Ser mulher: política e solidão.

 

A semana começou com uma relativa esperança na vida, quando escrevi sobre o que vi na Juventude Garantia de Luta, no final de semana. Contudo, na segunda-feira na fila do banco havia uma senhora que se comportava como a Janaína Paschoal, e, dizia em seu ódio, aos berros, entre outras coisas que Dilma era uma mulher macho. Quando questionei baixo ao funcionário que me passou a senha para entrar no banco sobre a onda de ódio, ela berrou que eu que fosse fazer amor, pois ela queria guerra.

Este tipo de insulto que tem se alternado contra a presidenta: vagabunda ou sapatão. Homens, mulheres machistas, nem leiam este texto, vocês não entenderão, salvo os poucos e raros sensíveis.

Este mesmo tipo de insulto tem se alternado na minha vida, sendo que não sou vagabunda, sempre de boa aluna a trabalhadora, que só se relaciona com quem ama e sempre senti atração por homens. Mas tenho ouvido também, ao longo da vida, estes dois tipos de adjetivos. Na juventude não ficava triste, pois sabia bem que não era nem uma coisa e nem outra. Agora estou começando a cansar, afinal, são 43 anos deste tipo de agressão.

Na terça-feira tive seis aulas, nas primeiras fiquei arrasada quando uma aula em que eu debateria mídias com terceiros anos escapou do assunto, e, os alunos, inclusive uma aluna negra, defenderam a fala racista do Bolsonaro contra cotas. Nas últimas aulas do mesmo dia um aluno desabafou, novamente num momento ímpar de aula, sobre o fato de só ter sobrevivido graças ao PT. Já que sua mãe apanhava do pai/marido, foi abandonada por ele, como era faxineira mas precisou operar a mão,  se não fosse o bolsa família teriam passado fome. Ele mesmo disse que o atual governo que querem tirar “defende os pobres”. Este depoimento deu um equilíbrio ao dia que começara mal.

Ontem, quinta,  foi um dia com muitos acontecimentos e pretendo voltar nele depois.

O fato é que quero discorrer aqui sobre a condição de ser mulher numa sociedade com a mentalidade da masculinidade hegemônica.

Meus pais se separaram quando eu ainda era pequena e vi minha mãe lutar lecionando em várias escolas, e, ao mesmo tempo, tendo sido chamada de prostituta diversas vezes numa cidade – São José dos Campos – do interior de SP há trinta anos atrás. Com isso matou sua vida afetiva, não teve coragem de buscar se relacionar novamente, parou de se preocupar em se vestir bem para ver se sofria menos preconceito, não buscava ter nenhuma forma de lazer. Morreu de câncer, sofrendo muito.

Quando eu era jovem durante da graduação na Unicamp tive um único namorado e foi com ele que tive meu primeiro namoro mais íntimo. Era apaixonada por ele. Deste namoro tive minha filha, mas ele não estava preparado para ser pai e tive uma gravidez solitária.

Como aparentava ser adolescente, apesar de já ter 22 anos, sofri maus tratos de todas as enfermeiras no pré-natal. Elas me tratavam com raiva, pré-julgando, grossas. Uma vez em SJC quando estava na casa da minha mãe, depois de ser assaltada pela segunda vez grávida, fui super maltratada em um hospital particular em SJC e quando minha mãe quis entrar junto a enfermeira disse para ela: “Você é avó, não pode, só se fosse o marido, se ela não tem, azar”. Minha mãe queria, depois disso, que eu usasse uma aliança, mas detesto qualquer forma de mentira e me recusei a isso. Até as enfermeiras da rotina de pré-natal na Unicamp todo mês me tratavam mal.

  Tentei fazer aqueles cursos para me preparar para parto, todavia um exigia a presença do pai e o Ayrton não quis ir, tentei várias vezes. Ele me culpava pela gravidez, sendo que tudo acontecera num dia em que havíamos brigado, eu havia terminado com ele. No momento de reconciliação chovia e ele se recusou a ir buscar camisinha, um dia em que faltava dois dias para eu entrar em período fértil, porém algo deve ter dado “errado” (vale lembrar que minha filha deu muito certo, o que deu errado foi a tabelinha).  Apesar de ter sido algo muito bem compartilhado a “culpa” era apenas minha agora.

  Outro curso para parto, em que poderia fazer sozinha,  eu teria que chegar meia hora  atrasada numa aula e minha professora não permitiu.

  Consequência: durante o parto fiquei nervosa e precisou ser cesárea. Tive uma reação alérgica, pois alguma coisa da cesárea me fez ter convulsão e quase morri. Depois tive uma hemorragia por três meses, mas não fui procurar mais médico. Estava traumatizada deles, fiquei assim por um tempo.

