Relato de quem estava na repressão olho do furacão, dia 29/11/2016.

 

Tudo parecia que seria mais uma linda manifestação, embora estivesse preocupada, pois parei o carro na S2 e por onde vim observei o tanto de policiais cercando o congresso, em todos os lados. 

Minha filha estava com pé doendo, havia marcado há tempos uma entrevista com Paulo Pimenta (PT_RS) e viemos de lá, do anexo II. A entrevista foi curta, três minutos, estilo Mídia Ninja, rica também foi a conversa com estudantes das ocupações de Diadema, pioneiros do país, que também estavam lá. 

Havíamos decidido ficar onde a manifestação terminaria, pois:  dor no meu cotovelo, dor nos pés de minha filha. 

Também havia uma meia dúzia de direita. Umas alunas do IFG que fui conversar (e também resolveram ficar ali), disseram que os “direitosos” falaram para eles irem fazer greve em Cuba, brinquei que deveriam ter respondido que em Cuba não precisava disso: pois a educação era pública e de qualidade.

Havia indígenas fazendo ciranda, fomos perto e vimos também companheiras professoras aposentadas que estavam de verde e amarelo, mas não eram do grupo de direita. No começo elas também me confundiram e pensei: “O que o pessoal de direita faz dançando com indígenas?” Minha filha também foi para ciranda.

Então, a manifestação que vinha pela Esplanada chegou, foi lindo! Chegou a batucada dos jovens do Levante Popular da Juventude e após conversar um pouco com companheiras aposentadas, fui perto da batucada. 

Nesta hora por breves momentos vi minha filha filmando de dentro do cordão da batucada. No zap perguntei por alunos e companheiros que tinham ido com ônibus do SINASEFE_DF , eles disseram que estavam perto do espelho d’água. Tentava lentamente chegar lá, era muita gente. 

Nesta hora uma confusão ao lado direito começou, perguntei o que foi e uns disseram: “Viraram um carro”.  Um aluno que estava perto depois me contou que: ” Primeiro bateram muito numa estudante que estava no Espelho D’Água, ela caída e continuaram batendo. Todos que viram esta injustiça se revoltaram e viraram o carro da Record. ” Soube depois, na hora queria ver algo, mas sou baixinha e não conseguia. Um rapaz desconhecido me levantou pela cintura para eu ver. Vi minha filha correndo com seu celular naquela direção. Como contribuidora do Mídia Ninja, quando ela vê a confusão, em vez de correr dela, corre para ela. Fiquei desesperada. 

De repente começaram a chover bombas de gás lacrimogênio, olhos ardem, garganta fecha, e, para todo lado que corria vinham mais bombas. E dentro da dor física ( é pior que spray de pimenta) um desespero por saber que minha filha tem bronquite e aquelas bombas caindo… E não sabia de companheiros:  sindicato, alunos, filha, professoras aposentadas, partido, na hora só conseguia me preocupar com todos, porém não enxergava nenhum. 

Corremos então para meio do gramado, mas não adiantou: mais bombas vieram.

Um segundo de descanso liguei para minha filha, ela me disse que estava filmando na frente. E vieram bombas em mim,  por trás, e, vi cavalos atrás também. 

Paramos perto do carro de som, pedi para minha filha ir, o celular dela não respondeu. Ainda não tinha visto filha, companheiros, jovens, sabia de todos ali, mas não via nada nem ninguém. Pensamos que ali as bombas parariam, mas elas vieram de novo. A presidente da UNE gritou do carro de som: “Comandante, vocês não estão cumprindo acordo, agora estamos todos quietos aqui atrás, parem as bombas”. Mas as bombas não pararam e continuava sem saber de ninguém. Nesta hora parei atrás do carro de som e chorei. 

Chorava desesperada quando vi minha filha, corri para ela e quando peguei nas mãos dela, mais bombas vieram. Corremos, vi um jovem ferido com marcas de bala de borracha e ele gritou:” Corram de costas para desviarmos das bombas.”

Corremos para o meio, olhos ardiam, alguém nos ofereceu vinagre, minha filha começou  a passar mal, caiu no chão. Companheiros professores com camiseta da ANDES com sacola preparada lavou o rosto dela com água e detergente. Ela melhorou em seguida, nisso já estávamos bem longe do congresso, o carro de som tinha ido para lateral, mas as bombas continuavam vindo. 

Corremos de novo, a pausa foi de segundos. 

