O que está havendo com as pessoas?

O que está havendo com as pessoas? Quando agredir quase se tornou um “direito”, e o agredido precisa suportar a agressão, seja verbal, seja física? O que está ocorrendo que as pessoas estão cruéis, insensíveis, sem medo de machucar e sem noção de que o mundo virtual possa trazer consequências ao real?

Quem não se lembra da mãe que foi morta no Guarujá por uma imagem já antiga que surgiu no virtual, começaram a postar que era ela e antes que ela passasse por um julgamento, investigação, foi linchada? E motivos banais para agredir, como o rapaz que cegou o senhor por uma briga de garagem? Que o senhor tivesse se aproximado com um pau e ele se defendesse tudo bem, mas após o senhor estar caído ele começou a agredi-lo sem parar, com toda fúria, força.

Que direito temos de bater em alguém mais fraco e caído com tanta fúria e força? O que traz tanta fúria aos corações das pessoas? Que tempos são estes? Quais as diferenças evolutivas apresentamos daqueles seres humanos que há 2014 atrás gritaram contra Cristo, enquanto Ele carregava uma cruz e uma coroa de espinhos,  por que discordou do grupo com poder hegemônico?

Numa angústia com o poder que a propaganda havia tido na sociedade alemã pré holocausto, Adorno e outros pensadores, se preocuparam com o poder que a televisão poderia apresentar socialmente. Refletiram sobre o poder nefasto de fazer odiar e o quanto seria preciso uma educação crítica, aberta às leituras diversas, aberta ao respeito –  sobretudo ao respeito – entre seres humanos. Uma educação que ajudasse a evitar um cenário semelhante ao do holocausto e que direito humano básico sempre fosse preocupação central. Rubem Alves sempre se preocupou em educar para a compaixão, a solidariedade mínima e este foi o cerne de diversos de seus textos aos educadores e pais.

No final destas eleições, no dia exato em que a Dilma ganhou, horas depois dos resultados, vi uma figura no feed de notícias do meu facebook que profundamente me ofendeu, pois trazia a palavra desgraça e uma bandeira do PT, o partido que tirou o Brasil do mapa da fome, reduziu a mortalidade infantil anos antes da meta da ONU, enfim, que votei. Mas não coloquei nenhuma resposta pessoal, apenas dois textos que analisavam o que o PT fez, um era uma entrevista com um professor federal e outro era uma comparação feita por Leonardo Boff em seu blog. Bastou isso para ouvir que eu estava “emporcalhando” a página da pessoa. Depois de falar que não achava nada demais em colocar dois artigos e mesmo assim não ser compreendida, resolvi pedir desculpas por ter postado os textos, afinal, não imaginei que causaria tanto desagravo, e,  a pessoa pareceu aceitar. Mas então entrou na conversa alguém que pediu para eu ir lavar louça e o filho desta pessoa, um ex aluno, continuou a “briga”.

Tentei me explicar diversas vezes, falar que era só um texto, mesmo assim fui chamada de alienada, etc. Também disse que eu não deveria ter colocado uma oração pedindo a Deus que não deixasse o Aécio ganhar. Verdade, coloquei no meu mural pessoal  isso e não imaginei que uma prece pessoal – num mural pessoal – pudesse ofender tanto alguém. Deste modo, pensei, se ele não é um ‘amigo’ que vai aceitar o que eu coloco – como textos, ou, prece pessoal – no meu mural, vou excluir, porque amigos nos aceitam como somos, pensamos e sentimos, sem se ofender. Ainda mais porque mesmo ofendida em nenhum momento ofendi, mesmo sendo adjetivada de porca (aquela que emporcalha), em nenhum momento repeti a atitude. Simplesmente exclui quando percebi que não havia condições de diálogo, aceitar ser adjetivada negativamente, como alguém que “emporcalha” ou traz desgraça, eu não aceito, trocar idéias sobre fatos, dados, análises, é sempre bom. Pois então, outras pessoas vieram postar para mim o fato deste meu ex aluno estar falando mal de mim numa página pública, estas pessoas copiaram e colocaram para mim que ele estava falando que eu era “vagabunda” com letras maiúsculas.

Mesmo fazendo isso ele veio falar na minha página sem compreender o motivo de tê-lo excluído, o que me choca é que para ele ser adjetivada negativamente é algo que eu tenha que agüentar, como se isso fosse natural, como se fosse o certo. Ele agride e eu aceito, simples assim.  Coloquei que não achava certo adjetivar as pessoas, menos ainda de vagabunda e a última expressão que li dele antes dele me bloquear foi alienada. Sempre trabalhei muito, para falar a verdade desde criança porque ajudava nas tarefas em casa, não achei certo ser chamada de vagabunda, sem falar que o sentido da palavra alienada, aquele que Marilene Chauí define bem, acho que não se aplica ao meu caso: não perceber as lutas de classes e defender os discursos das elites dominantes. a imagem borrada

Então, porém o que me espanta é que esta atitude dele – agressiva – não é uma atitude isolada, sabemos do jovem americano que bateu num idoso porque usava uma camisa rosa, todas estas atitudes são as mesmas atitudes do direito a agredir que as pessoas se dão.

