Alunos do Século XIX e a compaixão no mundo:

            Compaixão hoje:

            As empresas hoje em dia não procuram mais, como antigamente, um profissional “competitivo”. Pela competição, através dela e com ela, quase acabamos com nosso mundo.

            Os competitivos dentro das empresas não acrescentam, são aqueles que esquecem a ética, querem subir a qualquer custo, se comprazem com a tristeza alheia, quando vêem uma lágrima, em vez de oferecerem o ombro, dizem que a pessoa não sabe separar seus problemas pessoais e os leva para a empresa. É aquele que só sabe fazer piadas se humilhar alguém, deste modo só causa desconforto.

            Este pensamento é um resquício da filosofia positivista: seja razão, esqueça o coração.

            Todos os cursos de direito, filosofia, e outros, discutem hoje em dia o quanto esta linha filosófica já causou estragos neste mundo, principalmente quando estudam a ética.

             Hoje em dia pensadores discutem ética e o quanto ela fica em falta quando o subjetivo, a alteridade e a compaixão também não estão. O francês Paul Ricouer discute como precisamos colocar mais generosidade e compaixão na vida moderna.  O nosso filósofo Rubem Alves passou a vida com a angústia e a discussão sobre como se ensinar compaixão, ele dizia que com a tecnologia, sem compaixão, construímos mísseis nucleares, com a mesma tecnologia com compaixão: máquinas para curar o câncer! Precisamos de mais tecnologia com compaixão.

            Meu irmão mais novo sempre foi um amante de livros, filósofos, natureza, surf, skate e fez publicidade….havia uma preocupação que com o cabelo rastafari dele ele nunca conseguisse um emprego. Tão idealista quanto meu irmão mais velho, que fez medicina e luta por uma medicina humanizada, cada um na sua área, mas acho que toda família é assim um pouco idealista,  perfil para um sonho de mundo melhor.  Tivemos adultos que nos ensinaram: amor pela natureza, humanismo, artes e liberdade. Com este perfil, deste jeito, cabelo rastafari, meu irmão mais novo conseguiu estágio, ainda estudante de publicidade, numa grande empresa de tecnologia. Minha cunhada, cyber-ecologista e com as mesmas paixões, idem. Isso faz uns dez anos, agora os dois continuam nesta mesma empresa, formados e como funcionários! Levando ideais que até combinam com suas crenças pelo mundo, uma hora eles estão em Bali, pela empresa, em outra na África.

            Não adianta mais formar apenas excelentes técnicos, sem senso de responsabilidade coletiva, sem visão humanista da vida, sem sensibilidade ou compaixão, nem as empresas de tecnologia escolhem pessoas com estes perfis. O perfil executivo frio está morrendo com o mundo que quase morre e que agora lutamos arrumar. A sensibilidade, a criatividade, o idealismo, muita visão coletiva, responsabilidade em cada ato: é isso que as grandes empresas querem.

             Digo isso porque trabalho num curso técnico e vejo que muitos possuem uma visão de início da industrialização, quando pensam em mercado de trabalho: como se a arte, os jogos de cooperação, a filosofia e outras disciplinas fossem “menos” importantes do que as técnicas. Contudo, vejo pelo meu irmão mais novo, de que não é bem assim, elas – as empresas – querem um perfil diferente: um “brother” mesmo, um surfista, crítico, criativo, ecologista, sincero, engraçado muitas vezes! Nesta formação do “brother” a educação para a sensibilidade, o coletivo, as artes, o trabalho em grupo, a literatura estão em pé de igualdade com as disciplinas técnicas.

               É preciso agora saber olhar no olho mais do que dominar a alta tecnologia. É urgente educar para a sensibilidade, para formar seres humanos melhores, seres que dominam apenas a tecnologia já quase acabaram com o mundo. Hoje em dia  já se discute qualidade de vida com: um trabalho em que as relações humanas sejam saudáveis, de respeito, com a presença do subjetivo, com envolvimento entre as pessoas. Isso porque  o trabalho alienante já estragou vidas demais. Dentro e fora dele. É necessário que conteúdos para a sensibilidade possam estar dentro dos cursos técnicos, senão não formaremos alunos para um século XIX e não XXI.

Camila Tenório Cunha

18/09/2011

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4 Comentários

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4 Respostas para “Alunos do Século XIX e a compaixão no mundo:

  1. Ola, Camila, gostei de seu texto, muito sensível!
    Mandei um email para voce com copia para um amigo escritor que vem discutindo este tema da “educação do ser” aqui em Brasilia.

    Alfredo

  2. Sempre a sensibilidade de Camila presente.
    Lembro, quando lia as palavras de Camila, o quanto que o debate crítico e fraterno também passaram a ser palavras mortas em espaços de organização profissional – os nossos locais de trabalho. A crítica passa a ser entendida como desrespeito e o criticado passa a ser vítima. Pasteuriza-se o contexto e retira-se do centro da discussão o que relamente importa…
    Vida Longa ao Plog da Camila.
    abraços
    Há braços!
    MArcelo Russo

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