Carta às amigas e amigos de SP, inclusive os mineiros em SP, sobre algumas diferenças culturais entre SP e MG:

Cartas às amigas e amigos professores de SP sobre diferenças culturais entre SP e MG:

 

 

   Queridas amigas e amigos tenho me lembrado com saudade das reuniões, inclusive os HTCs duas vezes por semana! É que, tanto no SESC como na prefeitura, as reuniões começavam no horário e terminavam no horário e embora eu ame a politização dos mineiros, prefiro a pontualidade paulista do que a mineira. A mineira é muito estranha e logo me explicarei, mas antes quero dizer que minha colega Nanci professora de português, minha colega Roseli e minha colega de faculdade, Tatiana, são exceções, todas sempre chegaram na hora marcada, por isso não fazia idéia de que “pontualidade mineira” fosse algo tão diferente.

       Colegas, vocês podem se lembrar quantas vezes nem almocei para estar às 13 horas nos HTCs? E que estive? Pois é, aqui fiz a mesma coisa, saia às 12h15  e ia buscar minha filha que já tinha saído às 12 da escola e estava esperando na porta dela. Eu a levava para o inglês às 12h30, sendo que ela teria aula somente às 13h30, para que eu chegasse às 13 nas reuniões do IFMG, campus Ouro Preto.  Então chegava quinze ou até meia hora antes, como sempre fiz, às reuniões. Mas vocês sabiam que o mais cedo que elas começaram foi 13h40?? Todas que participei começaram  com uma, uma e meia ou duas horas de atraso!! Acreditam? Mas isso é considerado pontualidade por aqui… A não pontualidade é sair “cedo”…

       As coordenadoras em SP diziam: “ Se vamos discutir este assunto que não está na pauta, vou lançar  este outro para a próxima reunião porque senão atrasaremos a saída.” Nunca vi acontecer nada assim, assuntos extras eram acrescentados e mesmo com a reunião tendo começado com duas horas de atraso estes assuntos eram discutidos… Só que sair “cedo”, 16h30,  mesmo para quem chegou meia hora antes do horário marcado, é falta de pontualidade, acreditam??

        E se minha filha está com fome e sozinha, o “ problema é meu”, disseram. Se sair ninguém tem nada com isso, aliás, nunca ouvi minhas amigas mineiras aí de SP falarem deste jeito, elas sempre foram tão solidárias, mas aqui eu ouvi muito isso: “problema meu e ninguém tem nada com isso”. Mineiros de SP, vocês me fizeram achar que aqui todos seriam solidários, hein? Não senti isso aqui, não… Se sair mais “cedo” o “problema é meu”, se eu quis chegar antes do horário, o “problema é meu”, mas eu que aguente porque não serei considerada pontual por chegar no horário, apenas se sair quando as pautas super vitaminadas terminarem.

       Mesmo doente e com dor fiz questão de chegar no máximo às 7h15, como combinado com os alunos, alguns moravam em Itabirito e os ônibus só chegavam às 7h15. Logo os jovens aprenderam o que aprendi na infância em SJC: a chegar com pontualidade. Ah… Se  eu quis voltar antes de acabar a licença médica – oficialmente minha licença acabava 03/11 e eu voltei 13/12 –  com dor, o “problema foi meu”, mesmo que tenha voltado para ser solidária  com os colegas e responsável com os alunos, “fiz isso porque quis. Quem mandou eu fazer?”  Saí mais “cedo” de todas as reuniões, então não sou pontual. Engraçado é que a última reunião estava marcada para 8 horas da manhã, só para variar eu cheguei às 7h30 e como uma colega (que teve nota dez em pontualidade, pasmem!!) chegou às 9h20, a última reunião só começou 9h20.  Aliás, este bimestre aconteceu umas quatro vezes, vinha o auxiliar de ensino e dizia:  “ Fulana chegará  ás 8h, se aluno dela te perguntar avise.”    Entretanto, ela avisou e isso aqui em Minas não é considerado falta de pontualidade, por isso ela teve dez em pontualidade. São diferenças culturais.

        Cheguei até a chorar achando era perseguição comigo, brincadeira de mau gosto, depois de tanto sacrifício para ser pontual, inclusive doente,  não me avaliarem    com dez em pontualidade. Parecia injusto. Contudo: são diferenças culturais. A pontualidade, o sentido de responsabilidade mineiro, é muito diferente do paulista.

