Isso seria educativo?

Isso seria educativo?
Reflexões sobre participação de alunos de Ensino Médio de uma Escola Pública em jogos escolares numa cidade que não separa os jogos escolares de escolas públicas e das escolas particulares.

Durante muitos anos senti alegria ao perceber que era possível ensinar alunos a jogarem modalidade de modo oficial sem fazer faltas, com lealdade, seguindo o princípio do Barão de Coubertin para o esporte e questionando  o que ocorria nas mídias. Deste modo, alguns alunos de fundamental conseguiram, entre 37 escolas municipais, medalhas de bronze (handebol feminino) ou chegar às quartas de final (vôlei masculino e basquete feminino) nos Jogos da REM, em São José dos Campos. Lá árbitros das Federações recebiam treinamento para aproveitar o evento e ensinar as regras aos educandos, alguns árbitros melhores, outros piores.
Nesta cidade de São João da Boa Vista vi um primeiro jogo de handebol em que os alunos apanhavam tanto – e as faltas nunca eram vistas – que antes do início do segundo jogo estava falando para um aluno magrelo: “ Quando pegar a bola deixe o cotovelo para trás”. Estranhamente a mesma coisa que ensinei em defesa pessoal outro dia para os terceiros anos. Isso seria educativo? Eu me senti incomodada em ensinar isso, lógico que para alguns não precisava ensinar isso, eles já chegavam ao Ensino Médio com esta malícia de auto defesa, mas dependendo do perfil pacífico do aluno isso se torna necessário, afinal, o mundo real é feito de necessidades de defesa.
Só que tudo vai contra minha história de ensino da ética dentro da disciplina. A Educação Física (EF) tem a sorte de poder ensinar algumas coisas de modo lúdico e divertido, todos que são ou foram meus alunos sabem que ela deve proporcionar a vivência e a reflexão de temas da cultura corporal. Algumas vezes para isso ocorrer – todos participarem e ser divertido – é necessário adaptar as regras oficiais, mas os alunos recebem a noção das regras oficiais, inclusive das mudanças e história destas modalidades com reflexões: por que será que o vôlei não tem mais a “vantagem”? Dentro das aulas quanto mais reflexões, diversidades, mais educativo e proveitoso para desenvolvimento da autonomia dos alunos para o lazer, seus tempos livres, criatividade, capacidade de escolha de atividades físicas. No fundamental muitos foram encaminhados para escolinhas sem jamais pararem de fazer EF, no Ensino Médio as escolinhas podem se transformar – ou não – em “treinos” nos períodos fora da aula, pois as reflexões devem continuar, bem como a diversidade, então as aulas de EF precisam continuar também. Mas é o período em que o aluno que demonstra interesse em aperfeiçoamento técnico de uma modalidade deve encontrar espaço para isso. Isso não significa, jamais, ter dispensa da EF, pois as reflexões serão ainda mais ricas neste período, já que paralelamente a criticidade deste aluno aumenta.
Lógico que participar de jogos escolares pode ser interessante demais para alunos que demonstraram interesse em aperfeiçoamento técnico, participação de treinos para além das aulas de EF, mas ainda assim um espaço educativo, pois estamos falando de jovens e não profissionais, adultos. Pode ser interessante até encontrar outros times em que cada metade deles faz parte de times profissionais e federados, já que irão forçadamente tentar uma melhoria técnica e atingir aquele patamar. Mas será que existe equidade quando juntamos alunos que treinam uma vez por semana com poucas bolas ou apenas uma e alunos que treinam em times profissionais, todos os dias, com fartura de materiais? E se não houver equidade seria educativo ainda assim?
No handebol, no primeiro jogo contra o SESI estávamos com poucos alunos, pois muitos estavam fazendo provas na escola, mas os mesários, meninos estudantes de EF, estavam tranqüilos, fazendo papel de mesários mesmo. Os árbitros também estavam tranquilos, embora quase não existisse falta para o outro time, mesmo quando a cometiam. Quando chegou o segundo jogo (quatro horas depois) a mesária foi aquela que no primeiro semestre retirou um colega que dava aula no campo no meio da aula dele, para ele não estragar o campo, esta pessoa delicada gritava que era falta para os “árbitros”, interferindo todo tempo. Garantiu assim que seríamos mais ainda prejudicados, algo até desnecessário, pois o outro time era bem maior que o nosso e isso no handebol pesa bastante. Um aluno fez falta e já foi saindo após o árbitro perto dele apitar, estava já sentado no banco, quando o árbitro de longe disse que outro fez a falta. O outro ficou indignado e perguntou: eu? O árbitro de longe se aproximou e o expulsou com amarelo, ele disse “valeu” e mandou um beijinho irônico, o árbitro então deu vermelho para ele e o colocou para fora da quadra. Ainda disse algo como “depois você vai ver só lá fora”, ameaçando o menino para além do jogo. Isso seria educativo? E como se não bastasse a mesária se levantou para gritar com os outros alunos do banco que se manifestaram indignados com tudo. Gritar seria educativo?
Um colega que se aposentou no ano em que cheguei na cidade disse que não achava a Maratona educativa porque as escolas particulares participavam e ele não achava justo, porém como havia ido numa reunião para sondar em agosto de 2013 e gostei do discurso, achei que talvez tivesse mudado, que talvez fosse educativo, contudo vejo que me enganei.
Pude perceber que não usam árbitros federados, mas ex-alunos das escolas particulares e em geral acabam favorecendo estas escolas, o que até seria desnecessário porque no quesito equidade sabemos que as escolas públicas entram em desvantagem. Sabemos que em escolas públicas pedimos bolas por licitação, as mais baratas são as que duram menos, logo temos, para início de conversa, menos materiais para aperfeiçoar fundamentos. As escolas particulares chegam com sacolas de bolas de vôlei e os alunos aquecem com os fundamentos de toque e manchete em duplas, nós temos que aquecer numa rodinha, brincando de três cortes. Pode ser mais divertido, mas será que é uma situação de equidade? Se não for seria educativo?
Na cidade em lecionava no ensino fundamental as escolas particulares não entravam nos Jogos da REM, apenas as municipais, as estaduais participavam de outro campeonato, já as particulares faziam apenas campeonatos internos (o dinheiro público não era usado para elas se promoverem ganhando campeonatos) e os alunos delas que quisessem eram federados nos diversos clubes da cidade. Havia equidade porque todas as escolas municipais recebiam do município jogos de uniformes e bolas novas todo ano. Alguns materiais como arcos chegavam apenas para os professores que solicitassem. Certa vez questionei um auxílio tênis também, pois percebi que tinha muitos alunos sem tênis, faziam aulas descalços porque era menos perigoso do que com chinelo. Nos CEUS em SP os alunos recebiam uniformes escolares com tênis também, o que ainda me parece uma boa idéia.
Se não há equidade de condições, se os árbitros não são federados, se há uma luta de classes velada que humilha ainda mais alunos que já são humilhados no cotidiano da cidade, seria educativo continuar participando de um evento como este ou meu colega já aposentado estava certo? Desconfio que ele estava certo e apesar do belo discurso que ouvi na reunião pouca coisa se transformou da época de experiência – ruim – dele. Contudo achei os alunos muito lutadores, técnicos, bem humorados. Lutaram muito bem no basquete, futsal, vôlei, femininos  e masculinos. Além disso, demonstraram incrível capacidade de levar as injustiças com bom humor, algo que ao final do handebol já estava em falta dentro de mim, ou seja, eles estão de parabéns, então, talvez, apenas talvez, isso tenha sido educativo.

