Descobertas: a desconstrução da utopia e a construção da esperança

         Quando se é criança, em algumas culturas, existe um velhinho que se veste de vermelho e leva presentes para todos que forem bons, sem exceção. Pode ser também que nelas o jovem participe de um partido de esquerda como se esse pudesse ser perfeito. Acreditamos, quando jovens, na utopia, num mundo em que todos entenderiam que é bom ser bom. Simples assim.
Minha filha tem 16 anos e acreditava que o nosso partido, o partido de esquerda mais popular deste país, pudesse ser perfeito porque conseguiu tirar 40 milhões da miséria, investir como nunca se investiu no social e na educação. Por isso ela acreditava que este partido era perfeito. Ela conseguia não cair nas armadilhas da direita, nas montagens de mensalões pela direita, acusando ministros sem provas, fazendo do escândalo o próprio crime. Conseguia perceber que a mídia não publicava de propósito livros reveladores, como “ A Privataria Tucana”, mesmo que neste tivesse documentos, sem segredos de justiça, que ligavam políticos importantes do PSDB ao esquema de privatização. Sozinha minha filha conseguia perceber que a população havia sido roubada, mesmo que a grande imprensa – dos poderosos – não quisesse que os jovens  soubessem disso, ela sabia.
Todavia, não conseguia perceber que este partido não era perfeito, que dentro dele não havia tanta democracia, apesar de ser um partido que lutara pela democracia por toda sua história. Minha filha ainda o via como um partido perfeito e eu via na minha filha um reflexo que eu fora, aos 16 anos, quando votei pela primeira vez e no Lula.
A grande decepção da minha filha com este partido veio ao perceber que – por poder – se uniu a partidos sem tantas lutas, que já se ligaram outras vezes com os poderosos, alguns eram estes poderosos em suas regiões. E nestas ligações um projeto maléfico como Belo Monte passou. Tristeza também ao estudar a história recente e ver que Belo Monte – um mal para a população local, os indígenas, natureza e no fim, a Terra – passou bem pelas mãos de outras pessoas que ela admirava, como a Marina Silva. Nesta época, de início do Belo Monte, ela era ministra do meio ambiente, como permitiu isso se sabia que Belo Monte traria pouca energia, muito gasto já que é um rio reto, e que, na verdade, o certo seria investir em outras formas de energia sem que os direitos humanos da população local não fossem violados?
O que podemos falar para uma criança que descobre que papai Noel não existe? Que alguém assim não existe, mas que existe muita gente boa que faz o que este alguém deveria fazer.
O que podemos falar para uma jovem que descobre que Marina Silva, que falou no Youth Blast contra Belo Monte, na verdade, foi uma das pessoas responsáveis por ele? Que agora ela luta contra ele e que devemos nos unir nesta luta por que é a certa?
O que podemos falar para uma jovem sobre um partido que se liga com pessoas da direita pelo poder? Que ele não é perfeito, mas a solução não consiste em sair dele, mas ficar nele e torná-lo melhor.
Numa balança este partido ainda é o melhor que temos e pode ser melhor se lutarmos para que ele ouça as vozes jovens de fora, não por mera crítica como a direita faz, para destruir e pronto, porém como idéias de algo que pode ser melhor.
A crença na utopia foi abalada? Mas a esperança deve permanecer, pois ela depende de nós para a construção de um cotidiano melhor, a cada dia, para as futuras gerações. A esperança se dá com amor: ao próximo, a si mesmo, à natureza, aos direitos humanos, à história de tudo de bom que já foi feito e que ainda poderá ser feito. Utopia pode ser demais, mas o sonho de um mundo mais sustentável, justo, sem direitos humanos violados, nunca é. Estes sonhos devem ser sempre plantados nos corações, de todas as idades.

Camila Tenório Cunha

07/08/2012

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2 Comentários

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2 Respostas para “Descobertas: a desconstrução da utopia e a construção da esperança

  1. Hélio

    Camila, gostei do seu texto. Entre os libertários há a crença de que ao homem não se deve dar poder, pois isso o tornará um déspota. Continuamos ainda acreditando no partido, não por fanatismo, mas por saber que a contradição faz parte do processo e, por isso, lutamos para que o PT volte a ser o partido que ajudamos a construir. As nossas decepções são pontuais e pessoais e, nesse sentido, não somos nós que erramos, mas alguns que devem sair do partido para que ele siga à cumprir sua missão na história.

  2. Contra uma juventude sem esperança, a alegria de jovens com esperança…
    Vida Longa a Lalá!
    Abreijos
    Marcelo Russo

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