Ontem foi um dia que ouvi muita coisa de educadores e me fez pensar que a educação caminha assim: com dois passinhos para frente e um passinho para trás.

             Ouvi de um colega que “ Em tal lugar havia uma escola especial para surdos e todos saiam felizes dela, conversando em libras, se você joga um surdo numa escola normal, fica aquele aluno triste.” Esta frase segregadora me angustiou muito, concordo que todos os professores tenham que saber libras, que frequentar um ambiente com outros surdos ou que ter um professor surdo na escola é fundamental, pois libras, como o qualquer língua, depende de prática, mas segregar outro ser humano seria um passo de gigante para trás!

              Na hora não me lembrei da experiência que assisti na prefeitura de São José dos Campos, gostaria muito que outras professoras que trabalharam comigo na EMEF Norma de Conti Simão, viessem reforçar o que conto aqui. Uma colega que lecionava no primeiro ano soube que iria receber uma aluna surda, então, no ano anterior à notícia correu para aprender libras, fazendo, inclusive, muito sacrifício pessoal, porque o curso era oferecido gratuitamente pela prefeitura, mas era noturno. A aluna chegou e ela conversava com a sala falando e fazendo libras ao mesmo tempo, por exemplo, na hora de memorizarem o alfabeto. O que houve então? Toda a turminha aprendeu libras também, conversavam em libras com a colega! Quando sai para trabalhar Ouro Preto, esta menina estava no terceiro ano, com sua turminha e a mesma professora (que até então a acompanhara), muito enturmada e feliz.

            As turmas do Norma que viveram a experiência da inclusão, como professora de Educação Física pude observar, eram mais solidárias, humanizadas.

            No livro que amo “A ética na Educação Infantil”, as pesquisadoras acompanham três turmas de jardim por um ano, com uma máquina de filmar que as crianças se acostumaram. O objetivo era investigar o desenvolvimento moral da criança nesta faixa etária, seguindo a lógica da Piaget, já que para este autor à medida que adquire desenvolvimento moral a criança passa a se colocar no lugar do outro, a cooperar mais do que a competir, enfim, adquirir o que Piaget chamava de autonomia. Alguns adultos ainda estão na heteronomia porque só se preocupam com seu núcleo familiar, não possuem noção de coletivo, e, nem sabem se colocar no lugar de outras pessoas, então, por exemplo, não correm com o carro para não levarem multa e não porque podem causar um acidente e machucar inocentes. Um adulto que não corresse para não machucar ninguém, independente de radares, estaria na autonomia.

             As turmas do livro em questão possuíram os seguintes perfis de educadoras que as pesquisadoras classificaram depois: a gerente de fábrica (sempre dizia para os alunos trabalharem, e, fazia a “salinha” funcionar com ordem fabril), a militar ( autoritária ao extremo, sem diálogo e os alunos aparentavam ter muito medo dela) e a comunitária (tudo era discutido em roda, qualquer ocorrido negativo ou positivo era motivo para sentarem, se organizarem, discutirem ações e sentimentos).

           Depois de um tempo as pesquisadoras pediram para que as educadoras saíssem de suas salas e deixassem as turminhas apenas com as filmadoras. Na turma da gerente de fábrica houve conflitos, brigas que ficavam sufocadas, e, sempre eram deixadas para lá em nome do “trabalho”; na turma da militar houve uma verdadeira anarquia, as crianças simplesmente fizeram a festa e na turma da comunitária todos continuaram em suas atividades normalmente, como se a educadora ainda estivesse por lá! Esta sala funcionava por “cantinhos de interesse”, alguns cuidavam das plantinhas, outros faziam matemática, outros liam, depois tinha alguns períodos em que todos liam ou contavam ao mesmo tempo, com alternância entre os métodos.  Era a sala mais barulhenta, só que em vários nos momentos de roda todos compartilhavam as coisas aprendidas e sempre alternavam as atividades com tranqüilidade. Quando havia um conflito a educadora não empurrava para o tapete, mas parava tudo e todos diziam o que estavam sentido. Ela fazia perguntas como: “E se fosse com você, fulano, você gostaria?” E a criança ia aprendendo a se colocar no lugar do outro. Como a criança sabia exatamente o que ocorreria naquele dia, porque a comunitária fazia uma roda todo início de aula e explicava as coisas que ocorreriam e o motivo, as crianças sabiam e escolhiam as atividades, revezavam sempre, entendendo o que ocorria. Até uma criança esquecer o lanche era desculpa para uma aula de solidariedade e matemática ao mesmo tempo.

