabalhar uma centena de vezes, como se todos ali não trabalhassem muito.

Só não queremos trabalhar até a morte, só não queremos ver nosso país com cada vez menos verba para saúde, educação, e outros gastos públicos que não terão aumento necessário.

Por que os golpistas não falaram em cortar verbas do judiciário onde o que ganha menos ganha uns 45 mil? Por que não falaram em cortar benefícios de políticos? Por que agora querem travar investigações da corrupção?

Vagabundos somos nós, que lutamos por um país mais justo?

14/12/2016

Camila Tenório Cunha, professora de um IF, mãe, cidadã assustada.

 Fotos da minha filha, Laís Vitória:

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dia 13, grupo que salvou filhote de passarinho, foto Lais Vitoria.jpg

O grupo acima que salvou o filhote de passarinho. Será que estão bem? E o passarinho?

 

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Relato de quem estava na repressão olho do furacão, dia 29/11/2016.

 

Tudo parecia que seria mais uma linda manifestação, embora estivesse preocupada, pois parei o carro na S2 e por onde vim observei o tanto de policiais cercando o congresso, em todos os lados. 

Minha filha estava com pé doendo, havia marcado há tempos uma entrevista com Paulo Pimenta (PT_RS) e viemos de lá, do anexo II. A entrevista foi curta, três minutos, estilo Mídia Ninja, rica também foi a conversa com estudantes das ocupações de Diadema, pioneiros do país, que também estavam lá. 

Havíamos decidido ficar onde a manifestação terminaria, pois:  dor no meu cotovelo, dor nos pés de minha filha. 

Também havia uma meia dúzia de direita. Umas alunas do IFG que fui conversar (e também resolveram ficar ali), disseram que os “direitosos” falaram para eles irem fazer greve em Cuba, brinquei que deveriam ter respondido que em Cuba não precisava disso: pois a educação era pública e de qualidade.

Havia indígenas fazendo ciranda, fomos perto e vimos também companheiras professoras aposentadas que estavam de verde e amarelo, mas não eram do grupo de direita. No começo elas também me confundiram e pensei: “O que o pessoal de direita faz dançando com indígenas?” Minha filha também foi para ciranda.

Então, a manifestação que vinha pela Esplanada chegou, foi lindo! Chegou a batucada dos jovens do Levante Popular da Juventude e após conversar um pouco com companheiras aposentadas, fui perto da batucada. 

Nesta hora por breves momentos vi minha filha filmando de dentro do cordão da batucada. No zap perguntei por alunos e companheiros que tinham ido com ônibus do SINASEFE_DF , eles disseram que estavam perto do espelho d’água. Tentava lentamente chegar lá, era muita gente. 

Nesta hora uma confusão ao lado direito começou, perguntei o que foi e uns disseram: “Viraram um carro”.  Um aluno que estava perto depois me contou que: ” Primeiro bateram muito numa estudante que estava no Espelho D’Água, ela caída e continuaram batendo. Todos que viram esta injustiça se revoltaram e viraram o carro da Record. ” Soube depois, na hora queria ver algo, mas sou baixinha e não conseguia. Um rapaz desconhecido me levantou pela cintura para eu ver. Vi minha filha correndo com seu celular naquela direção. Como contribuidora do Mídia Ninja, quando ela vê a confusão, em vez de correr dela, corre para ela. Fiquei desesperada. 

De repente começaram a chover bombas de gás lacrimogênio, olhos ardem, garganta fecha, e, para todo lado que corria vinham mais bombas. E dentro da dor física ( é pior que spray de pimenta) um desespero por saber que minha filha tem bronquite e aquelas bombas caindo… E não sabia de companheiros:  sindicato, alunos, filha, professoras aposentadas, partido, na hora só conseguia me preocupar com todos, porém não enxergava nenhum. 

Corremos então para meio do gramado, mas não adiantou: mais bombas vieram.

Um segundo de descanso liguei para minha filha, ela me disse que estava filmando na frente. E vieram bombas em mim,  por trás, e, vi cavalos atrás também. 

Paramos perto do carro de som, pedi para minha filha ir, o celular dela não respondeu. Ainda não tinha visto filha, companheiros, jovens, sabia de todos ali, mas não via nada nem ninguém. Pensamos que ali as bombas parariam, mas elas vieram de novo. A presidente da UNE gritou do carro de som: “Comandante, vocês não estão cumprindo acordo, agora estamos todos quietos aqui atrás, parem as bombas”. Mas as bombas não pararam e continuava sem saber de ninguém. Nesta hora parei atrás do carro de som e chorei. 

Chorava desesperada quando vi minha filha, corri para ela e quando peguei nas mãos dela, mais bombas vieram. Corremos, vi um jovem ferido com marcas de bala de borracha e ele gritou:” Corram de costas para desviarmos das bombas.”

