Bondade, gentileza e compaixão.

         Há muito tempo percebo que as diferenças entre algumas qualidades são imperceptíveis para quem convive com elas. Percebo que as pessoas bondosas, mesmo quando estão com problemas, continuam doces e gentis. Percebo que não se importam em dividir suas dores, porque sabem também dividir as alegrias. São também as pessoas que sentem “compaixão” e ficam tristes com as tristezas alheias.

      Tenho a mesma angústia de Rubem Alves como educadora: como ensinar a compaixão? Ensinar uma dança, um salto, um jogo é relativamente fácil. Todavia, como ensinar a sentir a tristeza que o outro sente?

         Olhando assim, de modo frio, são apenas dois adjetivos antagônicos: a bondade e a maldade. Mas quem já foi vítima de alguma maldade sabe que não é bem assim, do mesmo modo sabe que já viu muito mais bondade do que maldade, é que a maldade doeu tanto que marcou.

      Lógico que em alguns lugares existe “a regra social da gentileza”, aqui em São João da Boa Vista  eu fico encantada todos os dias quando os carros param antes das faixas para as pessoas passarem, faixas que nem possuem sinal!  Adoro este gesto daqui.

      Sei que isso se preserva porque é uma cidade pequena, quase  cem mil habitantes, talvez se transforme quando crescer. Eu fico na torcida para não crescer, mesmo que seja a única moradora nesta torcida. É que uma cidade como SP, por exemplo, as pessoas moram longe, estão com pressa, estressadas e o ritmo de vida não permite a gentileza.

       Voltando ao assunto bondade e compaixão, nestes 37 anos conheci mais pessoas bondosas do que maldosas. É que, em geral, uma única pessoa competitiva e estressada pode vir a perturbar um ambiente de trabalho, por exemplo, às vezes por pura insegurança faz fofoca e fofoca é uma arma que fica difícil a defesa porque ocorre pelas costas.

       Nos últimos tempos tenho percebido que o número de pessoas bondosas-sensíveis neste mundo é superior ao número das maldosas-endurecidas! Quando penso  nos vários lugares em que morei e nas várias pessoas que conheci: as bondosas estão na frente, elas ganham numericamente. Isso é um sinal que mesmo não sendo fácil ensinar “compaixão”, este ensino está ocorrendo!

     Quando morei em Minas tive alunos maravilhosos,  alguns vizinhos que nos ajudaram muito: alguns  com remédios, outros com passeios com minha cachorra quando fiquei doente…

      Quando em São José tivemos sempre vizinhos que nos ajudavam quando precisávamos, colegas de trabalho que nas horas difíceis da vida estiveram por perto, próximos mesmo… As amigas da minha mãe a ajudaram demais quando ela teve câncer:  nas duas vezes, na  mama e no  pulmão.

      Aqui em São João as pessoas estão sempre tentando ajudar, no trabalho, nas ruas… Já conheci grupos de jovens que se vestem de palhaços e levam alegrias todo domingo pela manhã aos pacientes da Santa Casa, aliás, lugar que minha mãe já esteve internada na ala do SUS e foi muito bem tratada pelas funcionárias e enfermeiras, como se estivesse na ala VIP. Nas ruas as pessoas sempre tentam nos ajudar a achar os lugares e quando não sabem saem perguntando e sempre alguém ajuda. Existe a regra social da ajuda, do sorriso e da gentileza. A parada para o pedestre é apenas um reflexo disso.

       Lógico que em todos os lugares existe “alguém  ruim”, aqui em São João, nesta mesma cidade gentil e sorridente, está ocorrendo (saiu na imprensa local) envenenamento de cães e gatos.

        Existe ainda muita gente  ruim em todos os lugares, porém ainda considero que o número de bondosos seja superior.

        Isso porque mesmo num mundo globalizado, onde a mentalidade do consumo, do individualismo, da pressa, da ambição, da urgência em se dar bem, e,  da competição sejam incentivados a todo instante, mesmo assim  nós temos jovens se vestindo de palhaços em pleno domingo pela manhã para fazer alguém esquecer um pouco suas dores.

        Então, mesmo que nossas escolas estejam esquecendo que educar não é só passar conhecimento,  deste modo mesmo alguma coisa acontece e ainda temos um maior número de bondosos neste mundo.  Mesmo que não seja ensinado, já que tudo leva a crer que o que é ensinado é o caminho contrário ao da bondade, alguma coisa acontece e os bondosos ainda formam o maior número de pessoas nesta vida. Ainda bem, hoje quis compartilhar esta minha “pesquisa” empírica da vida.

 

 

Camila Tenório Cunha

19/06/2010

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9 Comentários

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9 Respostas para “Bondade, gentileza e compaixão.

  1. Carlos Roberto theodoro

    Camila!
    Bom dia!
    Achei muito lindo seu comentário, gostei demais.
    Concordo plenamente com voce………….
    Ah a Carol da biblioteca esta montando um jornal com os alunos, seria um tema ideal para publicar….

  2. Kétura

    Olá, Camila!

    Parabéns pelo texto! Acredito nisso mesmo, que ainda há pessoas bondosas, mas que se não cuidarmos para praticar valores como bondade e compaixão, respeito ao próximo e ética, o mundo capitalista engolir-nos-á vivos!
    O que nos basta é: Confiar em Deus e praticar seus preceitos e ensinamentos!

    Um abraço,
    Kétura.

  3. Carolina Gallego

    Cá, adorei o texto!!! Beijos, Carol.

  4. Oi, pequena…
    Acho que precisamos ensinar mais do que a compaixão.
    Deixo a dica para “aprendermos a ensinar” um pouco mais: Escritores da Liberdade. É um filme meio “montado”, tenta resumir em pouco mais de uma hora e meia a história de dois anos de atividade pedagógica… mas nos mostra o quanto precisamos ensinar mais…
    Aos nossos jovens, ensinar a ter esperança. Como ensinamos isso?
    Vida Longa ao Blog…
    Abreijos
    MVbjs

    • profacamilatc

      Olá, Marcelo! Na época que escrevia textos por e-mail apenas para alguns amigos, cheguei a escrevr sobre este filme, também o considero ótimo!
      Na época que fizeram o filme não falavam em “bulling”, hoje está na moda, mas acho lindo aquele trecho que a professora desenha uma linha e vai falando sobre “dores”: “Quem já perdeu um amigo?” “Quem já viu um parente ser morto?” E os estudantes que eram “rivais” e distantes se encontram nesta linha e se olham e percebem que possuem a mesma dor, independente da cor, etnia, religião. Lógico que ela começa com alegria: “Quem gosta de tal música?” Etc. É um filme maravilhoso para discutirmos a diversidade com os jovens.

      Abrejios
      Mvbjs

  5. Alfredo Feres

    Ola Camila,

    Sua sensibilidade me faz muito bem!
    Paz e bem para você!

    Alfredo

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