           No final da pesquisa puderam concluir que a sala da comunitária, com conflitos, diálogos, diferenças e barulhos, além de todo domínio cognitivo para matemática, leitura, observação da natureza, estava bem à frente também moralmente do que as outras turminhas.

            Uma educação não segregadora é uma educação rica, onde as diferenças ensinam, não basta ser bom em contas, é preciso saber que elas possuem uma função coletiva de se estar no mundo, num mundo coletivo, onde o individualismo o está destruindo, mas a cooperação o tem mantido.

           Um trecho do filme “Escritores da Liberdade” foi passado ontem para educadores. Muitos não viram o filme todo e falaram frases como: “ Não podemos nos envolver com a vida pessoal dos alunos, não somos psicólogos, nosso objetivo é passar conteúdos”. Ora, no filme a educadora percebe a vida pessoal dos alunos, e, faz os alunos perceberem que em nosso humanismo, todos nós sofremos. Num momento ela fez uma linha no chão e todos se encontraram nela em momentos assim: “Quem já perdeu um amigo com a guerra de gangs, vá até a linha.” Antes a turma era toda separada por guetos, depois com esta e outras dinâmicas a turma percebeu que todos sofriam com as guerras das gangs, etc.

             A educadora  passou leituras que a escola achava que a turma não conseguiria, comprou do próprio bolso porque a escola não quis fornecer livros para aquela turma. Ao final, estavam lendo muito e bem, como seria o objetivo das aulas, que era inglês. Num envolvimento com as dores dos alunos os alunos se perceberam e perceberam sentido em suas leituras, conheceram a “jovem” que escondeu Anna Frank, leram  este livro e escreveram para ela contando suas histórias. Aprenderam a ouvir e a serem ouvidos, ou seja, a dialogar. Não temos como segregar pessoas e conteúdos, da vida, por isso, não temos como ser educadores e acharmos que só nosso conteúdo basta. Nosso conteúdo apenas não faz sentido para os alunos, tudo e todos devem estar conectados com o sentido da vida, que é estar junto, aprender e ensinar com nossas alegrias e dores.

           Não somos psicólogos, mas lidamos com gente em desenvolvimento e não máquinas! Por isso, temos que ouvi-los para que possamos ser ouvidos e ajudá-los a usar o conhecimento que temos para transformar a realidade, a nossa e a deles. O filme ‘Escritores da Liberdade” é uma história real e ao final, todos aqueles estudantes chegaram à universidade estadual da Califórnia. Não foi fácil para a educadora, houve tentativa empírica de vários caminhos para que eles chegassem até ela, e, ela até eles. Mas todo caminho passou por ouvir suas dores, deixar o conteúdo de lado e ouvir. Depois trazer o conteúdo repleto da cada vez mais sentido.

            Ser educador é isso, trazer sentido para o conhecimento, um sentido humano, um sentido que dê sentido à própria vida, já que a vida baseada apenas do “ter” (fama, dinheiro, etc), é uma vida vazia de sentido. Só que ontem percebi que muitos educadores não acreditam nisso e pensei que talvez seja por isso que a educação funciona com dois passinhos para frente e um para trás.

Camila Tenório Cunha

07/06/2012

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junho 7, 2012 · 1:26 pm

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