Camila Tenório Cunha
15/11/2013

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3 Comentários

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3 Respostas para “Isso seria educativo?

  1. felipe

    luta livre?????? isso pra mim e mais um choro de uma escola que perdeu no basquete de 40×0, 42×2 e 60×12 … na minha escola não recebemos nenhum treinamento de nenhum tipo de esporte inclusive o basquete e apesar de alguns poucos erros de arbitragem TUDO oque foi feito nos jogos foi legal, não vimos nada de irregular pois basquete é um jogo de contato físico… e já que a senhorita vê um jogo de contato físico como selvageria, acho melhor começar a ensinar seus alunos a jogar peteca

    • profacamilatc

      Leia de novo com calma o texto, caro Felipe. Não escrevi sobre o basquete que teve uma arbitragem e mesários bons. Perdemos porque somos times de escolares e não tem ninguém federado em nosso time, muito bem. Todos meus alunos, aliás, entraram com sensação de derrota ao reconhecerem em outros times atletas do basquete da Esportiva e do Palmeiras, eu disse que serviria para nos melhorarmos e que jogo era jogo.
      Escrevi sobre o handebol,que só teve bons mesários no primeiro jogo, mas a arbitragem foi fraca, até ameaça verbal contra um aluno teve por parte do árbitro, o que não é educativo. Aliás, é até crime porque nossos alunos são menores de idade…
      Acho que você precisa treinar interpretação de texto, faz falta em vestibular e na vida, comece já que ainda dá tempo, faça um reforcinho de português, no IF temos uma ótima professora que oferece cursos de extensão para São João da Boa Vista! Só terá a ganhar!

  2. Camila, gostei do seu texto, mas penso que você e o Marcelo são grandes exceções. Por isso, sempre respeitei vocês desde que vim para o IF São João da Boa Vista. Eu, por exemplo, acharia normal tudo o que ocorreu no evento em que vocês participaram. Achei ótimo que os alunos tenham aproveitado as aulas com vocês. Penso a participação nesse evento como uma ótima experiência para nossos alunos, vivenciando a “competitividade” do mundo.

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