Kafka

                 Temos duas obras que retratam nossa sociedade moderna e que considro primordiais para entender a angústia dela.

                 Uma é a Metamorfose e outra o Processo.

                Numa vila, aldeia, comunidade rural, tribo, todos se conheciam, a palavra valia ouro, confiança e olhar não tinham preços. Todos sabiam de suas responsabilidades, entendiam seus trabalhos e funções.

                  Contudo, na sociedade moderna as coisas ficaram confusas, gatos são tomados por lebres, ingênuos e idealistas, poetas e músicos, sonhadores e puros: sofrem!

                   Quem entende da burocracia, quem consegue se apoderar dela costuma dizer que é a norma, que é lei, que é assim mesmo e tudo passa a ser desumano: usam o poder, as normas, para enrijecer as relações, cometer injustiças, justificar abusos, humilhar pessoas, fazerem perder tempo… Tempo com quem se ama, tempo da roda, da ciranda, da mão, do sorriso.

                  Neste tempo perdido de papeladas, burocracia – que  meu amigo Hélio Reis a chama de “burrocracia” – vão-se as amizades, os carinhos, chegam-se as decepções. De repente nos sentimos uma barata, todos fogem de você, todos sentem nojo de você, você não sabe como acordou barata, mas sabe que é horrível ser uma. Ou então, nos sentimos subindo uma escada infinita e nada pior do que não saber o final de alguma escada… Nada pior do que um processo infinito, do que vozes sem sentido que magoam e são frias.

                 Vozes frias são o retrato desta sociedade moderna que engole, forma, molda até as pessoas  mais sensíveis e humanas, que  de repente gostam do poder e se veem fascinadas por ele, então preferem gritar para alguém continuar subindo escadas infinitas do que puxar este alguém pela mão. Mãos existem? Sorrisos existem? Kafka sabia o quanto eles são raros na sociedade moderna.

                  Camila Tenório Cunha

                  24/05/2011

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2 Comentários

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2 Respostas para “Kafka

  1. Querida Camila,
    obrigado pelo belo texto. Mãos existem – vejo sua mão estendida aqui. Sorrisos existem – escrevo com um sorriso na alma por saber que mais pessoas trabalham e se dedicam diariamente ao exercício do questionamento contra o “é assim mesmo”, do calor contra a frieza, do vida de fato vivida contra o automatismo.
    Abraços,
    Paulo Barja – paulobarja.blogspot.com / cordeisjoseenses.blogspot.com

    • profacamilatc

      Obrigada, Paulo! Obrigada também pela visita neste blog humilde de desabafos… Estamos entre os que questionam, o problema é que aqueles que possuem o poder – muito ou pouco – às vezes preferem dizer que não nos entendem, que “sibilamos”… Assim lutam para tudo “seja assim mesmo”.
      Abraços.
      Camila

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