O Contador de Histórias

http://www.youtube.com/watch?v=1Aqn_jO_HAM

      O Contador de Histórias:

 

       O Contador de História, filme de Luiz Villaça, é o melhor filme que vi este ano. Não só por ter imagens lindas, cenas bem feitas, mas por tratar de assuntos sérios sobre a criança e o jovem.

         Na primeira cena do filme temos o pequeno com 13 anos  deitado na linha do trem à espera da morte. Pensei: ele sofreu alguma violência ou abuso sexual. Uma criança ou jovem com o olhar perdido e à procura da morte: só pode ser isso. Depois a história  volta algumas semanas antes daquela cena e tudo se confirma.

         A FEBEM da época era divulgada às classes populares (anos 70) como uma solução para o futuro de seus filhos e assim o pequeno Contador de Histórias  fora parar em uma delas, para dela fugir milhares de vezes. O filme, baseado em uma história real, só vem comprovar que esta política pública que institucionaliza vai pelo caminho errado e as novas Leis de Adoção, sancionada há pouco pelo Lula, caminham na direção certa!

           Assim como a política de Renda Mínima, divulgadas e batalhadas pelo senador Eduardo Suplicy, além da ajuda para agricultura familiar,  bolsa família e a bolsa escola, apoio às cooperativas e todas estas políticas públicas que resgatam as famílias das crianças: indicam um caminho mais seguro do que as instituições!

            O pequeno Contador de Histórias teve a sorte de ser adotado por uma pedagoga francesa, ainda com a dor da violência sofrida, depois de se achar azarado até por “não” ter sido atropelado por um trem, ele se abrigou de vez na casa desta paciente educadora. Educadora que ele tivera contato antes da violência e que – aparentemente – não se importara muito, contudo, após a violência, buscara lá um abrigo seguro.

            Lá na casa da pedagoga ele encontrara um lugar para ouvir histórias sobre monstros marinhos de muitos tentáculos – como aqueles braços dos jovens mais velhos que o violentaram – e de um capitão que matava estes monstros do seu submarino (Vinte Mil Léguas Submarinas, de Verne).  Além de histórias de monstros mortos aprendera a andar de cabeça erguida, a amar sua cor, a se aceitar, e que era digno de carinho e limites!

               Recebera na casa da pedagoga algo que podemos chamar de lar e que na FEBEM ele perdera. Um vínculo, sensação de pertencimento, algo que nos faz humanos, sem “vigiar e nem punir”, como a FEBEM costuma fazer, aliás, hoje com nome que lembra casa, mas não acredito que  lembre um lar. Por isso acredito mais no resgate das famílias, em projetos que busquem o tratamento familiar, ou familiares possíveis, e ainda, em ajuda financeira às famílias sem que estas precisem abrir mão de seus filhos ou perdê-los para o trabalho ou a exploração.

              Na FEBEM da história, nem a minha categoria profissional escapara, já que havia uma professora de Educação Física, que na visão do pequeno, então com seis anos, lembrava um hipopótamo. Numa idade em que temos tanto a fazer, nem que fosse um polichinelo como brincadeira (estrela-foguete, semelhante ao morto-vivo) depois, ou antes, de outros jogos, lógico, mas não, esta os deixava no polichinelo seco, sem direito à fantasia ou jogos, enquanto lia revistas!!

           As pessoas que trabalham nestas Instituições se sentem “carcerários” e não educadores. Acham válido torturar e não pensam que isso é um abuso de poder que pode comprometer ainda mais estes jovens.

          Quando alguém se aproxima, sem medo do vínculo, do subjetivo, do afeto: faz milagres aos olhos dos “carcerários”. Educar é criar vínculos, afeto, para ensinar compaixão, humanismo, sem humilhar jamais, é preciso enxergar além nos olhos do educando, o que vai atrás da pupila triste.

                A educadora francesa foi mãe sim, fez este papel, todavia, fez um papel que não é impossível aos educadores: oferecer carinho, ouvir e dialogar com respeito. Isso alguns projetos já tentam (como o Aquarela, em São José dos Campos): trabalhar com famílias desestruturadas através da valorização dos diálogos e resgate dos nós de afetos rompidos. Só que é preciso mais: oferecer condições para estas famílias terem qualidade de vida. Isso que tenta fazer o projeto Renda Mínima e isso que nos faz admirar a Reforma Agrária e Urbana, já que ainda temos muitos latifúndios improdutivos, além de “mono plantações”. Quilômetros de cana e soja não matam a fome e espantam as famílias para os viadutos das cidades. Por isso o MST ainda luta: até que cada família esteja produzindo e se alimentando pelos latifúndios que atrasam o Brasil.

            Muito já foi feito e muito ainda poderá ser feito para que apareçam mais Contadores de Histórias: crianças que puderam ser ouvidas, respeitadas, amadas e que um dia possam transmitir sabedoria e amor através do seu trabalho, como hoje o  Contador desta história pode fazer. Ele foi resgatado por uma mãe adotiva: que muitos possam ser por suas mães reais!                     

          

 

              Camila Tenório Cunha

              11/08/2009

 

P.S.: Quem estudou na FEF- UNICAMP comigo e puder assisitir o filme: depois me escreva e diga que professora a pedagoga francesa nos lembra!

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7 Comentários

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7 Respostas para “O Contador de Histórias

  1. ESTELA MARIS

    eu não assisti o filme mas gostaria!!!!!!!
    onde posso achar?

  2. ESTELA MARIS

    pronto já achei não tinha visto o inicio com osite do youtube

  3. Elaine

    Olá
    Li seu comentário e vou assistir o filme.
    Beijos

  4. Yuri

    Belo texto.

    Eu também acho que as novas oportunidades devem ser aproveitadas, sempre. Tenho esperança de que a nova lei de adoção funcione realmente para levar as crianças do país a famílias que passem o amor e a educação, coisas tão importantes para a vida de um ser humano.

    Tentarei ver o filme.

  5. Moça, parabéns pelo texto e pela iniciativa do blog,

    Abração e até breve!

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