No tempo da Alemanha Nazista?

      Naquele tempo da Alemanha Nazista, um país do tamanho ou menor que nosso estado de Minas Gerais, os jovens eram educados para pensarem que judeus, homossexuais, deficientes físicos e outros seres humanos: eram inferiores. Havia no maquiavelismo das elites uma vontade de usurpar os bens dos judeus, mas isso não chegava lá na “formação” dos jovens, que eram aliciados e doutrinados em suas fardas na Juventude Nazista.

         Ninguém falava em direitos humanos e o clima era de terror.

      Há tempos tento me lembrar o nome de um filme em que um grupo de  jovens amigos se encontravam para dançar, se não engano o Fox Trote, num Clube aos finais de semana. Como era um ritmo americano, logo o ritmo foi proibido, assim como qualquer coisa que não fosse alemã. Neste grupo havia um judeu e ele foi uma das primeiras vítimas do Holocausto, antes que ele ocorresse. O triste é que em um dos grupos de jovens nazista que o espancaram: estava um velho amigo das danças, agora proibidas.

      Era proibido amar, era proibido se sensibilizar, era proibido sentir compaixão, respeitar a vida.

         O Holocausto veio e muitos que estavam com armas nas mãos, matando vidas, pensavam que faziam aquela violência por algo bom.

             Achavam que a violência se justificava por ela mesma.

       O filme de Charles Chaplin, genial por inteiro, O Grande Ditador, foi proibido lá e em muitos outros países. Terminada a Guerra a humanidade percebeu a genialidade daquele ator-diretor.

        Quando o Holocausto acabou, depois de milhares e milhares de vidas mortas, alguns países se reuniram e resolveram debater que nada, exatamente nada, justificaria violência e desrespeitos aos direitos humanos fundamentais.

        Nenhuma propriedade, nenhuma ideologia, nenhum suposto crime não ocorrido, e sequer, um crime ocorrido, justificaria violação de Direitos Humanos.  EUA participou da elaboração destes direitos e logo se esqueceria dele com a caça às bruxas aos seus próprios conterrâneos que demonstrassem uma ideologia próxima à URSS. Também massacrou milhares de crianças logo depois no Vietnã, e,  o que movia cada ação, era o lucro.

             Lucro nunca pode mover ação nenhuma, vida sempre em primeiro lugar.

         Pois, estamos, agora,  em São Paulo, vivendo tempos em que comunidades estão sendo queimadas.

          Não lá num filme da História, mas  agora,  no Brasil, em 2012.

       E vamos falar de uma que sofreu imensa violência no amanhecer de um domingo, que ficou conhecido como Domingo Sangrento. Esta comunidade estava num terreno, sem herdeiros desde 1969, todavia com um grileiro desde 1981. Este grileiro chegou até a ser procurado internacionalmente,  nunca deu função social ao terreno e sequer pagou seus impostos.

         Esta comunidade se organizou naqueles terrenos desde 2004: fez casas, hortas, igrejas, galpões, parques infantis, enfim, algo que finalmente dava uma função social a um terreno urbano, como exige nossa Constituição, promulgada em 1988. Vários grupos – espíritas, evangélicos, apenas culturais como a Cia Bola de Meia – trabalhavam naquela comunidade, que como todo lugar do Brasil, possuiu traficantes, e, portanto  precisava de ações para proteção social dos trabalhadores e seus filhos, a maioria dali.

          Naquela véspera do Domingo Sangrento foi um sábado com ar de  comemoração, pois uma sentença julgava o pedido de reintegração, pelo grileiro, suspenso por um juiz Federal. Estavam lá senadores, deputados, líderes do Movimento dos Sem Tetos, o próprio secretário Nacional da Habitação, com esperanças renovadas no período de negociação que parecia existir. Estavam lá também agentes culturais, como o poeta cordelista Paulo Roxo Barja e outros, solidários com esta causa mais do que justa. Alguns – ali pela primeira vez – se encantavam com a forma como as pessoas, tão excluídas do sistema, se organizaram coletivamente. Catadores de papéis, boleiras, etc, construíram parques infantis, plantaram árvores, flores.

         Então, por volta das seis horas e trinta minutos da manhã de um domingo, típica manhã onde crianças dormiam, trabalhadores descansavam seus corpos exaustos de semanas duras e apreensivas, chegaram tropas de choque, com balas de borracha, escudos. Pediram para pessoas deixarem suas casas e levarem apenas as coisas que poderiam carregar. Cachorros ficaram, pois algumas famílias possuíam muitos filhos que choravam, ainda pequenos, como carregar o cão também? Deficientes também eram carregados, assim como idosos. Hortas, flores, cortinas de crochês feitas por pessoas caprichosas em seus lares, ficaram para trás, num sonho que se desfez pela ambição de poucos.

