Esperança e juventude.

         Quando soube que muitos jovens, entre 15 e 16 anos, foram mortos, fiquei chocada e triste. Trabalho com jovens  e toda minha profissão é baseada na esperança que sinto neles. Quando soube que mais de 81 jovens estavam discutindo e refletindo sobre o nosso futuro, fiquei pior ainda. Aqui no Brasil, hoje em dia, é muito difícil reunir uns poucos jovens para discussão e reflexões sérias, pelo menos a maioria que tenho trabalhado: ou o mundo vai acabar mesmo, ou politico não presta e não temos como reverter isso, etc. Esta visão simplista  que vejo na maioria dos meus alunos simboliza falta de esperança.
Lógico que devagar volto a plantar esperança em seus corações, sei que não consigo plantar em todos, mas, cada vez que alguns deles percebem que as coisas podem se transformar… Coisas pequenas…Exemplo: que é possível se divertir sem humilhar ninguém, que  antes fizeram com que eles acreditassem que somente a competição é possível, contudo: que um jogo cooperativo, uma dança ou brincadeira de criança, quebra barreiras e preconceitos, aproxima pessoas… Desde modo,  seus corações voltam a ter esperança.
Jovem tem que ter esperança, faz parte da juventude e é ela que traz as grandes mudanças e transformações na história da humanidade.
A culpa de termos pouco jovens, ainda mais aqui em SP, que parem para refletir e buscar mudanças, lógico que não é deles. É nossa, é que votamos mal e nossa educação paulista anda sucateada desde Montoro, ele  fez um bom trabalho, em seguida nenhum mais. Nunca mais nenhum governo estadual paulista investiu em educação, pagou bem aos professores, ao contrário, os salários apenas caíram e a burocracia aumentou, na mesma medida. Junto com tudo isso veio um mundo  de tecnologia e consumo, onde a direita forma e deforma ideias e pensamentos que lhe convém. Prova disso é a quantidade de e-mails mentirosos que li sobre a Dilma na época de eleições.
A filósofa Marilena Chauí diz sobre a importância, numa democracia, do pensamento crítico e que este só aparece quando a pessoa, ou o jovem, tem noção de consciência de classe, seria também a visão histórica das transformações e dos partidos políticos. Rubem Alves, outro filósofo que discute a educação, diz sobre a importância de se ensinar a compaixão. Um amigo meu, professor de geografia, diz que a direita que comanda nossa educação paulista leu tudo isso e resolveu seguir a cartilha ao contrário, desde modo, ele diz, ” eles foram bem competentes, conseguiram.”
Objetivo deles é: você ensina o consumismo,  egoísmo, omissão e medo de assumir decisões coletivas, tudo com uma pequena ajuda dos meios de comunicação de massa! Temos jovens que votam exatamente em quem a direita diz para votar e que fora este gesto cívico esquece toda outra forma de transformar, desacredita nos movimentos sociais, aliás, junto com a mídia os criminaliza.
Então, por isso fico triste de pensar que na Noruega era ao contrário: eram jovens de esquerda discutindo, pensando…
Morrer um jovem é sempre triste. Morrer muitos e ainda preocupados coletivamente: pior ainda.  Chorei.
Outra coisa que me preocupa é que o maluco que atirou escreveu sobre nós, o Brasil, disse que estamos muito “misturados”.
E pior: disse que tem outros malucos como ele pelo mundo!!!
Bom, este tipo de maluco nem de genética entende, porque segundo as últimas pesquisas a raça mais pura é negra, está na África,  na Europa estão os misturados com o “elo” perdido. Ah, e um amigo, professor de português,   disse que no Brasil, agora, somos todos homo lattes, adorei!
Se bem que ainda sou mais os termos de Vinicius de Morais:  raça é a  humana!
Outra coisa é que o maluco era de extrema direita… Por que será que a extrema direita sempre quer matar jovens de esquerda, que pensam, já que a esquerda é sempre tão pronta para trocar ideias?