       Eu me lembro com nove, dez e onze anos, eu fazia balé e natação, além da escola. Morava perto destas coisas e como minha mãe trabalhava em três escolas eu ficava controlando os horários e chegava sempre meia hora antes das minhas aulas. Pontualidade em SP significava começar na hora, para não ter risco de atrasar, o ideal era chegar antes. SP digo o estado, porque embora tenha nascido em SP, cresci em São José dos Campos. Contudo em Campinas, quando fiz graduação e mestrado, as coisas funcionavam assim, com a pontualidade paulista. As reuniões do FOCUS (FE-UNICAMP) começavam na hora marcada e muita gente chegava meia hora antes como eu, isso rendia papos informais gostosos. Terminavam no horário combinado e olha que tinha mineiros lá, só que acho que logo eles aderiram ao jeito de ser pontual de SP. Por que não consigo me adaptar ao jeito de ser pontual mineiro? Por que isso me incomoda tanto?

         Algumas aprendizagens culturais, como o sentido de pontualidade, é difícil de ser mudado.

        Outra coisa é que em SP o “problema de um colega” é também o seu, isso nos faz humanos, compartilhar problemas, soluções e alegrias. Aqui não, cada um que se cuide, todos são fechados e compartilhar a vida é algo “feio”, que “enfraquece” a pessoa. Não poderia imaginar tantas diferenças culturais porque minhas amigas mineiras não eram assim, todas compartilhavam as alegrias e tristezas da vida, sem medo que isso significasse algo ruim, de fraqueza. Todavia aqui todos se fecham, não ajudam quando estamos com problemas porque não estão acostumados que os “problemas dos outros” sejam compartilhados. Pelo menos os mineiros que conheci aqui foram assim, bem diferentes dos mineiros que conheci em SP. O que nos torna humanos é capacidade de compartilhar: alegrias e mazelas. Animais até demonstram a tristeza, a alegria, o medo, porém não compartilham. Não expressam e nem esperam que alguém venha entendê-los.

      Como funcionou minha adaptação cultural com a categoria profissional que mais costuma se atrasar em todos os lugares do mundo, os médicos? Eles foram pontuais para os mineiros. Quando fui fazer o agulhamento para operar cheguei meia hora antes, pontualidade paulista, o médico chegou atrasado e fiz o agulhamento com duas horas de atraso. Como o agulhamento era feito há seis quarteirões de onde operaria, fui a pé para não pegar trânsito e não me atrasar para a cirurgia, deste modo, cheguei meia hora antes. Lá o médico atrasou duas horas. Tudo dentro da pontualidade mineira casada com a da categoria profissional: isso deu um atraso de quatro horas em tudo.

     Quando minha mãe foi operada, as duas vezes nos cansamos de tantas visitas de colegas, com sopinhas, com chocolates. Aqui fui operada e apenas um colega  apareceu! Ele e a esposa se mudarão para Goiás agora em dezembro, no entanto, junto com o auxiliar de ensino da educação física, são os únicos que se encaixaram muito no perfil de mineiro que conheci em SP: solidários, abertos, sinceros… Acho que os mineiros se adaptam bem em SP, conheci mineiros que estão em SP há mais de quarenta anos, logo se acostumaram com a cultura da pontualidade, mas confesso que está difícil entender e me acostumar com  esta cultura mineira.

           Por enquanto, ficarei por aqui tentando entender a cultura mineira, no sentido de solidariedade e pontualidade, com muita saudade da cultura de SP. De novo: feliz natal e um ano novo repleto de alegrias e solidariedade se houver tristeza.

        

          

     

       

      

    

           

          

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

3 Respostas para “Carta às amigas e amigos de SP, inclusive os mineiros em SP, sobre algumas diferenças culturais entre SP e MG:

  1. ESTELA MARIS

    Mineiro é mineiro
    Gente é gente
    Carangueijo é carangueijo
    A essência é a diferença.

  2. Julio

    Pôxa… Na verdade senti boa parte das mesmas diferenças quando mudei de BH para OP… Principalmente sobre a pontualidade…
    Quando a solidariedade eu não me surpreendi… Mas acho que isso seja mais um problema da instituição… As pessoas não se envolvem com as outras lá. Já vi mineiros reclamando disso também…
    Beijos

    • profacamilatc

      Júlio, tudo bem? Acho que também a questão passa pela instituição, inclusive, a última vez que estive aí, uma pessoa de outro setor falou que o negócio anda feio em vários setores do IF… Muita falta de solidariedade… Acho que passa também pelo que falei no último texto, pessoas que não são bem resolvidas com o poder… Pode ser pequeno ou grande…
      Sobre a pontualidade: eu me assustei! Mas se você diz que em BH é diferente, então acho que é mais uma coisa própria de OP…
      Sobre a solidariedade, encontrei na vizinhança (veja o texto sobre Gentileza: ser vizinho no Brasil), mas no IF ficou a desejar, viu? Isso prova que vc está certo, deve ser da instituição que estamos…
      Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s