O que sonhar…

O que  sonhar  para a Educação em SP:

 

           Temos um longo caminho para percorrer na busca de uma Educação de qualidade, em SP, aqui há ainda muito que se lutar por este sonho.

            Na raiz de nosso sonho está uma Educação que não pode ser mercadoria, isso porque pessoas não podem ser mercadorias e quando falamos de Educação falamos de um modo de transformar para melhorar a vida, o mundo, através do conhecimento. Deste modo, não tem porque economizarmos em salários (um salário que professor nenhum precise trabalhar 40 horas para sustentar sua família, se der 24 aulas já sustente), materiais, tintas para deixarmos as escolas coloridas, cursos extras para professores em horários de HTPC, simpósios, congressos, pós, livros, entradas para museus, teatros, danças…

            Não existe um professor que comece sua carreira sem sonhos, tenho 15 anos nela, e ainda sonho, porém cada vez mais percebo a Educação indo pelo caminho inverso deste sonho… Mesmo percebendo que nestes 15 anos sempre que peço um texto recebo cada vez menos textos bem escritos, ainda sonho. Alguns textos de alunos ainda emocionam pelo conteúdo e bela escrita, só que a maioria cada vez mais angustia. Erros sérios de português no Ensino Médio, nossa língua mãe, sem concordância nenhuma, palavras com dois “esses” são escritas com um “esse” apenas, erros que não ocorrerem por pressa ou distração, contudo, erros constantes que simbolizam uma formação cada vez mais falha.

           O medo de uma Educação assim, com alunos que chegam sem saber ler, escrever e interpretar, é que ela não transforma, apenas molda e coloca este aluno naquele espaço social da exclusão, que o neoliberalismo quer, mas que nós, Educadores, não.

          Reclamar os alunos até que sabem, bem como responder, ofender aos professores e colegas, só que estes atos violentos não são instrumentos reais de transformação, a violência não é o caminho que queremos, o diálogo é. Todavia, nossos alunos chegam também sem saberem dialogar, ouvir o diferente, respeitar opiniões diversas. Isso reflete uma Educação de base que não ensina nada sobre o diálogo e o ouvir, apenas o competir, destruir.

         Tudo isso é um reflexo opaco desta cultura individualista, competitiva, da economia neoliberal e que todos assimilam como algo “natural”. “Naturalmente os melhores vencem”, então, se não sei ler, escrever, é porque não estou “entre os melhores” e a culpa de estar socialmente excluído é minha porque sou perdedor (a). Pensando deste modo temos alunos cada vez mais violentos, que depredam escolas, agridem colegas, revoltados por conta desta dor… Sim, é o tal “bullying”, mas esta palavra da moda é o acontecimento fruto da cultura do neoliberalismo, que quase consegue destruir nossos sonhos de Educadores.

            …Quando não premiamos os melhores alunos em nota, mas ensinamos o quanto é importante que eles sejam solidários: que ajudem aqueles alunos com dificuldade, que não é verdade que precisamos passar na frente e destruir aos outros, que é possível “dividir o pão”, então, continuamos lançando sementes de nossos sonhos.

           … Quando o professor não é cobrado e vigiado para estar em sala de aula por inspetores, ou, por cartões de ponto, todavia, que ao contrário, seja elogiado pela aula criativa que deu no pátio, por exemplo: ensinando matemática através de jogos (como já vi minha amiga Rosângela, da prefeitura de São José dos Campos fazer), então é mais fácil continuar nesta maré contrária ao neoliberalismo.

           … Quando o professor tem: a liberdade de atrasar os conteúdos das apostilas para debater com alunos conteúdos de geografia (como fazia uma professora do CEOP-Ouro Preto, na turma da minha filha), ou ainda outro que ensinava matemática com música (da mesma escola), então é mesmo possível ainda sonharmos que a Educação está, além dos vestibulares, ganhando para a formação da sensibilidade e respeito.

         … Quando o professor tem a confiança de que é este sonhador que produz através das palavras e que, por isso mesmo, pode ter liberdade para estar em casa preparando aulas, lendo… Liberdade e confiança em aula, e, quando não estiver em aula, transformando com seus alunos até mesmo fora dos muros escolares… Transformar comunidades em lugares melhores; frequentar congressos que ampliam horizontes e outras práticas que não reduzem o professor a um burocrata que marca presença e ponto, entretanto  um educador 100% do seu tempo. Tempo que não precisa ser controlado de modo fabril, como o neoliberalismo quer fazer com a Educação, mas “tempo humano”.  Então, podemos mesmo sonhar – e sonhar – porque a Educação que sonhamos chegará.

Camila Tenório Cunha

07/05/2011

Palavra-chave: Educação em SP.

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2 Comentários

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2 Respostas para “O que sonhar…

  1. Emerson dos Reis

    Olá Camila!

    Estive lendo sobre o “Liberalismo”… Quem sabe, uma opção ao “Neoliberal”… Tive dúvidas se nesse nosso Brasilzão ele próprio é factível. Ainda acredito que ações centradas por parte do governo poderão melhorar nossa vida como um todo (o governo Lula foi um exemplo). Também acredito que nosso maior problema é o cultural, pois temos a cultura do controle, do burocrático, de não valorisar o que deve ser valorizado, da dificuldade em se fazer as coisas, etc.

    Gostei do seu texto.

    Grato.

    Emerson

    • profacamilatc

      Obrigada, Emerson.
      Burocracia e burocratas, até historicamente falando, sempre atrapalharam nosso país e outros por aí…
      …Sim, é verdade que boa parte de nosso problema é cultural… o fato é que culturalmente acreditamos em alguns absurdos, na injustiça, na “Lei de Gerson”, etc…
      Venha sempre participar, gosto quando participam!

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