Este ano entrei numa locadora na Mantiqueira, aqui em São João da Boa Vista, e o dono começou a imitar minha voz que é diferente, fina, tentei insistir em conversar sobre o que queria, ver se ele parava, mas ele respondeu em falsete, ainda imitando minha voz, que eu mesma também não gosto, é infantil. Um defeito sem correção, já fui a diversos otorrinos e não há o que fazer. Minha corda vocal tem o tamanho da linha de um risco de canetinha. Então, disse baixo para ele: “Você acabou de perder uma cliente.” Em vez de pedir desculpas ele se ofendeu porque eu não queria ser agredida e enquanto estava no carro o ouvi gritar: “Sua ignorante, sua ignorante”.

Minha filha estava num ensaio de coral que se estendeu duas horas além do horário de terminar, estava no carro com minha mãe doente, incomodada de ficar sentada sendo que estava fazendo radioterapia bem na bacia. Fui explicar ao maestro e pedir que liberasse minha filha. Ele se ofendeu e começou a gritar. Naquele momento não consegui reagir, apenas explicar que não podíamos esperar mais, minha mãe estava com dor no carro, então ele gritou que minha filha não precisava voltar mais. O que há com as pessoas? Estas poucas coisas foram este ano, teria outras para contar de outros anos, como um vizinho que jogava rojão no quintal quando minha cachorra latia, também aqui em São João, pedras lançadas em casa quando em 2010 colocamos uma faixa da Dilma…

Todas estas agressões as pessoas se acharam no direito de agredir e muitas vezes sem entendermos os motivos, pois democracia pressupõe que alguns votem na Dilma, outros no Aécio, outros na Luciana Genro, etc. Por que o  ódio com quem pensa diferente? Por que o ódio ao diálogo, às leituras diversas, às trocas?

Vivi tempos que tive muitas amigas malufistas em São José dos Campos, conversávamos, trocávamos, mas não havia ódio. Parece que agora qualquer motivo é motivo para odiar, agredir verbalmente ou fisicamente.

Olhando até superficialmente as várias religiões: todas pregaram o amor, a tolerância, a fraternidade, a convivência. Alguns não souberam interpretar seus líderes e fizeram (e fazem) as guerras religiosas, todavia, se formos a fundo, em todas encontraremos lições sobre tolerância e amor. Porque só encontramos a felicidade quando estamos em paz, amamos e amar não implica amar ao igual, mas amar é algo quente no peito que nos faz amar o diferente também. Amar, ponto, sem distinção, desde uma flor que nasceu inesperada no jardim, até as demais plantadas, desde os pássaros que passam por ele, até nosso animal de estimação que mora nele. Amar nos deixa mais humanos, tolerantes com o barulhinho de crianças brincando, um cachorro que late em um momento do dia, com alguém que pensa e acredita de forma mais ingênua nas mídias.

Mas ser tolerante, amar, ter esperanças no outro, não significa que devemos agüentar sermos agredidos, pois ninguém nasceu para ser agredido.

Todavia, estamos com uma mídia tão preocupada em distorcer os fatos, em não mostrar as coisas boas que o governo fez – apenas os erros – e que focou tanto nisso que incitou o ódio. Um ódio que as pessoas absorveram e agora estão tentando colocar para fora, em seus semelhantes, irmãos, pensando que eles são inimigos apenas porque não seguiram a crença – ou o voto? – fabricada por estas mídias. Parece que é isso mesmo que as mídias querem, e eu me pergunto: até quando isso ocorrerá? O debate para regularizar a mídia parece um debate importante para que as incitações aos ódios parem, é preciso recuperar o amor na sociedade, pois só assim recuperamos nossa capacidade de sermos cidadãos numa democracia, qualquer outro caminho nos afasta tanto da democracia, quanto da nossa humanidade-cidadania.

Camila Tenório Cunha 01/11/2014

P.S.: Fora isso, será que não está na hora de sair desta cidade?

P.S.2: Achei esta reportagem estes dias, realmente assustadora, beira o fascismo, como todo ódio: http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/159157/Carro-com-fam%C3%ADlia-dentro-%C3%A9-atacado-apenas-por-ter-adesivo-de-Dilma.htm

não confuda discurso de ódio com liberdade de expressãoamor acima de tudo.luther king

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5 Comentários

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5 Respostas para “O que está havendo com as pessoas?

  1. jayr soares da silva.

    Parabéns Camila. Voce demonstrou maturidade aliada a afetividade. ´
    E disso que estamos precisando mais.

  2. bom Camila, vc expressou bem o sentimento que está no consciente coletivo. Temos que, agora, que ter que cautela, pois o debate da elite já não é mais DilmaXAécio, pois declaram, em SP, o qto não querem o Alckmin (veja a jogo!), o que está em pauta é esquerda vencida pela direita (o que p/ eles só é possível com o golpe militar). Para isso contam com a classe média alienada que se percebe igual ao grande empresário e pensa que unidos mudarão o Brasil a fovor da classe deles (sendo que a classe média nem da msma classe dominante, mas acha que é)

    • profacamilatc

      Pois é, Hélio. Alienação é isso, defender os interesses de uma classe que domina e que muitas vezes nem pertence… Por isso até quando nosso ex aluno me chamou de “alienada”. Mas o “vagabunda” doeu, foi muito agressivo.

  3. Ana Consuelo

    Muito pertinente seus questionamentos. Quanto à última questão (PS), desculpe-me pela desesperança, mas não sei onde encontraríamos menos violência, ela está dentro das pessoas. E voltamos a sua questão inicial….

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