          Seres humanos que tentaram resistir levaram balas de borracha, que fere também. O secretário Nacional de Habitação tentou mostrar a ordem do juiz Federal e foi impedido de chegar perto, quando conversava com outras pessoas de costas, levou um tiro de bala de borracha. Uma criança pequena foi ferida e não resistiu. Idosos e crianças passaram mal, no hospital municipal próximo as enfermeiras recebiam ordens de não falarem dos feridos que chegavam. Policiais da Rota violentaram uma jovem de 17 anos. Tudo isso está em relatório pelos direitos humanos, entregue dias depois, numa assembléia para apuração de fatos, onde boletins de ocorrência foram apresentados.

          Alguns foram expulsos do abrigo em que foram levados, outros escolheram igrejas para não irem para abrigos da prefeitura aonde somente adultos iriam, as crianças iriam para abrigos separados dos pais. Poucos dias depois, quando alguns tiveram autorização para pegar o resto de suas coisas, já não encontrou mais nada, apenas entulho, apenas destruição. As autoridades nazistas se apressaram em levar tratores para destruírem tudo. Autoridades nazistas entregaram pulseirinhas azuis para aquelas pessoas. Não entregaram mais uma estrela de David amarela para as roupas, houve, então, uma pequena diferença, a humilhação é bem semelhante.

          Infelizmente, anos se passaram desde aquela Alemanha nazista, onde Direitos Humanos não eram compreendidos, mas ainda vemos por aqui, cenas muito semelhantes àquele tempo sombrio.

           Felizmente, naquele tempo, jovens de valor não tinham vez, aqui alguns ainda conseguem escapar e virar heróis, como o Vítor Cunha, que apanhou e foi desfigurado por defender um sem teto embriagado que apanhava, mas agora é um exemplo que talvez possa ser multiplicado. Naquele tempo toda imprensa alemã só dava voz aos nazistas, agora temos alguns canais (como a Record News) que mostram a verdade e divulgam pesquisas e livros, como a Privataria Tucana, que a imprensa dos poderosos não divulga. Naquele tempo os poderosos estavam todos no poder e não havia possibilidade de investigá-los e agora, investigaremos o motivo do grileiro do terreno ter sua dívida de imposto abaixado em um milhão. Investigaremos o motivo de atos de desrespeito aos direitos humanos, tão apressados.

            Muita coisa em comum, muita dor em comum, contudo, sinceramente, agora estamos nos tempos em que podemos falar em Direitos Humanos. Demorei muito para desabafar sobre este caso porque foi um dos mais doloridos que já presenciei nestes meus 39 anos, havia muita dor. Demorei a perceber que há esperança também, apesar desta dor.

Camila Tenório Cunha 15/02/2012

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4 Comentários

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4 Respostas para “No tempo da Alemanha Nazista?

  1. Oi Camila, parabéns pelo texto. Entendo bem a questão do “tempo necessário” para processar a dor e a triste verdade dos fatos (não era cinema). Nas últimas semanas do Pinheirinho, eu estava empenhado em fazer/apresentar poesia que informasse e ao mesmo tempo mobilizasse pacificamente as pessoas a respeito do tema (surgiu aí o Cordel-Rap do Pinheirinho). Exatamente na noite de 21 para 22/jan, voltei do Pinheirinho e fiquei trabalhando num poema sobre o “nordestino-joseense”, o migrante que merece todo respeito, nosso irmão – essa é a palavra: irmão. A ideia era, com esse poema, terminar o Cordel da Cidadania que sonhava lançar. Só que fui acordado no “Bloody Sunday” joseense e a truculência havia atropelado a poesia… Passei os dias seguintes construindo e, a seguir, apresentando o Cordel do Pinheirinho, junto com um monte de outros pequenos textos em prosa salpicados pelos mais diversos lugares no intuito de denunciar a violência absurda – que nos fere a todos, de um jeito ou de outro.
    Até agora, ainda não consegui terminar os versos sobre o migrante-joseense – o Cordel da Cidadania ainda não existe. Mas existirá… sigamos irmanados na dor, mas também na esperança, no afeto e na poesia, sempre!

    • profacamilatc

      Obrigada, Paulo, pela passagem por aqui e pelos depoimentos. É importante que as pessoas que estão em contato com as vítimas do massacre, passem por aqui e falem! Então, também passou pelo choque da dor que silencia? Acho que é assim mesmo: muita dor, silencia. Li os poemas e gostei. Parabéns. Abraços!

  2. Zenilda Lua

    A arte de ser sábio, é a arte de saber o que tolerar, disse William James.
    Camila, seu texto nos possibilita legitimar a intolerância.
    Nunca mais queremos doer desse jeito de novo!
    Nunca mais quero ouvir Clarinhas, Vitórias, Rebecas, Eduardas perguntarem quando poderão voltar para casa – ( se não existia mais casa) – e o meu coração, arrasado feito o Pinheirinho, sufocava o choro sem resposta para nossas meninas!
    Infinitamente cruel e desumana todas as ações efetivadas.

    • profacamilatc

      Também espero que nunca mais, Zenilda e foi muito bom vê-la por aqui, trazendo um depoimento tão importante, para as pessoas saberem o que significou de dor o Domingo Sangrento. Obrigada!. Parabéns pelo trabalho! Abraços.

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