Nos grupos postaram fotos de pessoas que festejavam no congresso enquanto apanhávamos. Gados empurrados, escravos açoitados, servos massacrados, enquanto nobreza se deliciava. 

Nesta hora vi alunos com camiseta IFB, eram alunos da ocupação da reitoria no IFB Asa Norte. Resolvemos ficar no meio do gramado, juntos. Também vi um companheiro do sinasefe que ficou um pouco perto da gente, depois correu para linha de frente. 

Corríamos, achávamos que as bombas parariam, conversávamos um pouco e logo vinham mais bombas, gás, sempre achávamos que ali era longe o suficiente, mas não era. Víamos de onde estávamos, no meio,  a PM, a cavalaria e alguns que correram para nós,  alunos de ocupações conhecidos, disseram que estavam com cachorros também, de onde estávamos enxergamos apenas cavalos e bombas. 

Um momento fizemos dois trios para correr, por questão de segurança não podemos estar sozinhos nesta hora, se alguém sumir, como sumiu o aluno Bruno Leandro, que foi preso acho que pela polícia federal,  alguém filma, como filmaram. Este jovem, até o presente momento, não tinha sido encontrado. Procuram também por ele  companheiros advogados da democracia, mas não o acharam  em nenhuma delegacia, em nenhum lugar. Consta como desaparecido, a última filmagem foi entrando no carro da PF. 

Não está na hora, mundo, de boicotar economicamente  Brasil, pois aqui vivemos tempos sombrios, até que nossa democracia retorne?

Companheiro de certa idade, acima de sessenta, de grupo espírita e político, defendia estudantes secundaristas e também foi preso e agredido. Este já foi solto e fez relato. 

Paulo Pimenta, PT-RS e outros deputados e senadores do PT também levaram gás lacrimogênio e ao tentar conversar com comandante depois ouviram que a ordem era para atacar sem negociar. 

As bombas, para quem não estava lá, iam perto dos carros, ônibus que trouxeram estudantes, e, antes que um carro pegasse fogo, lá do meio comentamos que jogar bombas perto dos carros era arriscado. Um carro pegou fogo, mas até agora tenho dúvidas se este carro não foi incendiado por bombas que não paravam. Tínhamos segundos de pausa e logo vinham mais bombas. 

Quando carro de som parou perto da Catedral achamos que ali teríamos sossego, que parariam as bombas, mas elas continuaram. Um momento estávamos na beira avenida que vira W3 norte e W 3 sul, alguns jovens que não conhecia  desceram e revoltados tentaram derrubar um poste. Gritamos lá de cima para não fazerem isso, eles obedeceram, fecharam a via mais um pouco e subiram. 

Continuamos levando bombas, numa das correrias um aluno foi segurando  meu cotovelo dolorido (da cassetada que levei protestando contra o jantar  de dois milhões do Temer), não sabia se meus olhos doíam mais ou o cotovelo, mas só nos restava correr porque bombas de gás ardem e doem aos mesmo tempo. 

Estávamos ao lado do Museu Nacional, paramos nesta hora na grama, achando que por termos passado a ponte as bombas parariam, já levávamos bombas há horas, não seria possível que elas nos acuassem mais. 

Sentamos e nesta hora já estava escuro, devia ser em torno de  vinte horas porque aqui em Brasília, nesta época, só fica escuro acima das vinte horas. Respirávamos gás desde umas 17 h 30. 

Ficamos um pouco no meio do gramado conversando, neste momento a pausa foi maior. Umas alunas resolveram usar banheiros químicos, mas não deu tempo, novas bombas. 

Corremos de novo, desespero de novo. 

E a votação da PEC 55 seguia, sabíamos pelo celular, como se mais de cem mil estudantes e trabalhadores não estivessem ali apanhando contra ela. Diziam nos grupos que a TV só mostrava como se fôssemos vândalos. 

Quando chegamos ao lado da Biblioteca nacional tudo pareceu se acalmar de novo. Os alunos do IFB, ocupação, diversos campus ali, resolveram pegar ônibus e ir embora. Fiquei sossegada quando eles tomaram esta decisão, pois algo me dizia que ainda viriam mais bombas. 