Corremos para o meio, olhos ardiam, alguém nos ofereceu vinagre, minha filha começou  a passar mal, caiu no chão. Companheiros professores com camiseta da ANDES com sacola preparada lavou o rosto dela com água e detergente. Ela melhorou em seguida, nisso já estávamos bem longe do congresso, o carro de som tinha ido para lateral, mas as bombas continuavam vindo. 

Corremos de novo, a pausa foi de segundos. 

Nos grupos postaram fotos de pessoas que festejavam no congresso enquanto apanhávamos. Gados empurrados, escravos açoitados, servos massacrados, enquanto nobreza se deliciava. 

Nesta hora vi alunos com camiseta IFB, eram alunos da ocupação da reitoria no IFB Asa Norte. Resolvemos ficar no meio do gramado, juntos. Também vi um companheiro do sinasefe que ficou um pouco perto da gente, depois correu para linha de frente. 

Corríamos, achávamos que as bombas parariam, conversávamos um pouco e logo vinham mais bombas, gás, sempre achávamos que ali era longe o suficiente, mas não era. Víamos de onde estávamos, no meio,  a PM, a cavalaria e alguns que correram para nós,  alunos de ocupações conhecidos, disseram que estavam com cachorros também, de onde estávamos enxergamos apenas cavalos e bombas. 

Um momento fizemos dois trios para correr, por questão de segurança não podemos estar sozinhos nesta hora, se alguém sumir, como sumiu o aluno Bruno Leandro, que foi preso acho que pela polícia federal,  alguém filma, como filmaram. Este jovem, até o presente momento, não tinha sido encontrado. Procuram também por ele  companheiros advogados da democracia, mas não o acharam  em nenhuma delegacia, em nenhum lugar. Consta como desaparecido, a última filmagem foi entrando no carro da PF. 

Não está na hora, mundo, de boicotar economicamente  Brasil, pois aqui vivemos tempos sombrios, até que nossa democracia retorne?

Companheiro de certa idade, acima de sessenta, de grupo espírita e político, defendia estudantes secundaristas e também foi preso e agredido. Este já foi solto e fez relato. 

Paulo Pimenta, PT-RS e outros deputados e senadores do PT também levaram gás lacrimogênio e ao tentar conversar com comandante depois ouviram que a ordem era para atacar sem negociar. 

As bombas, para quem não estava lá, iam perto dos carros, ônibus que trouxeram estudantes, e, antes que um carro pegasse fogo, lá do meio comentamos que jogar bombas perto dos carros era arriscado. Um carro pegou fogo, mas até agora tenho dúvidas se este carro não foi incendiado por bombas que não paravam. Tínhamos segundos de pausa e logo vinham mais bombas. 

Quando carro de som parou perto da Catedral achamos que ali teríamos sossego, que parariam as bombas, mas elas continuaram. Um momento estávamos na beira avenida que vira W3 norte e W 3 sul, alguns jovens que não conhecia  desceram e revoltados tentaram derrubar um poste. Gritamos lá de cima para não fazerem isso, eles obedeceram, fecharam a via mais um pouco e subiram. 

Continuamos levando bombas, numa das correrias um aluno foi segurando  meu cotovelo dolorido (da cassetada que levei protestando contra o jantar  de dois milhões do Temer), não sabia se meus olhos doíam mais ou o cotovelo, mas só nos restava correr porque bombas de gás ardem e doem aos mesmo tempo. 

Estávamos ao lado do Museu Nacional, paramos nesta hora na grama, achando que por termos passado a ponte as bombas parariam, já levávamos bombas há horas, não seria possível que elas nos acuassem mais. 

Sentamos e nesta hora já estava escuro, devia ser em torno de  vinte horas porque aqui em Brasília, nesta época, só fica escuro acima das vinte horas. Respirávamos gás desde umas 17 h 30. 

Ficamos um pouco no meio do gramado conversando, neste momento a pausa foi maior. Umas alunas resolveram usar banheiros químicos, mas não deu tempo, novas bombas. 

Corremos de novo, desespero de novo. 

E a votação da PEC 55 seguia, sabíamos pelo celular, como se mais de cem mil estudantes e trabalhadores não estivessem ali apanhando contra ela. Diziam nos grupos que a TV só mostrava como se fôssemos vândalos. 

Quando chegamos ao lado da Biblioteca nacional tudo pareceu se acalmar de novo. Os alunos do IFB, ocupação, diversos campus ali, resolveram pegar ônibus e ir embora. Fiquei sossegada quando eles tomaram esta decisão, pois algo me dizia que ainda viriam mais bombas. 

