Livro Meninos e Meninas na Educação Física.

 

                …Não é porque tem um capítulo escrito por mim, mas porque tem outros que acabei de ler e estão ótimos que hoje falarei deste livro! Quando enviamos um capítulo ficamos naquela ansiedade para lermos os capítulos dos companheiros, todos os capítulos apenas os organizadores conhecem! Finalmente li e gostei demais!

                    Os professores Jorge Knijnik e Renata Zuzzi organizaram este livro selecionando artigos, ajudando seus autores, para que ideias e pesquisas fossem divulgadas entre educadores.

             … Vale a pena lembrar que pode se considerar um educador toda pessoa que lida com outras pessoas e querem transformar: relações humanas, culturas, meios, sonhos e sonhos de um mundo melhor. Poetas, músicos, artistas, médicos – e tantos outros que às vezes nem pensam que podem ser educadores também –  mas que podem transformar injustiças em justiças, relaçoes de poder em diálogos, poesias em vozes de quem não fala, músicas em sonhos de quem nem dorme…

                  … Parte I: aportes Histórico-sociais:

                       ,,,Por isso acho que seja um livro interessante não somente para professores de Educação Física, mas outros educadores também. Temos um artigo de Sandra Unbehaum que nos fala da capacidade de transformarmos o espaço da aula de Educação Física em um espaço de direitos humanos, indo além da igualdade de gêneros, mas encarando esta questão como um problema  de direitos humanos, além disso, nos traz uma bela análise dos PCNs.  No segundo capítulo André Silva e Silvana Goellner nos remetem à história para falarem das doutrinas e ideologias perpassadas pelo corpo, nos remetem a eugenia e corpos masculinos “perfeitos” que deveriam se exercitar na Educação Física.

              Continuam o caminho da história da disciplina, mas entram no século XXI os professores  Jorge e Renata, agora no terceiro capítulo, sem se esquecerem do papel das famílias nos corpos infantis e nas diferenças de gênero que sempre se justificaram a partir das sexuais. Nos trazem a lembrança de que o ser humano é um “ser marcado por aspectos biológicos, culturais e sociais”, o que faz dos seres humanos semelhantes e ao mesmo tempo tão diferentes. Eles nos trazem a problemática de que muitas aulas, mesmo as mistas, ainda separam as atividades entre meninos e meninas. Nos lembram sobre a resistência de muitos professores às aulas coeducativas. Os autores dizem como a cultura é capaz de nos moldar a corporeidade “enquanto possibilidades de Ser” e o quanto as influências militaristas se arraigaram na Educação Física escolar! Por isso o educador deverá compreender a corporeidade feminina e masculina para além de seus fatores biofisiológicos, para que possam oferecer oportunidades de vivências, diversificar, promovendo a inclusão real. 

               Eu me lembrei de relatos de alunos que vieram de aulas em que ficavam nas arquibancadas em aulas de Educação Física junto com as meninas porque não gostavam de futebol e “os professores achavam mais fácil -segundo os alunos relatando suas histórias passadas com a disciplina –    entregar a bola para dez e ignorar os excluídos, do que “comprar briga com  turma do futsal” e dar uma aula em que todos pudessem participar, enriquecendo as aulas através das diferenças e buscando atividades diversificadas, até mesmo com o tema futsal.  Gosto de ouvir a história dos alunos com a disciplina no primeiro ano do Ensino Médio e é incrível como as histórias se repetem e muitos alunos possuem consciência de que deveria ter algo errado nesta forma de “aula”.

                     Parte II- Meninas na Educação Física:

           A segunda parte do livro é sobre as meninas na Educação Física. Patrício Casco relata sua experiência como professor e o quanto é importante que o educador interfira nas crenças dos alunos para  evitar as desigualdades e diferenças de gênero. Seguindo esta linha de experiência própria Fabiano, Fabiane, Renata e Fellipe relatam práticas de autoexclusão por parte das meninas; falam novamente em coeducação; nos trazem ainda o quanto ser uma mulher ou um homem é diferente de ser feminino ou masculino, já que os últimos a  cultura define e a primeira opção a biologia  já definiu. Sugerem que os educadores desenvolvam situações didáticas que possibilitem a cooperação e a solidariedade nas atividades sem enfatizar o rendimento, para não reproduzirmos o modelo hegemônico do esporte. Este modelo não cabe nas aulas de Educação Física porque apenas contribuem para a perpetuação de valores que enfatizam a disputa e a vitória, favorecendo a exclusão.

