Palavras soltas.

         Hoje tentarei achar um espaço para compartilhar minhas escritas, que são simples desabafos! 

          Além disso, gostaria de fazer deste espaço um lugar para discussões variadas… Como sobre a morte.

          Nos últimos tempos recebi muito a visita da poetisa Morte, como ela se apresenta no livro “A Menina que roubava livros”. Esta senhora passou demais por minha vida nos últimos tempos  e ainda a ronda, já que minha mãe está com câncer. Levou avós e pais de pessoas queridas, amigos caninos, crianças em tenra idade…  Não senti que as pessoas que ficaram sofreram menos ou mais, todas sentiram a imensa dor que sua visita traz. Não há intensidade para a dor, é sempre dor.

         Outro dia escrevi um texto que compartilhei com amigos por e-mail sobre isso, agora o colo aqui:

        Vida: em sua livre e finita expressão.

         Este texto, mais uma vez, é um desabafo.

        Não sei o motivo de estar convivendo tanto com a dona Morte há um certo tempo, mais do que quando era jovem.   Avó materna, amigos caninos que viveram bem ao meu lado e a idade os levou, pais e avós de amigos  queridos, crianças tão pequenas que deixaram por aqui pais tão doloridos: desta dor que Mandela diz que é uma “ferida invisível, que fica ali, não cicatriza nunca”…

        Não gosto, tanto como um amigo querido, do livro “O Caçador de Pipas”, pois apesar de ser ficção trata da morte que deixa vivo. O abuso sexual é uma morte que deixa a criança, especialmente esta, morta em vida. Eu sei, trabalho há anos com crianças de ensino fundamental e as que eram vítimas assim custavam a aprender, a chama dos olhinhos não brilhava, pareciam mortas em vida. O autor sabia  pouco sobre o assunto, não viu de verdade as vítimas deste abuso, porque elas só se levantam depois de muita terapia de todos os jeitos:  a ludoterapia, a musicaterapia, a dançaterapia e até mesmo a monstroterapia (quando a criança consegue matar bruxos e monstros que a assombram pelos jogos). Isso que o personagem abusado fez de casar, ter filho, amar, sem nenhum apoio e ajuda, é ficção. Eu sei.

        Prefiro, então, outra ficção: “A menina que roubava livros”. Neste a dona Morte é uma senhora que recolhe os mortos com carinho, com amor e respeito pela vida! É uma senhora poética, que entende da compaixão, da vida, da beleza e da tristeza dos que ficam. Ela conta  a história de uma menininha que luta para sobreviver à II Guerra e que ama todas as vidas. Independente de sua religião, classe social, raça… Prefiro este que mostra uma criança viva e real, dentro do  olhar poético e surreal da Dona Morte.

                 Ontem, uma terça, dia de folga para mim, trato um canal   dentário chato, dei de estar entre os 10% da população que tem um  quarto canal. Poderia estar entre os 10% mais ricos ( se bem que logo  estaria entre os que distribuíram esta riqueza), mas não… Estou  entre os que tem um quarto canal. Estava indo para lá quando vi um border collie atropelado na entrada de Ouro Preto. Fiz uma prece, mas  quis pensar que ele só estivesse deitado ali porque queria. Quando  voltei: ele ainda estava lá. Desci do carro, olhei: seus olhos pediam  ajuda. Imploravam pela vida.

            Liguei para uma ONG de Itabirito que contribuíra outras   vezes, informei a situação à veterinária. Ela me disse que eu deveria   levá-lo lá porque se ela saísse, até que chegasse, ele poderia estar  morto. Então arrumei um dono de um caminhão que aceitou me “ajudar” a  levá-lo por 150 reais. Achei caro, mas nem questionei. Não saberia colocá-lo sozinho no meu carro e ele estava ameaçando morder. Com o  motorista e um  trabalhador do lixo muito gentil que estava por ali (e  que me contou como eles matam na zoonose de Ouro Preto), conseguimos fazer uma maca de madeira e colocá-lo na carroceria do caminhão.

        Num outro momento de minha vida salvara um cachorro assim,  levara para uma veterinária em Campinas. Ela aplicou remédio para dor, anti-hemorrágico e depois de 5 cinco dias o Benji (como o chamei  depois), viveu por mais 13 anos!

         Fui então até a ONG Vida Animal, de Itabirito, e o vi ser  atendido. A veterinária falou que “eu podia ir porque já havia feito  muito”. Preenchi uma ficha com meu telefone e endereço e a atendente   falou que me daria notícias. Liguei às 14 horas e a atendente disse   que ele estava no soro. Não saí de casa à espera de notícias. Hoje de   manhã liguei de novo e atendente disse que “tentaram me ligar ontem,  mas não conseguiram” e que ele “deu para gemer muito, então resolveram  sacrificar”.

