O Luto na vida atual: um adeus ao silêncio.

Luto na vida atual: um adeus ao silêncio.

 

 

          Quando eu tinha uns 12 anos meu vizinho faleceu, era um senhor que eu não simpatizava muito porque cortara a ameixeira que eu amara e dera frutos que pendiam até a minha janela. Contudo, quando ele ficou doente e faleceu percebi pelos choros dos parentes e uivos do cachorro – dele – que a família dele o amava muito.

            Eu me lembro que minha mãe não nos deixou ligar rádio e nem a TV em altura abaixo do  razoável por dias, além disso,  pedia para rirmos, brincarmos e falarmos baixo. Ela dizia que precisávamos respeitar a dor dos parentes. Também sentia medo que o espírito dele viesse atrás de mim por já ter sentido raiva dele quando ele cortara a árvore e ainda mais se não respeitasse a dor dos parentes. Não sei o motivo do meu irmão obedecer à minha mãe, o meu era essa somatória: medo do defunto e respeito aos parentes.

           Ontem, no enterro da minha avó, durante esta dor que todos tentávamos esquecer, ainda mais depois de  muitas lágrimas noturnas, guardando a serenidade para o momento (fora minha filha, prima, tia e uma tia avó que não conseguiam parar de chorar), meu sobrinho quis brincar no meu celular e este fazia barulho. Meu irmão o proibiu por fazer barulho.

           Passado alguns minutos eu estava sentada com minha filha na escada da Igreja e o meu sobrinho (5 anos) tentava entender por que ele não podia brincar com um celular que fazia barulho, já que meu irmão não explicou. Tentei explicar e ele não entendeu, até que ele perguntou: “ Ela (a bisa) não vai gostar?”. Quando me lembrei do tipo de bisa e avó que fazia tudo pelos  bisnetos e netos, que achava graça em todas as artes e gostava de jogar Wii com minha filha, principalmente aquele do ciclismo, respondi: “Não, a bisa nem ligaria”. “Então, por que?”, ele me perguntou. E eu me lembrei da minha mãe ensinando e respondi alguma coisa assim: “Para respeitar a dor:  é preciso mais silêncio. A bisa está bem, num lugar melhor, ela não ligaria, mas muitos estão tristes e precisam do silêncio”.

           Acho que ele não entendeu, mas meu outro irmão acabou emprestando um celular que tinha jogo e era silencioso, jogo que logo ele se cansou.

            Na verdade, agora entendo como é preciso o silêncio para respeitar a dor, como o barulho, a agitação, machucam ainda mais na hora da despedida. O silêncio permite a reflexão, minha cunhada disse que o enterro é um ritual de celebração da vida e na hora não entendi… Respondi que não estava em condições de entender… Era verdade. Estas serão as primeiras férias da minha vida sem minha avó, quando cresci e virei mãe nunca mais fui ao sítio dela, então ela sempre ficava pelo menos uma semana comigo e íamos ao cinema, passeávamos, até no jogo de vôlei da Liga, no Mineirinho eu a levei! Também será a primeira vez que minha filha não fará “artes” (bordar, pintar…) com ela nas férias, um ritual de 15 anos. Muita dor para refletir.

         Agora entendo, no enterro pensamos sobre a vida, a nossa, a dos outros, a humana. No luto idem.

          Arendt diz sobre a “banalização do mal” e nisso ela discute a banalização da morte, que na verdade é a banalização da vida humana. Nesta vida atual não existe respeito ao silêncio, à morte e nem à vida. Corremos contra o tempo, viramos uma máquina de produzir e máquinas param e pronto. Se máquinas param e pronto: sua avó “gastou”, parou, nem viva o luto, vá ao enterro hoje e trabalhe amanhã.

          Nesta vida atual que somos máquinas (e máquinas não param para refletir, sentir e menos ainda chorar) o luto é alguma coisa que não existe, que é luxo e não é compreendido.

            Respeitar a vida significa respeitar o corpo que um dia teve vida, quem não se lembra do menosprezo que as ditaduras dão sobre corpos “inimigos”? E as invasões militares até hoje em comunidades, quando a TV nos mostra corpos sendo carregados em carrinhos de mão? Menosprezo à morte que significa menosprezo à vida.

          Se quisermos uma sociedade mais humana temos que começar a resgatar alguns rituais como o luto, o respeito à dor, ao silêncio, ao parar. A vida do outro não pode ser menosprezada, não deve ser esquecida, e a dor dos que ficam deve ser respeitada, sempre. O choro alheio neste momento não deve incomodar, deve ser respeitado, afinal, esta perda e dor ficarão para sempre dentro de nós, apenas a intensidade que nos machuca diminuirá. Não entendo esta lei que não dá direito ao luto pelos avós e sim pelas madrastas e sogras, afinal: avós nos ensinam, nos dão amor, são os pais mais pacientes, são os pais num outro ritmo, um ritmo fora do trabalho que o capitalismo exige.

             Durante alguns anos o Brasil resistiu no respeito ao luto, ao silêncio, mesmo numa industrialização já corrente. Todavia, devagar esta mentalidade de homem-máquina dominou as relações humanas e influenciou as leis, que endureceram como ferro os corações, não sei como, mas é preciso ir na contra mão desta história: humanizando os relacionamentos, trazendo o luto, dando um breque no ritmo frenético da vida, pela vida, quando for preciso. Mesmo que em algumas culturas, como vemos no filme Sonhos, de Akira Kurosawa, quando um ancião morre comemora-se com festas, dança e música, na nossa é preciso o silêncio que contrasta com o barulho das máquinas, que querem nos transformar.

Camila Tenório Cunha

16/06/2011

Avó paterna e filha no jogo da liga, no Mineirinho.

Avó paterna e filha no jogo da liga, no Mineirinho.

Bisa e avó na última formatura que viu...

Pai, filha e avó (bisa).

Pai, filha e avó (bisa da minha filha), dia de colação...

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11 Comentários

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11 Respostas para “O Luto na vida atual: um adeus ao silêncio.

  1. Pequena Camila.
    Presto minha solidariedade ao seu silêncio de agora… E que este silêncio possa celebrar toda a história que recordas com sua vó, toda história de Lalá com sua bisa, toda a história de aprendizados e alegrias da família.
    Somente pessoas como você consegue construir reflexões tão particulares e, ao mesmo tempo, olhar o mundo, a sociedade, as relaçoes (des)humanas do capitalismo.
    Vida Longa a Bisa, a vó da Camila…

  2. Márcia

    Camila!!

    Sentimentos sinceros pela passagem de sua avó.
    Silêncio e respeito!!

    Bj,

    Márcia

  3. Ana Consuelo

    Querida Camila, Sinto por não ter atendido ao seu pedido…foi um descompasso.
    Um forte abraço, Ana

    • profacamilatc

      Não fique assim, Ana… Eu também achei que teria tempo até quinta, meu dia sem aula, para vê-la, mas Deus quis aliviá-la antes. No fundo, minha tristeza, foi não estar com meu pai e com ela no último suspiro dela…
      Abraço.
      Camila

  4. Kétura

    Camila,

    Minhas condolências a você e à sua família pela partida de sua tão querida avó…
    Que Deus a console neste momento tão difícil…

    Um abraço,

    Kétura.

  5. Fany

    Oi Camila deixo aqui a minha solidariedade a vc e sua família.
    Estatalvez seja a maior certeza que temos na vida a de que um dia todos partiremos…

    Um forte abraço, Fany.

  6. Pingback: A banalização da morte pela TV espetáculo. | Profacamilatc's Blog

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