Educação criativa e Educação Física.

Educação criativa  e Educação Física:

 

   Ontem tivemos uma ótima palestra no nosso planejamento, com uma educadora de 77 anos que trabalha desde os anos 60 com o que ela chama de Educação Criativa. Nós, professores de Educação Física, estamos naquela fase que já analisamos,  refletimos e mergulhamos nossa prática  em autores como Kunz, Freire, Daólio, Vago, Soares, Paes, Knijnik e tantos outros que nos deixam dentro do que Glorinha Aguiar chama de Educação Criativa. Afinal, os tempos militaristas ou esportivistas (Lino), ficaram para trás junto com a Ginástica (Soares), em que o aluno fazia apenas movimentos  copiados e mediam o rendimento.  Naquela Educação Física tradicional, eugênica e higienista,  excludente, não cabia momentos de diálogos e chances de que os alunos transformassem e/ou criassem nada.

    Hoje, apesar dos diversos caminhos e teias dentro da Educação Física, nenhum deles passa pela exclusão, a eugenia ou a busca de corpos disciplinados e perfeitos, todos levam ao lúdico, ao diálogo,  à construção de regras, ao questionamento. Todavia, muitos alunos gritam pela tradicional, onde acomodados deixam a maioria dos colegas de fora dos jogos, quando alguns –  sempre calados – ganham voz escolhem a quietude; quando podem criar jogos, preferem não fazer; quando podem inventar movimentos, gritar, dançar, todos sentem medo do “mico”. Cabe a nós, educadores, traçar caminhos onde estes corpos se libertem de tantos medos. Dizem os alunos: ” medo do que vão pensar”, “medo do que vão zoar”, “medo dos colegas”.

       Os colegas não deveriam causar “medo”, deveriam ser companheiros de risos. Na história da minha profissão alguns grupos foram mais resistentes à diversidade, outros nada, todavia, é a primeira vez que pego grupos com tanto medo.

       Na palestra alguns profissionais que não eram na Educação Física se manifestaram e também falaram da inibição dos alunos, pensei: então é geral, não é um “privilégio” da Educação Física!

      Então  me lembrei que ao conversar com os alunos eles disseram que “que  zoam muito”, alguns disseram que ficam bem tristes, que querem não se importar, mas se importam. Disseram que em outras escolas (alguns vieram de particulares, mas  a maioria de públicas municipais e estaduais) nunca participaram da Educação Física por medo dos colegas “bons”. Eu entendo que este alunos que são ditos  ‘bons” são os que estes “excluídos” entendem por “com mais hábeis”, então a escola ainda está indo pelo caminho da eficácia? Vale lembrar a frase de Daólio sobre a Educação Física tradicional, onde a dimensão simbólica não interessa, apenas “ (…) a dimensão eficiente dos movimentos, quer em termos biomecânicos, fisiológicos, ou ainda em termos de rendimento atlético-esportivo. “

    O mesmo acontece – ainda – nas outras matérias, quando ocorre uma agressão verbal na turma (tudo começa na verbal) o professor finge que não ouviu para continuar passando conteúdo porque tem que dar conta dele para as avaliações, às vezes ENEM e vestibular. Nas outras também há uma busca do rendimento, na nossa área é mais fácil “não perceber” que apenas alguns estão jogando, em vez de parar e pedir sugestões de mudanças para que todos vivenciem, experimentem ou para que talvez  seja cooperativo… Nas outras é mais fácil passar o conteúdo, mesmo que muitos não tenham entendido ou que talvez fosse  hora de parar e conversar sobre respeito, como é bom ser tratado assim e tratar assim, abrir uma discussão sobre solidariedade, contar histórias de líderes como Gandhi, Mandela  ou Luther King…

       Mesmo que naquele momento não dê para conversar (porque talvez os alunos humilhados sejam expostos) o educador deve arrumar um horário para conversar, descobrir o que houve a fundo. Outro dia uma jovem foi agressiva com um jovem achando que este estava “zoando com a deficiência do nosso presidente”, acontece que ela não sabia que o jovem realmente não tinha o dedinho (ele cantara: “não tenho um dedinho, não tenho um dedinho”), mais tarde conversei com os dois sozinhos, onde tudo foi esclarecido, no diálogo todos cresceram, a jovem pediu desculpas e aprendeu a ser menos impulsiva para defender suas paixões.

