Porque a luta dos estudantes é a luta por um Brasil melhor:

Não está sendo fácil esta luta.” A aluna Che, 17, da escola Gisno, falou na TV Senado: “Acham que estamos brincando, estamos dormindo no chão frio quando poderíamos estar na nossa casa?” E fez outras denúncias sobre as ameaças de grupos contrários às ocupações.

Sabemos que alguns grupos são financiados pela MBL, numa noite estes alunos do Gisno receberam tantas ameaças dos grupos fascistas que vários educadores e companheiros que acreditam na luta dos alunos foram fazer vigia lá. Eu estava lá na porta também, nós adultos que lutamos contra a PEC 55 e apoiamos a luta dos estudantes algumas vezes temos feito vigia do lado de fora, para protegê-los do lado de dentro, principalmente desde que ocorreram incidentes mais graves com os grupos fascistas.

 Passei a noite em claro, apesar de adorar dormir. Vimos um carro com grande aparelhagem de som ficar gravando nossa conversa. Fomos perguntar e disse que era para uma pesquisa antropológica. Conhecendo antropólogos diversos, inclusive alguns estavam em nosso grupo de apoio aos alunos, não acreditamos.

Todavia, ele tinha o direito de estar lá, assim como nós. Mesmo, com certeza, estando em lados opostos, ambos tínhamos este direito. Apenas assustava saber que estávamos em lado oposto e estávamos sendo gravados.  O que as pessoas não compreendem é que a luta dos estudantes é a luta por um Brasil melhor. Quando eles lutam por educação de qualidade, contra esta MP que nos foi colocada goela abaixo (um debate democrático sobre melhoria do ensino médio até estava sendo feito), contra a pec-da-morte, PEC 55, lutam por um Brasil mais justo (que até vinha se construindo).

Venho dizer mais de uma vez, estou no trabalho de educadora com classes populares há vinte anos. Ainda no começo deste ano e final do ano passado ouvi histórias de alunos no IFSP, campus São João da Boa Vista, uma rica cidade no interior de SP, que só não passaram fome porque recebiam o bolsa família. Como um aluno estudaria tanto quanto o IF exige sem precisar trabalhar e com mais seis irmãos, mãe doente, pai que abandonou o lar, sem bolsa família, sem assistência estudantil? Eu me lembro de ter ido levar ajuda – pessoalmente e quieta – para alguns alunos do Programa Curumim no final dos anos 90, ainda com FHC. Aquela época a política social não funcionava, a inflação crescia, tínhamos 32 milhões de miseráveis no país.

Muitos me dizem: “Apenas números, Camila”. Como educadora vi que não são apenas números, vi vidas se transformando, vi alunos que de outra forma não teriam chance de receber uma graduação, só com o PROUNI, o FIES ou a assistência estudantil  conseguiram.

Quando fui trabalhar no IF (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) vi vidas se transformando, alunos entrando pelo ENEM em universidades públicas de renome porque receberam um bom ensino médio(EM). Um EM que a imprensa e o governo golpista não dizem, mas que ficou na frente em notas do  ENEM. No IFG, por exemplo, de dez escolas nos primeiros lugares do ENEM, oito eram do IFG e IF Goiânio.

Por que dá certo? Porque paga bem seus professores com chance para que eles sejam dedicação exclusiva, preparem aulas, tenham recursos, façam mestrado, doutorado. Porque eles, estudantes, recebem uniformes, livros, assistência estudantil. E as disciplinas retiradas pelo novo governo estão lá? Sim, e, espero que não saiam porque todas auxiliam na formação de um ser humano melhor.

Rubem Alves desde a faculdade é meu escritor favorito e num texto ele diz que o mesmo conhecimento pode produzir armas nucleares ou curar o câncer, queremos que tipo de Brasil? Que tipo de seres humanos queremos nele? Um que só pense em seu próprio bolso e interesses individualistas ou um que pense no coletivo, com interesses humanistas, sociais, sustentáveis?

Quando os estudantes brigam contra a PEc 55, brigam por todos nós que queremos um Brasil onde todos tenham acesso aos serviços públicos de qualidade, e, isso significa melhor qualidade de vida. Quando eles brigam contra a MP-da-goela-abaixo, brigam por educação de qualidade, que forma melhores cidadãos, portanto, mais uma vez, brigam por nós.

Por um país onde as pessoas não pensem apenas em seu próprio umbigo, sua vidinha cômoda, seu bolso, mas um lugar com pessoas com visão coletiva, humana e sensível, com espaço democrático para serem assim.

Espaço sem fome, com conhecimento, sem miséria. Prefiro ajudar na luta dos estudantes,  levando alimentos nas ocupações, do que voltar a levar cesta básica para alunos, como já fiz nos idos anos 90.

Prefiro ajudar estes estudantes que sabem brigar, de maneira ordeira, criativa, disciplinada,  para que a justiça social permaneça. Brigam para que as políticas públicas que reduziram a miséria nas últimas décadas permaneçam. Brigam, sem dúvida, por um Brasil melhor. Brigam por nós.

Camila Tenório Cunha, 13/11/2016, professora mestra de um IF.

Abaixo foto com estudantes e a senadora Fátima Bezerra, (PT_RN) em audiência pública sobre a PEC 55 e os rumos da educação:

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