Lembranças de lições de cidadania

Resolvi fazer uma retrospectiva de onde veio esta minha indignação com o modo violento de se manifestar, de não achar normal incendiar algo, quebrar, para dizer o que pensamos, para buscar soluções para nossos problemas sociais, econômicos. Não farei força para lembrar a idade exata que eu tinha, mas relatarei exatamente o que entendia e pensava. Estas lembranças de lições de cidadania que me fazem querer que voltemos a chamar o que chamávamos de passeatas e não de manifestações como estas mídias podres estão fazendo.

Lição 1. Minha mãe, eu e meu irmão na janela do apartamento batendo panelas. “Panelaço pelas diretas”. As luzes de nosso apartamento e de vários lugares foram apagadas como podíamos ver pela janela. Nossa vizinha Bel também fazia, dava para ver da janela de nosso apartamento, mas tudo que me parecia tão divertido acabou muito rápido, ao questionar para minha mãe ela respondeu:

É que é apenas para pontuarmos o que pensamos, mas não podemos atrapalhar a vida de quem não pensa como nós. Pode ter gente querendo ver novela, deixar estas pessoas irritadas não vai ajudar. Mais fácil conversar depois.

            Aprendi com minha mãe que atrapalhar a vida de outras pessoas não é cidadania, apenas uma lembrança de que estamos protestando já valia.

Lição 2.  Meus pais estavam votando pela primeira vez depois da ditadura. Minha mãe,  apesar de morarmos anos em São José dos Campos, já separada de meu pai, nunca havia se preocupado em transferir o título porque, afinal, era uma ditadura. Deste modo, a primeira vez que ela foi votar era na mesma escola que meu pai votava, os dois haviam conversado e combinado de votarem juntos. Era eleição para prefeito de SP. Indignada descobri que eles não votariam no Suplicy e sim no FHC. Meu Deus, aquele burguês! Era muito pequena, talvez uns dez/onze anos, mas achava que eles tinham que votar no partido dos trabalhadores, em trabalhadores de verdade. Eles disseram que não votariam porque senão o Jânio iria ganhar (e acabou ganhando).

         Deste modo, sem conseguir convencer meus pais resolvi ajudar uns companheiros do PT a distribuir santinhos do Suplicy fazendo boca de urna (bons tempos, ela era permitida), enquanto eles votavam.

     Tive minha segunda lição de cidadania destes companheiros que nem conhecia, mas me deram uns dez santinhos:

Converse com as pessoas, explique o motivo de você querer o Suplicy, se achar que não convenceu, não dê o santinho senão a pessoa apenas suja a rua. Isso pode entupir os bueiros e não vai ajudar.

         Aprendi com os companheiros que podemos conversar, dialogar, nem sempre concordarão conosco, mas não podemos impor nada à ninguém e nem causar um mal maior coletivo, no caso, uma rua suja e um bueiro que não escoa água.

      Lição 3. Reforço da lição 2. Não me lembro se estava com meus pais, um dos dois ou apenas um, mas a multidão estava longe, era alguém que me levou para ver o comício das Diretas,  já de longe. Estava comendo bala e antes que jogasse o papel na rua este adulto me disse:

      – Coloque o papel no bolso até surgir um lixo, estamos aqui para lutarmos por democracia…

      Algo assim, ou seja, uma luta que não teria nada haver com algum mal ao coletivo e sim com um bem.

      Quando queimar ônibus, caixas eletrônicos, soltar rojões arriscados se tornou prática de cidadania?

       As minhas primeiras lições de cidadania vieram com a luta por democracia e nesta luta por um bem maior nunca caberia mal á ninguém,  estava subentendido. Machucar, queimar, quebrar, isso não tinha haver com democracia, tinha haver com as práticas dos militares, aqueles que colocaram a bomba no Rio Centro para acusar os “comunistas”.

       Democracia tinha haver com cidadania, dialogar, buscar soluções, ouvir, respeitar quem pensasse diferente, cuidar do outro e do todo. Quando ela foi confundida com terrorismo?

     Nunca consegui tirar minhas primeiras lições de cidadania de dentro de mim, por isso ando tão indignada com quem acha que queimar um colchão é certo e a pessoa com seu fusca que não deveria passar por ali. Eu me lembro da minha mãe falando que deveríamos bater a panela, mas não atrapalhar a vida das pessoas. No caso, como podem achar normal atrapalhar um trabalhador que volta em seu fusca, com sua família? Esta lição e outras de respeito, foram mais fortes dentro de mim. Por isso, estou indignada com estas pessoas que acham certo quebrar, queimar, etc.

Camila Tenório Cunha

14/02/2014

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