Fizeram uma barricada e ainda não tínhamos chegado perto das laterais quando eu e minha filha resolvemos ir para ela. Lá perto, aquecendo no fogo, perto de camelôs, encontramos o jovem Thiago, que tinha sido atropelado ao meu lado por senadores, em protesto naquele jantar de 2 milhões de uns quinze dias atrás; em outro momento a companheira Tati do coletivo Rosas Pela Democracia  e outros companheiros do PCO. Mas meu alívio foi encontrar um aluno da ocupação IFB que estava desaparecido até então. Quando o encontrei já tinha perdido a Tati, depois perdi o Thiago, mas ele e minha filha estavam por perto, e, a maioria dos alunos já tinham ido embora. 

Uns estudantes da federal de Viçosa gritaram para voltarmos, mas não deu tempo, agora estávamos atrás da Biblioteca Nacional e novas bombas vieram, alguns conseguiram subir as escadas da rodoviária, nós ficamos acuados entre parede das paradas de ônibus e as bombas, não dava para se mexer, foi uma sensação de gado chegando ao matadouro. 

Bombas e uma parede: péssima combinação. 

Corremos para a lateral, iria para a S2 e já andaria até o meu carro estacionado perto do anexo 2, naquela esperança que eu estava que a manifestação seria tranquila e terminaria onde estava combinado, em frente ao congresso, deixei ele onde estava previsto para ser o final dela. Assim já estaria perto do carro. 

Contundo, ao descermos para a S2 vimos nas laterais policiais atirando balas de borracha, mirando primeiro para estudantes e trabalhadores em cima da rodoviária. 

Embaixo vinham mais policiais. Ao ver que passavam ônibus comecei a pedir pelo amor de Deus que algum motorista abrisse as portas. Meu aluno passava mal, os policiais apontavam para nós agora. Um ônibus abriu e nos deixou entrar. Ouvimos a bomba pegando no ônibus, a cobradora gritou, o motorista acelerou. 

Rodamos sem saber para onde, percorremos Asa Sul toda, fomos parar de volta em cima da rodoviária. Nisso já passava das 23 horas, Conjunto Nacional estava fechado, ali perto caravanas de estudantes, de vários lugares, descansavam. Parece que por ali não havia bombas. 

Postei no grupo de zap e um companheiro solidário de luta foi nos buscar, me levou para meu carro e aluno para ocupação. 

Zero horas, chegávamos em casa, e,  ainda líamos relatos de companheiros advogados pela democracia que percorriam delegacias atrás do estudante Bruno Leandro, desaparecido. Também soubemos que o estudante de Niterói não estava morto, apenas teve fratura craniana, porém estava bem e vivo. 

Foi um dia triste para a democracia, para os sonhos de uma sociedade melhor, mais justa e igualitária, aqui fica o relato de alguém que sempre lutou e que fica feliz de estar ao lado daqueles que lutam por este sonho. Todavia, fica também um pedido de ajuda internacional, porque estamos em regime de exceção no Brasil. 

Camila Tenório Cunha, mãe, professora mestre de um IF. 

30/11/2016

P.S.: Na página do Mídia Ninja há escritos também e um vídeo da Benedita da Silva, feito por minha filha contribuidora  ninja, que fugia às vezes para confusão enquanto descansávamos na grama, antes de novas bombas:

https://ninja.oximity.com/article/Pol%C3%ADcia-Militar-ataca-estudantes-1

P.S.1: Acabei de receber e ainda não confirmei, uma nota por whatssapp de alguém que esteve em contato com coordenador da FASUBRA e disse que um estudante morreu, pois tinha asma e o gás de pimenta foi fatal. o medo que estava com relação à minha filha.

P.S.2: Parece que aluno Bruno Leandro foi encontrado, recebi por whatssap, esperando confirmação segura de novo. Relato dele nas redes sociais, em áudio e gravação confirma que foi, inclusive, torturado. Tempos sinistros.

P.S.3: Da UNIRIo está desaparecido Seimour Souza, até então.

P.S.4: Jovem do ENEGRECER também está sumido até agora.

P.S.5: Companheira do Rosas disse que conseguiu contato com coordenador da fasubra e o estudante não morreu.

P.S.6: Bruno Leandro realmente foi encontrado, está preso, só não temos confirmação se já foi solto.

P.S.: Bruno Leandro fez relato que sofreu torturas e foi levado com capuz na cabeça sem saber para onde.

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Porque a luta dos estudantes é a luta por um Brasil melhor:

Não está sendo fácil esta luta.” A aluna Che, 17, da escola Gisno, falou na TV Senado: “Acham que estamos brincando, estamos dormindo no chão frio quando poderíamos estar na nossa casa?” E fez outras denúncias sobre as ameaças de grupos contrários às ocupações.

