“Bullying”: nada mais do que falta de compaixão.

Reportagem do Yahoo:

Uma fonte próxima à família da cantora disse à revista que a adolescente sofreu com bullying na escola. “Ela enfrentou distúrbios alimentares e também se automutila”. 

    O bullying, agressões entre jovens e crianças, não é um caso simples como parece, não nesta sociedade cada vez mais individualista. Conversar apenas com as crianças que o praticam não adianta, elas se sentem ainda mais fortes e acusam as crianças que comunicaram aos adultos de fofoqueiras. Sei disso porque minha filha vive isso e me relatou que é assim. Quando uma conversa não resolveu, ao contrário, várias ocorreram e tudo só piorou, então a atitude tem que ser mais severa, às vezes é isso que as crianças ou jovens esperam porque estão cansadas de não sentirem limites em algum lugar.

     Já vi atitudes assim começarem em aula e como educadora ajudei a terminar, terminar significa conversar exaustivamente com todos, mesmo que alguns chorem, até que o problema seja de fato solucionado. Já vi “bullying” começar porque houve fofoca contra alguém, alguém diz que alguém disse quando, na verdade, ninguém disse nada, por isso a conversa aberta e serena entre todos os envolvidos é importante.

      Na minha área (Educação Física) sempre tem aquela discussão que os alunos trazem sobre os mais “hábeis”, “mais fortes”  e sempre vejo nestas crenças uma chance de discutir valores: questionar o que o capitalismo ensina “sobre a lei do mais forte”, como se fôssemos animais e não humanos. Temos como seres humanos a chance de transformar valores, mesmo que economicamente eles sejam cruéis, não significa que culturalmente vamos acreditar neles e seguir sua cartilha. Sabemos como é bom sermos solidários e sentir compaixão faz parte disso, se é deste modo, então não tem esta de “o”  mais forte, tem apenas de troca; somente um leão feroz sim, este não quer saber de ser solidário com a zebra, ele tem fome. Mas nós não somos leões, certo?

      Quando acabou o primeiro turno a minha filha teve na escola uma semana horrível, os colegas não a deixaram em paz porque da turma dela era a única que votaria na Dilma. Isso já vinha acontecendo há certo tempo, algumas meninas disseram: “Você não pode ficar perto porque vota na Dilma”. Na mesma época vi um blog que falava de um bullying eleitoral sofrido por uma menina de apenas 9 anos em SP, o pai escrevera desesperado porque a filha apanhara na escola porque ele votaria na Dilma. Bom, um caso isolado, o da minha filha, seria apenas um fato, dois casos: já temos agora um problema social. Muitas meninas não falam mais com minha filha por ela ter dito “Bom Dilma”, mas ela ficou quieta quando as colegas diziam que a Dilma era assassina, e o pior, a coordenadora disse que ela tem que ficar quieta mesmo porque isso é opinião “delas” e ela tem que “respeitar”. Isso é uma calúnia, não é um fato, que dirá opinião!! Opinião é algo assim: gosto de amarelo ou  gosto de verde.

      Vejo profissionais muito despreparados para lidar com jovens, em todos os momentos que lidamos com os jovens valores éticos devem estar presentes, discussões sobre respeito, a importância da verdade, a solidariedade, compaixão, coerência podem aparecer em todos os momentos, desde que o educador aproveite este momento para que elas apareçam. Não diga a palavra respeito como se a palavra significasse apenas “quieta”.

      Respeito alguém quando consigo me colocar no lugar deste alguém, tentar sentir o que este alguém sente e expressa através das palavras. Pode ser que ele acredite que a Dilma é uma assassina, mas precisa ouvir que isso é uma calúnia, um fato mentiroso, sem se ofender. Quando não há respeito, apenas fascismo: só um fala. O que me deixa preocupada é que esta geração PSDB acha “natural” aceitar as calúnias e não ouvir as verdades que atingiriam as “suas” crenças.

        Quais crenças? Aquelas de que não importa (e isso é falta de solidariedade) que o equivalente a dois Chiles tenham saído da pobreza, mas importa que “disseram” que fulana é uma assassina, então isso que importa? Não importa que o Instituto Federal seja Federal, disseram que foi o governo estadual que o fez, então foi!!

    Não importa que o bolsa família já existisse antes, mas não atingisse ninguém (e ainda o roubasse antes que chegasse a quem precisasse mesmo), não importa que agora muitas pessoas e economias locais cresceram, estudaram, melhoraram a vida, graças ao mesmo programa que agora – somente agora – funciona. Importa apenas que não foi o partido PT (que odeiam e pronto) que o fez, mesmo que antes não funcionasse e somente agora funcione, não importa! Importa que “tenho mais um argumento para odiar”. Lembra que não importa a solidariedade? Então, não importa que agora milhares de pessoas não precisem mais comer lixo, importa que não tem valor porque este governo que deu emprego e comida, não é o governo que “amo” e pronto. É deste modo que esta geração fascista que boicota minha filha na escola pensa. É um modo muito triste e o que está por trás disso é a falta de solidariedade social, mais do que a alienação política.

     Esta mesma falta de solidariedade se reflete no convívio menor, na intolerância com o diferente que está ao lado, a falta de compaixão, de saber se colocar no lugar do outro. Esta geração, até mais do que minha, aquela que pintou as caras para tirar o Collor do poder, não sabe se colocar no lugar do outro, sua vida é consumir, exibir MPs variados, ajudar a poluir.

       Estou, como educadora e ser humano, muito preocupada e faz tempo que não fico tão preocupada assim. Como ensinar a compaixão? Rubem Alves já escreveu textos tantas vezes sobre isso, como educador e filósofo ele também acha que tudo passa por aí, muito mais do que pela consciência de classe. Consciência de classe só vem quando me preocupo com o próximo, com um grupo, com alguém além de mim, com aqueles que estão com fome. Quando não me preocupo é fácil ser o que sobe no trabalho ás custas da difamação do companheiro, é quem depois do “bullying” na escola  vai fazer o assédio moral na empresa quando crescer.  Quando não me preocupo com nada, além de mim, então é fácil pensar que sou rico como o dono das indústrias e os grandes proprietários de terra porque possuo uma loja ou tenho um sítio para final de semana. È fácil se enganar quando o coração não cabe nada além de si mesmo.

      Como ensinar solidariedade? Como ensinar a sentir compaixão? Como não deixar que mais jovens e crianças sofram o que a cantora juvenil americana (naquela sociedade tão cruel) sofreu? Estas são minhas angústias nesta época de “bullyings” e intolerância.

Camila Tenório Cunha

Colo aqui o vídeo que minha filha fez para trabalho de filosofia:

 

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