       Quando deixamos o barco correr empurrados pela correnteza do sistema, perdemos chance de ajudar no crescimento de todos. Acho que é por isso que hoje em dia está havendo tanto “bulliyng” e alguns ficam tão sérios. Os professores acham mais importante passar conteúdos para vestibular do que parar e fazer a sala refletir sobre suas ações, os jovens estão “por si” nesta vida? Acontece que vestibular é apenas um momento da vida, que passa e nem é tão difícil assim se a pessoa formou capacidade de reflexão, expressão, análise, acontece que conviver é para sempre. Acho que da preocupação excessiva com o vestibular, sem a preocupação com o ser humano é que nascem histórias como daquele jovem estudante de medicina que entrou atirando em um cinema.

        Nas sociedades tradicionais temos momentos para aprendermos a pescar, caçar, contudo temos também as histórias passadas oralmente, muitas vezes em volta das fogueiras, que trazem valores sobre fraternidade, amizade, fidelidade, força moral. Ao contrário do que dizem os neoliberais, que a vida é uma selva e apenas os melhores sobreviverão, se analisarmos bem a humanidade só sobreviveu porque soube cooperar, teve bom senso e foi solidária. Por isso, Gandhi dizia que os ditadores e suas ditaduras um dia caem, as ações, palavras de amor ficam. Se a competição fosse o caminho Hitler ainda estaria aqui, junto com o  Mussolini, porém a humanidade sabe  que este não é o caminho. A força persistente da crença no diálogo e na paz fizeram a independência da Ìndia.

          Então esta fórmula tem que ser esquecida das escolas: b=pc+v+p+e – d.  Que fórmula? Bulliyng nasce da necessidade dos professores passarem conteúdos, para o vestibular, pressionados pelos pais e a escola, sem nenhum diálogo. Então, muitos professores  ignoram a “zoação”, quem “zoa” ganha força e quem é “zoado” se inibe cada vez mais, para que dê tempo de passar o conteúdo. Perdem os alunos, perdem os professores porque se houvesse diálogo neste momento, todos cresceriam e sairiam melhores, não apenas preparados para o vestibular, mas seres humanos bem preparados para a vida, uma vida não de vencedores e perdedores, não apolítica porque ninguém é neutro (quem cala aceita quem domina), mas com respeito, democrática e rica porque diversa.   Foi isso que pensei enquanto ouvia a palestra sobre Educação Criativa e as falas de meus colegas crescendo em diálogo bom de ouvir.

 

Camila Tenório Cunha

28/07/2010

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2 Comentários

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2 Respostas para “Educação criativa e Educação Física.

  1. Paulo Reis

    Oi Camila!

    Gostei do texto e concordo plenamente contigo.
    Venho trabalhando desta forma à muito tempo; mas já consigo vislumbrar mudanças significativas aqui em S.J.Campos.
    Desde que vc partiu, aconteceram dois festivais de dança, e vamos para os 3° Jogos Cooperativos da REM; além do que, atualmente eu estou no Jacyra Baracho e não mais no Ildete e lá a proposta é completamente construtivista e cooperativa.

    Abração, continue mandando textos.

    Paulo Reis

    • profacamilatc

      Oi, Paulo. Falávamos tanto em um “encontro de Jogos Cooperativos”, que bom que aconteceu! Também falávamos em encontros de dança, que bom que ocorreram. As ideias uma hora germinam, é muito bom!!
      Saudade e abraços para todos aí em São José, principalmente esta turminha que reflete sobre a cooperação.

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