O racismo:

                                   Há tempos que gostaria de falar sobre o racismo.  Minha avó materna era racista, só que achávamos graça pelo fato dela ser negra, cabelos “encaracolados”, como ela dizia, pele escura. Se alguém pegar os documentos da minha avó não achará nomes africanos, são todos portugueses. Quando brincávamos com ela, para vê-la indignada de que era negra, ela dizia: “Negra, não, sou jambo!” Ela tinha uma irmã de olhos verdes, minha bisavó era a típica indígena, mas em algum lugar de duas familias que formaram o nome dela, teve negro, pois estava na pele e no cabelo dela. Os nomes, como já disse, eram portugueses: Nascimento/Deodato. Depois, ela se casou com meu avô, também  apenas com nomes portugueses na sua árvore: Cavalcanti/Tenório/Albuquerque. Na história oficial nenhum negro, mas é uma história antiga, como bem lembrou o Chico Buarque, quanto mais antiga é a família no Brasil, mais chances de ter negros na sua árvore, portanto, não há brancos no Brasil, apenas mestiços.

                        A questão é que muitos, como minha avó, não assumiram e nem assumem sua mistura – exatamente o que faz de nós tão especiais – porque por trás deste racismo existe a questão econômica: os africanos, de pele negra, foram os que viveram a escravidão, sofreram, embora, ao contrário do que diga a história oficial, tenham sempre resistido. Desta resistência herdamos a capoeira, a feijoada e tantas coisas lindas que nos fazem brasileiros. Então, quando uma classe domina outra – economicamente – ela implanta subjetivamente na mente dos dominados, desculpas para esta exploração. Destas desculpas subjetivas nascem os preconceitos. Os brancos tinham que justificar o motivo de explorarem – de modo cruel e desumano – aqueles povos africanos, então, disseram que eram inferiores. Infelizmente alguns, como a minha avó, acreditaram nisso.

                        Ocorre que muitas pessoas não percebem as artimanhas de classes/economias, se deixam envolver pelas mentiras das elites. Minha avó cresceu em uma época machista, racista e que achava que comunista comia criancinhas. Hoje a exploração econômica, na época da globalização, continua entre as elites e as classes trabalhadoras, que vendem sua força de trabalho! E de novo,  as elites criam mentiras subjetivas de que quem está sendo explorado  é inferior, então, temos o preconceito socail,  de classe. Onde vemos isso hoje? Principalmente nos absurdos contra o Lula. Ninguém questionou o direito que sempre existiu da família dos presidentes possuírem passaporte diplomático, até que a família do Lula recebeu este questionamento. Por que? Porque na mentalidade difundida pelas elites e – infelizmente – comprada por milhares que não são das elites, uma família de trabalhador não pode ter alguns direitos, mesmo que garantidos por lei. O racismo e o preconceito social sempre andam juntos porque ambos nasceram de uma justificativa subjetiva da exploração de um ser humano pelo outro, falar contra esta exploração na época da minha avó, era ser comunista. Historicamente falar pela maioria era ser de esquerda porque, certa vez na história, quem defendia o povo se sentava ao lado esquerdo do parlamento e as elites , do lado direito. Surgiu, então, há tempos, a expressão direita e esquerda.

                        No Brasil nossas elites se acostumaram a manipular alguns instrumentos para justificarem seus poderes: a mídia, a imprensa, e, até as religiões. Religiosos que não aceitaram defender absurdos das elites, como as torturas na ditadura militar, foram torturados e alguns mortos. Leiam “Cartas da Prisão”, do frei Betto, confiram este período triste.  Só que com a globalização temos a soma de fatores que trazem tudo que as elites querem, inclusive a força da tecnologia e mídia ao lado de delas! Em alguns estados, como SP e Paraná, as elites também nunca abriram mão das forças policiais para reprimirem os movimentos sociais, que são movimentos que se preocupam em impedir as injustiças sociais, típicas do sistema que vivemos.  Juntamos à isso outro fator: desde a ditadura militar que as escolas públicas são enfraquecidas, professor trabalha demais e ganha de menos, num círculo infinito de luta pela sobrevivência. Esta mistura era tudo que as elites queriam para que sua exploração pudesse ser aceita como natural: escola ruim que forma e não transforma, e, mídia forte que vende as verdades subjetivas das elites. Como? Dizendo que – por exemplo – políticos são todos iguais e criminalizando os movimentos sociais. Assim temos um esvaziamento de jovens nas lutas e pior, temos jovens que ficaram com aversão à política. E qual o perigo disso: que as elites construam aquelas subjetivadades que minha avó materna, Dona Alice, tinha como verdade, ela que cresceu na Era Vargas e por isso era racista, preconceituosa e reacionária. Tudo isso significava que minha avó aceitava: ser explorada e tinha vergonha da sua origem negra, isso porque não sabia que historicamente não éramos inferiores, apenas exporados por uma classe que tentava justificar esta exploração, usando a cor de pele.

