Os filhos que se foram em maio, as casas que se vão agora:

Estes dias fiquei angustiada com o número de pessoas que perderam casas em SP, principalmente nas favelas incendiadas, só nestas duas últimas semanas de agosto de 2012.  Na revista Fórum há tempos atrás já fizeram denúncias de moradores que tiveram suas casas incendiadas, algumas casas pegaram fogo sem ninguém dentro, e, para piorar, os bombeiros demoraram a chegar. Estas favelas estavam em lugares que a prefeitura e construtores tinham interesse em desapropriar. Um cenário de ambição dos construtores que financiaram campanhas de Kassab ( e outros)  por trás da especulação imobiliária: que expulsa as pessoas  e violam  o direito humano de morar com dignidade.

       Estava angustiada com isso, pensei em outros crimes que têm acontecido e que violam outro direito humano: o de viver.

      Jovens pobres da periferia, trabalhadores, têm sido mortos, os crimes ficam impunes e sem solução. Quem os comete os faz com profissionalismo, recolhem vestígios, há indícios fortes que sejam profissionais, que deveriam protegê-los, todavia os matam.

       O que faz um estado tão rico como o de SP, uma cidade tão rica como sua capital, violar tanto os direitos humanos básicos de moradia e vida? Talvez um governo municipal-estadual casado com grupos de construtores, especuladores imobiliários, e, para piorar sem investimento em educação, todavia, com militarização exagerada, ajude neste cenário triste. O grileiro Naji Nahas, em São José dos Campos, com apoio do prefeito Cury,  conseguiu seu terreno que hoje é um lixão, as pessoas que estavam lá ainda estão sem casas, vivendo como refugiados, como se fossem criminosos.

       O grupo Mães de Maio coleciona histórias tristes que ficam sem solução, algumas revistas que conseguiram manterem-se éticas, como Fórum e Caros amigos, publicam suas histórias, entrevistam suas mães. Mães de Maio são as mães que tiveram seus filhos mortos naquele maio de 2006, quando houve uma reação da polícia aos crimes do PCC. Pena que esta reação foi – segundo Cremesp – em cima de jovens trabalhadores, inocentes, pois dos 493 mortos naquela época, nem um quarto era de bandidos, e,  57% teriam recebido pelo menos um disparo pelas costas.

        A revista Fórum de abril de 2012 nos trouxe histórias tristes, como de Márcia Aparecida, mãe de Talita C. de Almeida, morta aos 20 anos no Guarujá. Num dia das mães a família saiu cedo da comemoração na casa da avó de Talita porque o clima era de guerra, colocaram fogo num ônibus perto. Então, um amigo a chamou, para que ela lhe emprestasse um celular, o seu irmão foi buscar, enquanto Talita ficou na frente de sua casa conversando com o amigo. A mãe ouviu cinco tiros, gritou pela filha e soube, pelo marido, que a filha não voltaria mais. A mãe disse para a revista que espera até hoje a chegada da filha. A morte de uma filha não se supera.

   E a sensação de injustiça? Pelas evidências foi um policial à paisana, todos que viram se mudaram de lá, tudo ficou sem solução.

     Estes dias a ativista pelos direitos humanos americana, Rachel Corrie, também foi morta. Morta porque, aos 23 anos, ainda acreditava que a vida humana tivesse valor e se colocou na frente de uma escavadeira para impedir que ela destruísse casas de palestinos na faixa de Gaza.  Por ser americana esperávamos que desta vez os EUA se pronunciasse contra as atitudes desumanas de Israel, contudo, houve silêncio. O mesmo silêncio que existe pelas vozes das crianças palestinas que são violentadas dia a dia, pelos militares israelenses.  A imprensa americana, desde a guerra fria, não sabe o que é fazer um jornalismo livre. A prova de que a liberdade e a verdade incomodam os poderosos é a busca pela cabeça do idealizador de Wikileaks, Julian Assange.

        É preciso que paremos, está na hora da humanidade ir por outro caminho, o dinheiro e o poder não podem mais comandar – e anular – os direitos humanos básicos, de vida, moradia, dignidade.

        Tudo passa pela busca da paz, se esta estiver em primeiro lugar, ações que violam estes direitos não ocorrerão. A solução para a efetivação dos direitos humanos em cada canto da Terra, de Israel ao Brasil, não se fará por mais armas, mais militares, e, sim, por educação. E não uma educação massificadora, de repetição de frases feitas, contudo uma educação transformadora. E esta educação transformadora não caminha no sentido da pressão, mas sempre do diálogo, da troca, da negociação, do respeito às diferenças, diversidade, justiça, e, principalmente da não-força, pois qualquer  força-pressão, da maioria ou da minoria, vai contra a paz. Não há direitos humanos sem paz. A paz é a raiz da sobrevivência humanidade, outro caminho nos levará à extinção.

Camila Tenório Cunha, 30/08/2012.

Rachel, jovem americana morta por escavadeira enquanto defendia as casas de palestinos.

Mais uma favela incendiada em SP.

Filósofa Marilena Chauí, ideologia da classe média e a violência.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Os filhos que se foram em maio, as casas que se vão agora:

  1. Querida Camila…
    Não tenhamos dúvida: Expeculação imobiliária, os Mega-eventos, a falta de planejamento urbano são fatores que sempre colocarão em risco a vida de comunidades pobres e populares…
    E refistas como a Caros Amigos e Carta Capital, parceiros incansáveis no meio desta mídia comprada…
    Vida Longa ao Blog da Prof. Camila.
    Vida Longa a ti…
    Abreijos!

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