Por que trocar ideias sempre ofende a direita?
Minha mãe, ano passado,  recebeu um e-mail de um maluco falando que a Dilma era assassina e como minha mãe foi da resistência, junto com meu pai, ela também se ofendeu. Muitos que não quiseram a ditadura eram chamados de terroristas, mas quem matava e sumia com corpos eram os ditadores. Muitos apenas pensavam e pensar que era o crime. Ela tentou escrever para ele explicando as coisas, mas ele foi bem sem educação, pediu para minha mãe não escrever mais e disse: ” que não leria nada que ela tinha escrito, que começou a ler e viu que ela defenderia a assassina”.
Viu? Direita não gosta de trocar ideias. Por que, hein? Nunca entendi.  Quem souber pode usar este espaço para responder, ele é democrático.
Bom, voltemos à juventude, ela que dá a força para as transformações. Foi um jovem que conseguiu proteger o urso branco no Canadá e toda floresta que ele vivia. Foi um jovem que ficou na frente de um tanque na China há alguns anos.   Foram milhares de jovens brasileiros que sumiram na ditadura militar,  que durou trinta anos e também acabou com o bom colégio público que tínhamos. Falar nisso, a direita paulista é a mais maquiavélica, O Príncipe deve ser um tipo de bíblia dela, porque ao acabar por 20 anos (fora dos 30 de ditadura) com a educação, ela prende a juventude (na cadeia invisível da ignorância) e esta deixa de ser esta mola questionadora. Vira um boneco “empreendedor” que vê programas imbecis até tarde, acredita em todo e-mail que recebe e o meu medo é que logo passe a acreditar em ideias malucas, como a de que o Brasil anda muito misturado…
Deste modo, quero apenas enfatizar que o que temos de bonito no Brasil, senhores malucos do mundo: é exatamente a mistura.
A   “mistura” fez: … o samba… o moçambique… todas nossas manifestações  culturais nasceram de misturas de várias culturas (africana, portuguesa, italiana, espanhola, indígenas…)  uma quadrilha daqui, um presépio de lá, e pá: a Folia de Reis!  Nossa admiração por toda música, batida, religião, ouvir uma boa história e sentir um belo sorriso, que pode vir de uma pele negra ou de outra amarela. Isso não importa, importa o que o poetinha disse: somos todos humanos, pronto. Aliás, foi o poetinha que amava misturas que inventou a Bossa Nova. A Bossa Nova é outra bela mistura… Que chato um mundo uniforme, todo igual… Bom é isso: um mundo diverso, com vários ritmos, batidas, cores, olhos, somente um maluco pode falar que o Brasil anda muito misturado como se isso fosse um defeito, bem a nossa qualidade!
O que sinto é que o maluco tinha armas, viu por que não acredito em armas? Armas até para as forças de segurança são questionáveis, talvez para aqueles que passaram por um treinamento rigoroso, psicológico, profundo, ético… Que dirá arma na mão de qualquer pessoa! Balela que protege… Como dizia minha avó falecida: “Quem protege é Deus”.
Lógico que não seria educadora se acreditasse que não há esperança, ninguém pode ser educador se não guardar dentro de si um resquício de esperança. Por isso que apesar de sentir muito ao perceber raríssimos jovens críticos, ainda acredito neles. Por isso ainda trabalho na educação, por isso sempre me emociono quando percebo jovens apáticos acordarem críticos, sensíveis, com vontade de transformar. Por isso acredito que como educadora podemos reverter e não deixar surgir nenhum maluco aqui no Brasil e fazer surgir outras centenas de  jovens preocupados com o futuro também, como a Noruega fez.

Camila Tenório Cunha
31/07/2011

P.S.: Por falar em esperança tem um site das mocidades que é bom divulgar:

dalhemongo.com

E o blog da minha filha, que está sempre atenta para cobrar, questionar, mas cheia de esperança:

http://lalavitoria.wordpress.com/2011/07/29/a-matanca-continua/

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