                          Quem sente esta vergonha e se incomodou com o que o Chico Buarque disse, ainda hoje, é porque também não entende as mentiras subjetivas das elites. Assim como quem diz que político é tudo igual, não entende que esta frase é a que mais agrada as elites, porque assim ninguém vai tentar transformar e lutar nos movimentos sociais. E pior: não irá buscar a história dos partidos: PDS na ditadura, que era apoiado pelos militares, hoje tem filhotes que mudam de nomes, como PFL, DEM e estes estão sempre juntos ao PSDB. Se estão juntos é porque querem continuar construindo as mesmas verdades, não? Treze vereadores em SP, capital, foram cassados por corrupção, todos destes partidos, nenhum do PT, mas se tivesse um único do PT, era dele que a mídia falaria todo tempo! A mídia nem uma vez falou o partido destes vereadores, apenas os nomes. Todavia, sempre que um “suspeito” é do PT ela faz questão de falar o partido. Por que? Simples: continuar construindo a verdade de que políticos são todos iguais. Quando provam que o “suspeito” era inocente divulgam apenas uma pequena nota, ou, falam em alguns segundos antes do futebol. Assim que as elites de hoje constroem suas verdades e justificam seus erros, dizendo que a esquerda e a direita é algo sem diferença. Por que isso é ruim? Porque temos pessoas que nas relaçoes sociais repetem estas verdades e machucam. Quando as pessoas ficam racistas, elas ficam cruéis, pois além de propagarem mentiras de uma elite que deveria estar extinta – a escravocrata – continuam aceitando as outras mentiras do pacote subjetivo que justifica a exploração do homem pelo homem.

                         Digo isso porque aqui em São João da Boa Vista, SP, ouvi já vários absurdos que em São José dos Campos e – muito menos – em Ouro Preto, jamais ouvi. “Que estranho,fulana foi presa e era tão clarinha, hein?”. Como se cometer crime fosse algo inerente da pessoa “escurinha”. Meu sobrinho nas férias, voltou da praia e ficou uns dias na minha casa, minha mãe recebera umas roupinhas dele mesmo para doação e resolveu doar para uma senhora que já havia feito faxina em casa. Quando esta senhora veio buscar as roupinhas olhou para meu sobrinho e disse: “Nossa, ele é tão escurinho, não?” Pior foi a expressão em seu rosto, a expressão corporal que usou! Ser clarinha (o), escurinho (a), aqui em São João, podem ser qualidades, ou defeitos, respectivamente!

                        Um outro episódio:  minha filha nunca tinha sofrido na escola por falar em quem votaria se fosse votar, aqui algumas meninas disseram em 2010: “Se você votaria na Dilma não pode andar conosco porque somos PSDB”. Quase “normal” que uma cidade sem tolerãncia democrática seja também racista, mostrei que estes movimentos caminham juntos.

                     Fico preocupada porque em toda intolerância, dentro de todo racismo, através de qualquer preconceito social nasce sociedade como aquela Alemanha de Hitler. Não saber diferenciar as classes, valorizar as diferenças e as riquezas culturais de vários grupos, não conhecer a história de luta dos povos, não saber que por trás de tudo está a vontade da elite de justificar sua exploração, é algo muito perigoso numa sociedade. Como diz Boaventura de Sousa Santos, devemos sempre lutar pelas nossas diferenças, o respeito à elas, mas ao mesmo tempo, por nossos direitos, quando estes estão desiguais.

                           Somos um povo mestiço e devemos nos orgulhar disso, não por puro orgulho, mas porque sempre lutamos, por mais que as elites queiram que esqueçamos nossas lutas, e ainda, que a tornemos crime.

                         Crime – eticamente – sempre será fazer as pessoas acharem que algum ser humano pode ser superior ou inferior ao outro.

 

                        Camila tenório Cunha 17/11/2011

                       

                      

                      

                      

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