                 Gostei dos textos porque nos lembram a todo momento que educadores devem transformar: valores individualistas em cooperativos, competitivos em solidários, excludentes em includentes, viciados em diversificados. Um educador que não transforma e não se torna um “agente transformador da cultura ” (Daólio), nem pode ser chamado de educador, pois não há trabalho se não há transformação, há apenas afirmação das relações desiguais já existentes.

               …E por falar em relações que não se transformam temos o texto de Elaine Romero, que nos traz a interessante história do uso da palavra gênero:  nascida na história com as feministas que usavam esta palavra no lugar de “mulheres” para tentarem garantir a “neutralidade crítica”. Reafirma que esta palavra nos fala sobre o masculino e feminino como uma produção social e não biológica e ainda cita Messner e Sabo que definiram gênero como um jogo de relações de poder “por meio do qual, os homens, como grupo social, possuem mais poder sobre as mulheres”. Romero diz ainda o quanto a família, a escola e a sociedade convencem os indivíduoas a serem ativos ou submissos nestas relações. Também nos remete à história e o papel do esporte como elemento chave na represssão e na segregação e o quanto a Educação Física e a escola podem contribuir com um caminho diferente do que vem sendo trilhado até então.

                   Parte III- Meninos na Educação Física:

                  Na terceira parte temos “Meninos na Educação Física”, parte que se inicia com um texto de Cavaleiro e Vianna e começam com a frase “Deixa disso, menino! Jogue feito homem”. Recorrem à história também  à ideia de “corpo natural”  (Soares) , expressão que surgiu por influência da biologia e medicina na Educação Física e que a tornou esta ditadora de generalizações e homogeneidades. Neste ambiente os meninos são incentivados a competir e agredir e o esporte se torna um símbolo do comportamente “masculino”. Refletir sobre estas “naturalidades” é uma forma de superarmos estes padrões socioculturais e a dominação tipicamente masculina.  Ao educador cabe a ateção para não buscar a homogeneidade e aceitar as diferenças dos modos de ser e de viver, ter atençao para aquelas regras invisíveis que acabam por cristalizar desigualdades, excluir ainda mais, em vez de caminharmos na direçãos das igualdades.

                Silva e César fazem uma pesquisa entre professores de Educação Física e nos presentieam com as frases retiradas dos questionários que estes responderam, foi bem interessante pois algumas frases deixam a percepção de que o professor de Educação Física não pode ser um agente transformador. Um professor entrevistado disse: ” Educação Física e a escola são apenas reflexo daquilo que os alunos são em sua casa ou na rua, não interferindo de maneira profunda na personalidade da pessoa”. Todos os professores disseram que separam os alunos em determinadas atividades à pedido dos alunos, alguns disseram que as meninas possuem medo dos meninos que são agressivos nos esportes. Os autores lembram Bourdieu  onde o esporte é visto como uma cerimônia de masculinização. e ainda discorrem sobre a questão dos meninos que não se encaixam nas práticas consideradas “masculinas” serem excluídos dos grupos masculinos, talvez porque os professores estejam trabalhando com estas práticas no âmbito do rendimento e da performance corporal, elementos simbólicos associados à masculinidade hegemônica. Perceberam também que existia a vontade de diversos professores de utilizarem as aulas como instrumentos da construção de “outras formas de masculinidades”.

                      Muitas vezes somos arrastados pelo turbilhão cultural e social que nos cerca, neste turbilhão parece que nossas mãos pouco podem fazer para transformar, sonhar e desafiar dominações-violências-crenças. Este livro traz também um pouco de esperança quando percebemos que mais educadores querem “se” transformar e transformar.

                

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1 comentário

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Uma resposta para “Livro Meninos e Meninas na Educação Física.

  1. Jorge

    Otimo,Camila,otima divulgacao,e’ isso ai,valeu!
    bjs,Jorge

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