Brincadeiras, muita seriedade para falar delas:

Há muitos anos sou educadora, na verdade, desde que entrei na Faculdade de Educação Física da Unicamp e fui trabalhar com turminhas de natação, já me sentia educadora. Deste modo, meu universo foi sempre o de conviver com educadores e não tem educador nos dias de hoje que não saiba a importância do brincar.

Então, quando admirava um parque infantil bem construído, de madeira, muito inteligente e expressei que se estivesse de roupa apropriada iria lá brincar (estava de vestido), um amigo publicitário que estava perto disse: “Nossa, você ainda curte isso de brincar?”.

Pois é,  eu me esqueci completamente que se as pessoas não são educadoras  não entendem como o brincar é fundamental para a saúde mental humana.

Todo educador deve ter lido em algum momento de sua formação o livro “História Social da Criança e da Família”, de Philippe Ariès, onde aprendemos o quanto a humanidade sempre brincou, em boa parte de sua longa história e que a ruptura entre brincadeira e esporte veio apenas na sociedade com hegemonia burguesa.

Temos na página 124, da segunda edição do livro citado:

Partimos de um estado social em que os mesmos jogos e brincadeiras eram comuns a todas as idades e todas as classes sociais. O fenômeno que se deve sublinhar é o abandono desses jogos pelos adultos das classes sociais superiores, e, simultaneamente, sua sobrevivência entre o povo e as crianças dessas classes dominantes. É verdade que na Inglaterra os fidalgos não abandonaram, como na França, os velhos jogos, mas transformaram-nos, e foi sob formas modernas e irreconhecíveis que estes jogos foram adotados pela burguesia e pelo “esporte” do século XIX.” (grifo meu)

Durante muito tempo, adultos e crianças, brincavam juntos em suas horas de lazer, então o brincar se transformou em algo de criança e o esporte de adulto. Muitos adultos passaram a vida sem chance de praticarem esporte, conhecerem de fato, pois infelizmente minha área possui profissionais que preferem lecionar daquele modo que apenas os que já sabem jogam. Dá muito trabalho explicar que nas aulas todos devem ter a chance de vivenciar. Vejo a história dos meus alunos que chegam ao Ensino Médio e dizem: “Não sei jogar vôlei, professora, eu ficava sentado enquanto os que sabiam jogavam”. E então tenho que ensinar para alunos de 15 anos o que ensinava para alunos do quinto ano.

Deste modo, tudo piora quando as pessoas acham que ser adulto é ser sério, é não brincar mais. Pense que muitos não possuem a chance nas aulas de aprenderem o brincar permitido pelos adultos: esportes e atividades físicas como danças, lutas… Depois começam a trabalhar, trabalhar e a vida ganha toda esta seriedade que o ganha pão possui. Toda esta competitividade triste.

O lazer passa a ser guiado por uma tela onde não há muita preocupação sensível de seus empresários.

Muitas pessoas assim acabam precisando tomar remédios. Quando fiz estágio com minha querida professora Silvana Venâncio  – e seu projeto com as pessoas internadas na psiquiatria da Unicamp – nossa preocupação era resgatar o lúdico e brincar com aquelas pessoas.

Resgatar o lúdico, a brincadeira, o jogo, era parte importante de resgatar a sanidade mental delas.

Todavia, eu pergunto: por que deixamos boa parte das pessoas amadurecerem enlouquecidas de trabalho, seriedade, pouco riso e pouco jogo?

Como educadores temos a obrigação de ensinar o jogo, o riso, o leve, antes que nossos alunos no futuro se desgastem tentando ser sérios, esquecidos do quanto é importante a brincadeira para a sanidade mental.

29/10/2015

Camila Tenório Cunha, licenciada pela Educação Física da Unicamp entre 1992/1995 e mestre em educação pela Unicamp em janeiro de 2005. 29/10/2015

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