O que é Educação Física:

   O que esta disciplina vem a ser é o que justifica sua importância.

  Verdade que ela passou por fases tecnicistas, militaristas, etc, outros tantos a consideram importante para a manutenção “mecânica” da  saúde…  Ao professor desta disciplina cabe mostrar que podemos –  ou não –  usar nosso corpo,  nossa saúde para “servir” a um sistema econômico (talvez injusto), mostrar que somos biológicos ‘também”, mas, principalmente que não podemos esquecer que  somos seres culturais, portanto,  podemos transformar. Podemos nos mostrar como ser que vai além do estereótipo de “eficiência”, vendido pela mídia.

  Deste modo – nos sabendo culturais – existe uma razão  porque com os mesmos temas as aulas que lecionei em São José dos Campos foram diferentes das que lecionei em Minas ou aqui no interior de SP, cidade com um centésimo do número de habitantes que havia em São José (as aulas foram sempre diferentes, mesmo que parecidas). Porque não tem como nos desligarmos da realidade sociocultural de nossos alunos. Deste mesmo jeito temos que mostrar aos alunos, criticamente, que todos os movimentos humanos são culturais, portanto, possuem história e são passíveis de transformação.

   É nesta disciplina que o aluno deveria entender que existe uma ciência para nos dizer que uma das maneiras de ser mais saudável é caminhar, só que, ao mesmo tempo, ajudá-lo também na busca por uma autonomia de movimentos corporais. Uma destas maneiras é experimentando movimentos e atividades variadas, que normalmente não fariam no cotidiano, além daqueles que eles talvez já tenham feito: como brincadeiras e jogos diversos. Não existe idade para experimentar as brincadeiras, embora tenha ocorrido uma separação – segundo Philippe Ariès – entre esportes para adultos e jogos para crianças no século XIX. Sempre trabalho com jogos com alunos de ensino médio e em algumas turmas o que era para ser um mero “aquecimento” durou toda aula.

  Então, na EF temos uma educação voltada para autonomia na busca do lazer e não apenas da saúde, como muitos pensam. E não na saúde “médica- higienista”, como já foi uma época, no início de “vida” disciplina, mas na saúde como busca por qualidade de vida. Temos também na disciplina as vivências de diferentes movimentos corporais, produzidos culturalmente em diferentes períodos históricos, por diversos povos, ritmos, para busca de um enriquecimento crítico, destes alunos, com relação a sua corporeidade.

     Dizia meu professor João Batista Freire em suas aulas: “Quanto mais bagagens na mochila motora, melhor”.

  Alguns alunos me pedem dispensa da EF porque fazem “academia”. Eu sempre respondo que a EF é para que ele entenda também o que ocorre na academia e possa escolher entre academia e outras formas de busca por qualidade de vida. Há uma riqueza de práticas corporais que uma academia não dá conta, mas uma EF na escola dá com tranqüilidade, e, sobretudo, criticidade. Colocar um jovem e/ou  uma criança em uma única atividade física porque esta lhe dá prazer é o mesmo que deixá-lo (a) só fazer somas na matemática, ou só comer doces na vida, muitas outras coisas – boas – faltarão a esta criança-jovem. Chega a ser criminoso uma criança que nunca experimentou jogar em grupo, queimar, congelar, rolar, subir-descer, saltar, ou soltar pipas porque só nadou, só jogou tênis ou só fez ginástica artística.

  Hoje meus alunos de primeiro de Ensino Médio trabalharam em pequenos grupos, até seis, com corda grande. Alguns nunca tinham pulado corda, disseram isso apenas nos pequenos grupos, quando tentei conversar sobre isso no grande grupo, sentiram vergonha.

  Eu sinto vergonha da minha categoria profissional, de saber que estes alunos ficaram oito anos no fundamental e nunca pularam corda, nunca!

   Lógico, sempre tive a sorte de conviver com colegas de disciplina que  tiveram boa formação e a entendia como eu: uma disciplina para se trabalhar a corporeidade, toda a riqueza simbólica e cultural expressa nesta pequena palavra. Imagino que me sentisse muito mal ao ver colegas retirando da disciplina o que a justifica, porque se formos trabalhar com a  disciplina de modo excludente, castrador, higienista ou tecnicista, ora, a mídia  já faz isso com as práticas corporais, então talvez fosse melhor que este aluno só fosse para a academia mesmo.

   Entender as riquezas de se: pular corda, rolar, queimar, ver imagens de atletas paraolímpicos com respeito, experimentar um jogo que seria considerado paraolímpico, ouvir histórias sobre mudanças nas práticas corporais, saber que caminhar com o cachorro pode ser uma forma de lazer, qualidade de vida, vivenciar um jogo em grupo correndo sem medo dos carros, gritar com toda força que puder, ouvir o silêncio, saber ver um jogo na TV e entendê-lo, compreender porque jogadores de futebol fazem abdominais,  isso e muito mais só a EF faz. E não tem preço.

Camila Tenório Cunha

25/09/2012

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