        Não entendo o direito de abreviar a vida, chamar a Dona  Morte sem que ela tenha vindo por espontânea vontade. Não temos este  direito, praticar eutanásia, nem com o ser humano e nem com animais. Sou vegetariana numa  família de carnívoros, desde que não haja sofrimento entendo o lado do  alimento, se bem que pessoalmente viveria melhor na Índia, onde a doce  vaca é sagrada…

        Entenderia que ele ficasse ali e sucumbisse se assim tivesse que ser, que tomasse um analgésico se estivesse “gemendo muito”…  Mas tirar a vida assim, “porque gemia muito”? Se isso fosse motivo –  gemer muito – minha avó materna não teria chegado aos 70 anos e morreu  (assassinada pelo sistema público de saúde de São José dos Campos, SP)) aos 93 anos. Não acho que devemos brincar de “ser deus”. Acredito numa força Maior que  sabe quando Dona Morte deve chegar ou não. Nós não sabemos se ela  deve chegar ou não.

            As dúvidas sempre nos salvam de sermos anti-éticos. As dúvidas sempre salvam! Se realmente tivessem ligado para mim e pedido  permissão, diria não e o cachorro talvez vivesse 13 anos, como o Benji.

             A livre expressão da Vida e da Morte. A Vida… Na dúvida: lutemos por ela.

            Se lutamos, mas recebemos a visita da Dona Morte, então, paciência.

           Se não lutarmos pela Vida, se a amordaçamos como um  ditador, autoritário às expressões, às artes, à Poesia. ..       Não temos direito sequer do olhar piedoso e poético da Dona Morte.

              Como o prefeito de Florianópolis, que proibiu a Arte nas ruas. Isso é um autoritarismo, uma proibição da Vida em seu lado  poético e livre.

               Ninguém deve proibir a Vida.

              Eutanásia e calar a arte:  tudo isso é proibir a Vida em sua livre e finita expressão.

Camila Tenório Cunha

             

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9 Comentários

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9 Respostas para “Palavras soltas.

  1. Hi, this is a comment.
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  2. Marcelo Russo

    Lindo! Eu já havia lido e só aceitarei não receber mais seus e-mail’s porque agora criaste este espaço belíssimo, como suas palavras, pequena Camila…
    Vida Longa ao seu blog! Que aqueles que recebiam seus e-mail’s (e os que não recebiam) e nunca acharam isso ruim possam se deliciar neste espaço!
    Fico feliz por estar aqui, também.
    Vida Longa, Camila!
    Vida Longa!

  3. Simone Martins

    Camila,

    Se no mundo existisse mais pessoas com o coração tão bom quanto o teu, ele seria bem melhor..

    Parabéns!

    Você merece um lugar especial para divulgar seus profundos e lindos textos.

    Abraço!

    • profacamilatc

      Obrigada, Simone!
      …Ainda bem que tenho amigas e amigos tão especiais que até me acham especiais! (risos)

      Abraços, com carinho e gratidão.

  4. yuridc

    O ser humano se protege tentando abreviar seu sofrimento, e muitas vezes o sofrimento daqueles que ama. É uma proteção.

    É complexo. Quem somos nós para sabermos se nosso ente querido aprende mais indo ou ficando?

  5. Oi Cá!!! Achei show a idéia do blog! O lay-out tá mto incrível! Mas amiga… vc precisa pensar mais em coisas boas!!! A morte faz parte de nossas vidas, é o que nos movimenta, nos faz escalar montanhas e resolver problemas. Faça do cada dia o dia mais importante de sua vida, pois poderá sempre ser o último! rsrsrs Bjão

    • profacamilatc

      Mas é isso mesmo, Ká. Temos que viver cada instante como se fosse o último, só que se nós vamos embora, não tem problema, a questão que discuto aqui é lidar com o sentimento de perda. A dor de quem fica… Esta dor que tenho visto muito nos últimos tempos.
      Beijos

  6. Deise

    Amei, Camila, o seu espaço, bacana mesmo essa de compartilhar as suas idéias, sou suspeita pra dizer que gosto do que vc escreve, sou sua fã mesmo, te acho brilhante!!!!! Curto a forma que vc se expressa, seus cartões, suas mensagens, sua sensibilidade, sua criticidade, sua determinação.É uma pena estarmos tão longe fisicamente, né? Aqui é uma forma de encurtar essa distância.Que possamos aproveitar ao máximo enqt estamos aqui neste mesmo planeta. Vc comenta em seu desabafo sobre a “ronda” da srª morte… lembro da frase:”a dor é inevitável mas sofrer é opcional” ela tem me ajudado e espero que te ajude tb. BJK com saudades

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