Olhares e palavras:

      

     Ontem levamos alguns alunos dos cursos técnicos de informática e eletrônica para o espetáculo do Circo Roda: DNA, somos todos muito iguais. Foram apenas alunos do segundo ano e alguns do projeto Expressa IF. Todos que conversei amaram  e isso não me impressiona.

    Contudo, o que mais me chamou a atenção foram os olhares de alguns alunos bem sensíveis, moradores daqui de São João e que nunca saíram daqui, para a metrópole que eles não conheciam.

    Não é a primeira vez que levo alunos daqui do interior para SP, em geral, eles reclamam do cheiro de poluição e  do rio Tietê, mas desta vez ouvi algo à mais.

   Ouvi de uma aluna sensível, que gosta de artes e participa como voluntária no Sopão, assim que entramos na Av. Tiradentes: “Nossa, uma mendiga, coitadinha”. “Ai, olha, tem mais…” “Nossa, quantos!” Então, conversamos, eu, ela e outros ali perto, sobre  a exclusão e o exército de reserva que o sistema capitalismo causa, que isso ocorre na maioria das metrópoles capitalistas pelo mundo, que em NY são milhões de sem tetos, excluídos totais… Nestas conversas, seus olhares fitavam a janela, tristes.

   Numa cidade pequena como São João nós temos algumas figuras pela rua, um que usa microfone e fica narrando a vida, muito solitário, e, também o “tio Oswaldo”, como meus alunos chamam, que tem um violão e toca para alguns alunos, na beira da quadra.  A assistência social, numa cidade pequena, consegue dar conta, algo que numa grande metrópole e ainda sem prioridade humana em sua política pública (Kassab), é impossível. 

    Outra coisa que chamou a atenção e já havia observado outra vez com  alunos que foram à SP, são as pichações e esta mesma aluna disse: “Nossa, mas por que estragaram tudo assim? Por que picharam tudo?”  Uma aluna que já morou em SP explicou: “ São gangues, elas competem entre si”. “Que horror! Deixam tudo feio”. “Tem o grafite que é bonito, mas isso é feio mesmo”, a aluna de lá explicava.  Aqui no interior percebo que o jovem gosta de ver sua cidade bonita, não vemos estas pichações, isso causou angústia em minha aluna e alguns ouviam nossa conversa assustados e concordando com a indignação dela.

      Ser professor é isso também: levar o aluno para ver além de seu jardim, além de seu quintal. Levar este olhar sensível e discutir suas dores: as misérias e suas causas. Refletir sobre os cheiros: discutimos a poluição e o que temos que fazer para nosso rio, em São João, não se tornar um Tietê. Ser professor é isso e acho que este dia foi bem comemorado antecipado, podendo ouvir e conversar além de nosso quintal, com uma arte linda para finalizar.

      Depois de um pouco deste mundo assustador de miséria, degradação – isso,  muito por culpa desta miséria – a minha aluna falou: “Ai, quero a minha roça, professora.”     Lógico, amaram o  Circo Roda, que veio depois deste assombro com a metrópole, mas as palavras e os olhares assustados me chamaram a atenção.

 

Camila Tenório Cunha

15/10/2011

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2 Comentários

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2 Respostas para “Olhares e palavras:

  1. Oi Camila,
    concordo com você. A cada dia me parece mais importante essa função do professor: alargar olhares e horizontes, e principalmente estimular a visão crítica. É isso aí! Força sempre,
    Paulo

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