A banalização da morte pela TV espetáculo.

   Quando a minha avó morreu em 2011 escrevi um texto (que depois colocarei no final) sobre a importância do luto, e, do silêncio durante esta dor.
Outras vezes já escrevi aqui sobre como é importante não se banalizar a morte, isso implica em sacralizá-la. Todos conhecem, leram o livro ou viram o filme Jogos Vorazes, na qual a morte de jovens é banalizada durante um “show” macabro de TV. Então, em uma cena comovente, a protagonista para de jogar para cobrir sua pequena amiga de flores e prestar as devidas homenagens. Algo que passara despercebido há tantos jogos se tornara visível agora: havia um ser humano ali, uma menina de 11 anos, uma família sentindo sua perda, uma amiga sentido dor.
Durante uma imagem chocante vimos pela TV um corpo sendo carregado em carrinho de mão num morro do Rio, em outra vez nos chocamos com a dona de casa que foi morta e teve seu corpo arrastado pelo veículo de policiais. São banalizações do sagrado. Não era um corpo, era “um” alguém, respeitar este alguém é respeitar o ser humano.
Respeitar a morte do ser humano e a dor de seus familiares é respeitar a vida destes últimos e a memória de vida do primeiro.
Por tudo isso eu fiquei chocada com o que a direita e seus meios de comunicação transformaram a morte de Eduardo Campos, levando na avalanche até mesmo seus familiares. Não era momento para espetáculo, era momento sagrado que foi banalizado, e, a foto que me inspirou para este texto, foi uma da Marina em cima do caixão, com os cotovelos, como se estivesse na mesa da cozinha de um domingo qualquer. Lógico, esta foto que circulou pela rede não foi mostrada pela TV espetáculo, que também não mostrou o carinho que os filhos de Eduardo trataram o Lula.
A TV espetáculo escolhe as imagens que interessam, aquelas que favorecerão as elites que querem voltar ao poder.
Os meios de comunicação das elites estão divulgando que a Marina pode tirar votos da Dilma, uma lógica que não entendo, pois quem estava em segundo nas pesquisas depois da Dilma era o Aécio. Além disso, a Marina sempre se mostrou indignada do PSB de SP estar com o PSDB, isso foi algo que ela nunca engoliu. Tudo isso porque o PSB do nordeste sempre fechou em projetos políticos com o PT, mas o PSB de SP não. E PT nunca fechou em projetos políticos com o PSDB que é neoliberal, aliás, vamos lembrar que se continuasse com este projeto não teríamos diminuído a mortalidade infantil três anos antes da meta da ONU, e, nem diminuído a pobreza em 50% no país. Como economista Eduardo Campos sabia disso, por isso fechava com PT diversas vezes, e, não só porque seu avô foi amigo de Lula.
Não quis parar muito nos jornais para acompanhar esta morte, chocante até por ser a de um pai novo de família morto num triste acidente, onde outras pessoas também morreram. Contundo, o pouco que fiz isso foi o bastante para me chocar em como a TV espetáculo manipula, banaliza o sagrado, trabalha com as dores, para tentar colocar seus grupos – que já estiveram no poder por mais de 500 anos até 2003 – de volta. Usando, inclusive, alguém que fechava ideologicamente com o PT, adversário desta TV espetáculo, para ser usado contra. Usando a banalização da morte de um ser humano, por interesses de uma elite – historicamente – mesquinha, que se acostumou, desde a ditadura, a manipular fatos, informações, distorcer realidades.
Quando penso que não me chocarei com mais nenhuma ação desta mídia podre, ela é capaz de me surpreender. O mínimo – que significa respeitar a morte, para respeitar a vida – parece que a mídia fez questão de esquecer.

Camila Tenório Cunha, 18/08/2014.

P.S.: Texto escrito em 2011, na ocasião da morte de minha avó  paterna O luto na Vida atual: o adeus ao silêncio.

P.S.: (2) Vi algumas fotos hoje na rede (18/08 à tarde) que não podemos negar: por elas a Marina realmente fez política e desrespeitou o sagrado, o momento de luto.

Esta imagem me chocou, pois parecia que não havia um caixão ali, apenas uma mesa da cozinha numa manhã de domingo... Não quero julgar, talvez ela estivesse cansada, mas este cansoço se deve a tudo que a TV espetáculo produziu...

Esta imagem me chocou, pois parecia que não havia um caixão ali, apenas uma mesa da cozinha numa manhã de domingo… Não quero julgar, talvez ela estivesse cansada, mas este cansaço se deve a tudo que a TV espetáculo produziu…

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1 comentário

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Uma resposta para “A banalização da morte pela TV espetáculo.

  1. Ana iPad

    Muito boa sua reflexão, Camilinha. Adorei o texto. Grande abraço, Ana

    Enviada do meu iPad

    >

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