“Problemas” com o poder:

                                           

         Há tempos não escrevo porque ando tão indignada que o melhor foi me calar… A direita que defende os militares, estes que não sofreram tortura, mas torturaram, mataram e sumiram com estudantes, sindicalistas, religiosos, artistas e intelectuais na ditadura, estes mesmos que calaram para sempre Geraldo Vandré, agora acham que tudo deve ser “esquecido”? Esquecer a história é arriscar repeti-la, contudo, isso não é o pior, o pior é a ameaça velada que os políticos de direita fizeram ao defender os militares: “Cuidado para não cutucar onça com vara curta…”.

         Então, comecei a refletir que os problemas de injustiças, perseguições e violências neste mundo passam por pessoas mal resolvidas com isto de se  “estar no poder”. Algumas estão nele e continuam sensíveis, abertas ao diálogo e até mesmo às críticas. Lula disse à mãe de Caetano que ele tem todo direito de não gostar dele e expressar isso, assim como ele mesmo de preferir Chico ao filho dela. Segundo Frei Betto, em Calendário do Poder, um diário sobre os dois primeiros anos do governo Lula, Lula é uma das poucas pessoas que depois de estar dentro do poder continua sensível e que a mosca azul não o picou. Todavia, na maioria das vezes as pessoas quando possuem um pouco de poder não aceitam a mínima crítica ou contradição e por isso podem até mesmo cometer injustiças e humilhações. Quando não violências.

        Este é um problema histórico no Brasil, as elites sempre se acharam com todos os direitos, inclusive de humilharem e torturarem, enquanto ao povo sequer o direito de defesa. A velha história do Lobo e do Cordeiro no Brasil sempre funcionou, a elite, o lobo, sempre teve razão e o povo, o cordeiro,  nunca. Quem se lembra da revolta das Chibatas? Precisou que os marinheiros se revoltassem para que não levassem chibatadas… Depois desta revolta houve um tempo grande para que assimilassem o grau de injustiça e violência que estas chibatadas significavam…

      Chibatadas são históricas por séculos e séculos no Brasil… Hoje em dia elas são simbólicas, mas ainda existem. Acho que foi uma chibatada horrível esta que o senador Demóstenes Torres (DEM, para variar), disse: que as mulheres escravas eram violentadas com consentimento e que os escravos foram responsáveis pela própria escravidão. No mínimo  ele dormiu nas aulas de história… E os quilombos, a capoeira, nossa culinária, nossas canções de ninar – pegue este menino que tem medo de careta – o quanto isso não foi luta? Responsabilizou os negros pela própria escravidão, este senador é  de um partido historicamente da elite e a elite faz isso: luta pelo poder, finge que não houve “a” história, que nunca aconteceu nada de importante, fora os deslizes da esquerda, que luta pela maioria, por justiça social, direitos humanos, respeito às minorias excluídas, como mulheres, negros… Vamos lembrar: minorias excluídas, porém, jamais por consentimento, mas por violência real ou simbólica. Jamais sem luta e sem resistência, vejam: o movimento das mulheres negras já escreveu para este senador.

        Então percebo que existe neste mundo  pessoas que possuem “problemas com poder”: podem ser aquelas que sobem ao poder para defender interesses pessoais ou de seus grupos econômicos, outras que até são pobres, mas defendem partidos das elites porque assim “entendem” o poder. Tem também  outras ainda com um poder pequeno, destes da organização cotidiana,  que por isso não podem ser questionadas, possuem direito de usurpar ou fazer coisas que diz que aos outros não são permitidos. Estas pessoas do “poder menor”,  cotidiano,  como aquele porteiro implicante ou quem não viu: um cobrador de ônibus urbano que não deixa passar uma criança de colo sem pagar porque na correria os pais saíram sem os documentos desta? Ou o síndico que pede para ninguém lavar os carros no estacionamento, porém ele mesmo lava, ou obriga que todos só coloquem um carro, entretanto ele mesmo coloca dois, um na vaga de algum apartamento vazio? Quando são questionados – as pessoas do poder cotidiano, próximas de nós, como talvez  um chefe direto –  porque usurparam, roubaram ou abusaram, se  possuem “problemas com o poder”  continuam usando este poder para humilhar, maldizer, amedrontar ou ameaçar ainda mais aos subordinados!… Pessoas assim são em parte, responsáveis pelas tristezas do mundo.

            Temos que continuar lutando para que as relações humanas sejam sempre de respeito, verdadeiras e reais. Lembramos com carinho de um mestre que tivemos que ensinava com respeito, diálogo,  todavia, gostamos de nos esquecer daqueles que tinham “problemas” com o poder e usava o pequeno poder de professor para humilhar, dizer adjetivos ruins, que nos faziam sentir sem valor, sem inteligência, sem sequer o direito de existir.

        Estes  seres que nos humilham  gostamos de esquecer, não nos deixam nada além de lágrimas que um dia são esquecidas, aos primeiros somos capazes de nos lembrar de seu sorriso, sua doçura e até seu cheiro! Deste modo, olhando bem, as pessoas responsáveis pela alegria no mundo são bem resolvidas “com o poder”, usam o pequeno ou grande poder que possuem para amar!  É o cobrador, porteiro, professor, chefe, médico ou qualquer pessoa com poder que o usa para distribuir amor.

            A realidade é que poderes são passageiros porque a vida é. Lembramos de um ser que foi gentil, uma pessoa solidária e por sorte nos esquecemos destes que nos humilham. No poder maior nos lembramos de líderes como Gandhi, mas gostamos de nos esquecer  de um Hitler,  um esquecer que não significa deixar de punir seus responsáveis,  nem deixar que estes erros se repitam na humanidade.       

          Queremos a doçura de Gandhi, no grande e no pequeno poder, queremos punir com justiça aos responsáveis pelo regime militar no Brasil como foram punidos os responsáveis pelo holocausto. Não por vingança, apenas por sensação de justiça. Não por falta de perdão, apenas por crença de que um mundo mais justo, onde as barbaridades do poder não se repitam, é possível!!

 

Camila Tenório Cunha

16/03/2010

          

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

3 Respostas para ““Problemas” com o poder:

  1. Ja dizia Lenin: quer conhecer o homem, dar-te o poder…
    Belo texto, Camila…
    Estava sentindo falta
    Mvbjs
    Marcelo Russo

  2. Maria Luíza

    Ótimo texto, Camila, gostei bastante.
    Abraço.
    Maria Luíza

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s