Sabemos que alguns grupos são financiados pela MBL, numa noite estes alunos do Gisno receberam tantas ameaças dos grupos fascistas que vários educadores e companheiros que acreditam na luta dos alunos foram fazer vigia lá. Eu estava lá na porta também, nós adultos que lutamos contra a PEC 55 e apoiamos a luta dos estudantes algumas vezes temos feito vigia do lado de fora, para protegê-los do lado de dentro, principalmente desde que ocorreram incidentes mais graves com os grupos fascistas.

 Passei a noite em claro, apesar de adorar dormir. Vimos um carro com grande aparelhagem de som ficar gravando nossa conversa. Fomos perguntar e disse que era para uma pesquisa antropológica. Conhecendo antropólogos diversos, inclusive alguns estavam em nosso grupo de apoio aos alunos, não acreditamos.

Todavia, ele tinha o direito de estar lá, assim como nós. Mesmo, com certeza, estando em lados opostos, ambos tínhamos este direito. Apenas assustava saber que estávamos em lado oposto e estávamos sendo gravados.  O que as pessoas não compreendem é que a luta dos estudantes é a luta por um Brasil melhor. Quando eles lutam por educação de qualidade, contra esta MP que nos foi colocada goela abaixo (um debate democrático sobre melhoria do ensino médio até estava sendo feito), contra a pec-da-morte, PEC 55, lutam por um Brasil mais justo (que até vinha se construindo).

Venho dizer mais de uma vez, estou no trabalho de educadora com classes populares há vinte anos. Ainda no começo deste ano e final do ano passado ouvi histórias de alunos no IFSP, campus São João da Boa Vista, uma rica cidade no interior de SP, que só não passaram fome porque recebiam o bolsa família. Como um aluno estudaria tanto quanto o IF exige sem precisar trabalhar e com mais seis irmãos, mãe doente, pai que abandonou o lar, sem bolsa família, sem assistência estudantil? Eu me lembro de ter ido levar ajuda – pessoalmente e quieta – para alguns alunos do Programa Curumim no final dos anos 90, ainda com FHC. Aquela época a política social não funcionava, a inflação crescia, tínhamos 32 milhões de miseráveis no país.

Muitos me dizem: “Apenas números, Camila”. Como educadora vi que não são apenas números, vi vidas se transformando, vi alunos que de outra forma não teriam chance de receber uma graduação, só com o PROUNI, o FIES ou a assistência estudantil  conseguiram.

Quando fui trabalhar no IF (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) vi vidas se transformando, alunos entrando pelo ENEM em universidades públicas de renome porque receberam um bom ensino médio(EM). Um EM que a imprensa e o governo golpista não dizem, mas que ficou na frente em notas do  ENEM. No IFG, por exemplo, de dez escolas nos primeiros lugares do ENEM, oito eram do IFG e IF Goiânio.

Por que dá certo? Porque paga bem seus professores com chance para que eles sejam dedicação exclusiva, preparem aulas, tenham recursos, façam mestrado, doutorado. Porque eles, estudantes, recebem uniformes, livros, assistência estudantil. E as disciplinas retiradas pelo novo governo estão lá? Sim, e, espero que não saiam porque todas auxiliam na formação de um ser humano melhor.

Rubem Alves desde a faculdade é meu escritor favorito e num texto ele diz que o mesmo conhecimento pode produzir armas nucleares ou curar o câncer, queremos que tipo de Brasil? Que tipo de seres humanos queremos nele? Um que só pense em seu próprio bolso e interesses individualistas ou um que pense no coletivo, com interesses humanistas, sociais, sustentáveis?

Quando os estudantes brigam contra a PEc 55, brigam por todos nós que queremos um Brasil onde todos tenham acesso aos serviços públicos de qualidade, e, isso significa melhor qualidade de vida. Quando eles brigam contra a MP-da-goela-abaixo, brigam por educação de qualidade, que forma melhores cidadãos, portanto, mais uma vez, brigam por nós.

Por um país onde as pessoas não pensem apenas em seu próprio umbigo, sua vidinha cômoda, seu bolso, mas um lugar com pessoas com visão coletiva, humana e sensível, com espaço democrático para serem assim.

Espaço sem fome, com conhecimento, sem miséria. Prefiro ajudar na luta dos estudantes,  levando alimentos nas ocupações, do que voltar a levar cesta básica para alunos, como já fiz nos idos anos 90.

Prefiro ajudar estes estudantes que sabem brigar, de maneira ordeira, criativa, disciplinada,  para que a justiça social permaneça. Brigam para que as políticas públicas que reduziram a miséria nas últimas décadas permaneçam. Brigam, sem dúvida, por um Brasil melhor. Brigam por nós.

Camila Tenório Cunha, 13/11/2016, professora mestra de um IF.

Abaixo foto com estudantes e a senadora Fátima Bezerra, (PT_RN) em audiência pública sobre a PEC 55 e os rumos da educação:

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