A gravidez com enfermeiras grossas e olhares de pré-julgamento foi apenas uma amostra grátis do que sofreria com minha filha, sendo mãe sozinha, ao longo da vida.

Sofri coisas horríveis, desde agressões do serviço de saúde até agressões em trabalho.

Todavia, tudo piorou ao vir morar numa cidade menor ainda, São João da Boa Vista. Tive um vizinho que jogava rojão e morteiro no quintal toda vez que minha cachorra latia. Na delegacia da mulher me aconselharam a me mudar, isso em 2010. Mesmo com um financiamento de 30 anos me mudei para uma casa própria em 2011, depois de um ano terrível.

Minha filha ouviu na escola coisas assim: “Mas você sabe quem é seu pai?”. E sofreu o que não estava acostumada a sofrer, já que estudou em São José dos Campos numa escola salesiana e sempre recebeu muito carinho lá.

Tento sair daqui desde 2012, desde final de 2014 quero ir para Brasília onde já fui aceita para ser redistribuída num Instituto Federal de lá, porém a burocracia tem me prendido aqui. Lá, este ano, também fui aceita num grupo de estudos da UNB, já que desde que defendi dissertação na Unicamp em 2005  quero voltar a estudar. Mas já tive várias faltas neste grupo porque a burocracia não se desenrola e vou ficando aqui, sofrendo agressões, alternando entre ser chamada de vagabunda ou sapatão.

Não tentei namorar faz tempo, os homens, quando sabem que estamos sozinhas há tempos, pensam que queremos casar quando começa a aumentar a intimidade. Não percebem que como professora federal, RSC III, nível IV, ganho bem, não preciso me casar. Entretanto, sinto falta de ser amada, ter um companheiro para conversar, abraçar e ao contrário do que dizem os maldosos, a maior falta não é de sexo, mas de afeto, cumplicidade.

Sinto falta de receber flores, poesia, abraço.

Este ano até algo inédito ocorreu: ganhei um ex amigo. Já tinha tido ex namorado, mas ex amigo foi a primeira vez. Nem amigo, por achar que estava apaixonada (e até estive), quis ser mais.

Que idiotas estes homens: acham que por estarmos sozinhas precisamos tanto deles assim, pensam que queremos um marido e não um companheiro, no sentido amplo da palavra.

Não sabem que precisamos nos sentir conquistadas, amadas, sermos cortejadas de um modo muito mais especial.

Quando eles dizem que só querem amizade: já nos perderam e mataram toda chance de romance.

Também vi outro debate esta semana. Mulheres falando que chamar a Janaína Paschoal de louca era machismo. Não acho que a Janaína Paschoal deixou de ser louca, foi louca sim. Assim como não me canso de chamar de loucos Silas Malafaia, Bolsonaro, pois todos estes não querem direitos humanos e caminham na contramão deles. Não há nada de machismo em falar que ela é louca, porque acho que muitos homens são loucos também. Todos estes do ódio são loucos. Todos que querem o retrocesso são loucos.

Sendo assim crítica e exigente fico sozinha, mas é uma opção que não me torna sapatão. Mas foi esta a última agressão que vivi.

Só que só consegui escrever hoje, só consegui reagir depois de acordar de um pesadelo à noite e achar que teria que acordar e escrever.

No sonho minha mãe está arrumando uma mala pequena de viagem e me diz: “Estou indo na frente, mas estou esperando você, logo você vem”. Depois a abraço feliz por saber disso: que bom, logo partirei também.

Acordei e resolvi escrever sobre o que houve ontem em aula, no começo dela, e não fiz nada porque estou cansada de aulas que fogem do tema e principalmente, de ser agredida e pré-julgada.

Um aluno disse: “Professora, fulana veio de short curto e ficou preocupada que você fosse olhar para as pernas dela.” Ou seja, deu a entender que sou sapatão, mas em vez de debater e falar um monte em aula, simplesmente chocada demais, não reagi e preferi continuar a aula, conforme havia planejado. Disse apenas: outras meninas estão também, está muito calor. Em outros tempos menos sombrios até falaria, inclusive, como acho que num ambiente escolar devemos vestir algo mais apropriado para ele. Ensinaria que existe uma roupa para cada ambiente, mas nem isso. Estava chocada demais.

Chocada e cansada, estes são os sentimentos de uma redistribuição que não sai logo e o sonho indica isso.

Agora só queria partir também, ser sempre adjetivada entre vagabunda e sapatão cansa.

Não sei como a Dilma aguenta. Acho que o fato do ex dela ainda ser amigo, ter dois netos, e, sobretudo, já ter passado até por tortura a faz mais forte do que eu.

A minha sensação atual é a mesma de quando nadava e estava no final das maratonas aquáticas: exaustão. Só que estou exausta da vida agora.

Estou cansada e querendo partir, como meu sonho indicou.

Camila Tenório Cunha

08/04/2016

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