“A vida é tão rara.”

Ainda por estes dias ouvi esta música “Paciência” que gosto há muito tempo: a voz suave de Lenine nos traz uma profunda verdade. Verdade de a vida é tão rara porque cada vida é uma, é única, com sua história, sua alegria, dor, poesia.

Este ano que passou muitas pessoas admiráveis foram embora, algumas famosas por seus escritos que eu adorava, vozes, talentos como artistas, poetas, na filosofia, e, também, outros, bem pouco conhecidos eram raros nos corações de quem viveu ao lado, trabalhando num emprego comum, acordando numa casa desconhecida. Mas mesmo desconhecido era alguém raro, como toda vida.

Defender as metas do milênio da ONU, que fala sobre os direitos humanos fundamentais, como redução da extrema pobreza, a paz entre os povos,  é defender que cada vida é tão rara.

Minha mãe partiu este ano e embora eu já soubesse que a vida dela era tão rara, os ex alunos dela postaram coisas lindas no Facebook, o quanto ela em sua profissão de professora de história transformou aquelas vidas. Além de ser rara porque foi minha mãe, foi rara porque sempre trabalhou com amor, fazendo da sua profissão tão desvalorizada por governos com políticas públicas neoliberais, como as do PSDB, algo raro.

Ainda na última semana de dezembro de 2015, no nosso cotidiano um jovem colega também morreu, disseram que infartou e tudo ainda seria investigado. Como ele era do administrativo da escola e sou uma professora de Educação Física sem espaço na escola, que trabalha em espaços emprestados da cidade, convivi pouco com ele. Mas o fato de ser jovem, nos chocou muito, pois uma vida rara que com certeza deixou pais tristes, sem estes sonhos que como pais todos nós  temos:  de ver os filhos amadurecerem. Todos os pais preferem morrer antes dos filhos, quando a ordem se inverte a dor é profundamente grande e fiquei triste pensando nestes pais. Uma vida rara que foi embora cedo, em plena juventude.

Nunca tinha visto partir colegas de trabalho, em tantos anos de profissão. Contudo, pude me lembrar de que durante o ensino médio (que na época se chamava colegial) vi partir vários colegas de escola, na época sofria por ver os colegas partirem tão cedo, com tantos sonhos, todavia, por ser novinha, ainda não me colocava no lugar dos pais, como fiz agora que um colega jovem partiu.

A vida tão rara sempre, ainda não se fazia visível para mim com olhos de mãe, que agora transfere toda dor de um jovem que parte, em sua própria dor. Perguntei para uma colega: como assim infartou? E ela me respondeu: “Ninguém sabe ainda o motivo direito, o corpo vai chegar para ser analisado.”

E este diálogo me trouxe pesadelos de que deveria ir ao necrotério reconhecer um corpo (de um amigo bem próximo).

Porque corpos não são corpos: são depositários de vidas tão raras.

Quando as vidas tão raras partem, queremos acreditar que para um lugar melhor,  dói. Mesmo para quem tem fé: dói.

Meu pai, ateu, disse estes dias, pouco antes que eu soubesse da morte de meu colega jovem, que gostaria de ter fé e acreditar que tudo continua. Disse que isso era um imenso consolo e que embora ele não acreditasse, ele gostaria muito de acreditar. Meu pai também é uma vida muito rara: um médico humanista, que escuta seus pacientes e é sempre muito querido por eles, sem se importar com dinheiro. Raro entre os médicos.

As vidas são raras e sagradas, por  isso devemos começar 2016 querendo um mundo onde isso seja fundamentalmente compreendido, que toda forma de violência seja combatida. Devemos vibrar as palavras paz em cada minuto que qualquer forma de violência lhe vier à mente.

Lutar contra ódios insanos, adjetivos que nos remetem para eles, preconceitos e desrespeito com toda forma de vida, sempre uma raridade. Digo isso porque estamos num mundo onde crueldades contra animais também são constantes…

Por isso admiro um amigo que não mata sequer uma formiga e outro dia me contou uma linda história sobre uma borboleta que ele acompanhou desde o casulo, porém que sairia num dia de chuva, tempestade, deste casulo. Então, ele conseguiu resgatá-la e levá-la para um lugar seco, onde ela saiu do casulo e borboleteou pelo mundo com sua pequena vida de rara beleza.

Que venha 2016 com menos partidas, mais resgastes em tempestades,  e, muito mais chegadas: de equilíbrio, justiça social, tranquilidade e abraços.

1/01/2016

Camila Tenório Cunha

Lenine

Uma borboleta nascendo, embora não seja como a descria por meu amigo, que outra descreverei melhor aqui…

P.S.: E por falar em vida tão rara recebi este vídeo deste amigo que cito acima e ele só escreveu a única pergunta que nos cabe ao ver o vídeo: até quando? Até quando? Pergunta recebida junto com este vídeo, depois que escrevi este texto, mas tem haver com o fato de que devemos lutar pelas vidas, pelos direitos humanos, por um mundo melhor, mais do que tudo.

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