Fizeram uma barricada e ainda não tínhamos chegado perto das laterais quando eu e minha filha resolvemos ir para ela. Lá perto, aquecendo no fogo, perto de camelôs, encontramos o jovem Thiago, que tinha sido atropelado ao meu lado por senadores, em protesto naquele jantar de 2 milhões de uns quinze dias atrás; em outro momento a companheira Tati do coletivo Rosas Pela Democracia  e outros companheiros do PCO. Mas meu alívio foi encontrar um aluno da ocupação IFB que estava desaparecido até então. Quando o encontrei já tinha perdido a Tati, depois perdi o Thiago, mas ele e minha filha estavam por perto, e, a maioria dos alunos já tinham ido embora. 

Uns estudantes da federal de Viçosa gritaram para voltarmos, mas não deu tempo, agora estávamos atrás da Biblioteca Nacional e novas bombas vieram, alguns conseguiram subir as escadas da rodoviária, nós ficamos acuados entre parede das paradas de ônibus e as bombas, não dava para se mexer, foi uma sensação de gado chegando ao matadouro. 

Bombas e uma parede: péssima combinação. 

Corremos para a lateral, iria para a S2 e já andaria até o meu carro estacionado perto do anexo 2, naquela esperança que eu estava que a manifestação seria tranquila e terminaria onde estava combinado, em frente ao congresso, deixei ele onde estava previsto para ser o final dela. Assim já estaria perto do carro. 

Contundo, ao descermos para a S2 vimos nas laterais policiais atirando balas de borracha, mirando primeiro para estudantes e trabalhadores em cima da rodoviária. 

Embaixo vinham mais policiais. Ao ver que passavam ônibus comecei a pedir pelo amor de Deus que algum motorista abrisse as portas. Meu aluno passava mal, os policiais apontavam para nós agora. Um ônibus abriu e nos deixou entrar. Ouvimos a bomba pegando no ônibus, a cobradora gritou, o motorista acelerou. 

Rodamos sem saber para onde, percorremos Asa Sul toda, fomos parar de volta em cima da rodoviária. Nisso já passava das 23 horas, Conjunto Nacional estava fechado, ali perto caravanas de estudantes, de vários lugares, descansavam. Parece que por ali não havia bombas. 

Postei no grupo de zap e um companheiro solidário de luta foi nos buscar, me levou para meu carro e aluno para ocupação. 

Zero horas, chegávamos em casa, e,  ainda líamos relatos de companheiros advogados pela democracia que percorriam delegacias atrás do estudante Bruno Leandro, desaparecido. Também soubemos que o estudante de Niterói não estava morto, apenas teve fratura craniana, porém estava bem e vivo. 

Foi um dia triste para a democracia, para os sonhos de uma sociedade melhor, mais justa e igualitária, aqui fica o relato de alguém que sempre lutou e que fica feliz de estar ao lado daqueles que lutam por este sonho. Todavia, fica também um pedido de ajuda internacional, porque estamos em regime de exceção no Brasil. 

Camila Tenório Cunha, mãe, professora mestre de um IF. 

30/11/2016

P.S.: Na página do Mídia Ninja há escritos também e um vídeo da Benedita da Silva, feito por minha filha contribuidora  ninja, que fugia às vezes para confusão enquanto descansávamos na grama, antes de novas bombas:

https://ninja.oximity.com/article/Pol%C3%ADcia-Militar-ataca-estudantes-1

P.S.1: Acabei de receber e ainda não confirmei, uma nota por whatssapp de alguém que esteve em contato com coordenador da FASUBRA e disse que um estudante morreu, pois tinha asma e o gás de pimenta foi fatal. o medo que estava com relação à minha filha.

P.S.2: Parece que aluno Bruno Leandro foi encontrado, recebi por whatssap, esperando confirmação segura de novo. Relato dele nas redes sociais, em áudio e gravação confirma que foi, inclusive, torturado. Tempos sinistros.

P.S.3: Da UNIRIo está desaparecido Seimour Souza, até então.

P.S.4: Jovem do ENEGRECER também está sumido até agora.

P.S.5: Companheira do Rosas disse que conseguiu contato com coordenador da fasubra e o estudante não morreu.

P.S.6: Bruno Leandro realmente foi encontrado, está preso, só não temos confirmação se já foi solto.

P.S.: Bruno Leandro fez relato que sofreu torturas e foi levado com capuz na cabeça sem saber para onde.

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6 Comentários

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6 Respostas para “Relato de quem estava na repressão olho do furacão, dia 29/11/2016.

  1. Não resta alternativa… estamos todos cercados. Qualquer manifestação contra este governo de bandidos terminará assim. Temos de seguir em frente!!!

  2. Excepcional o relato, embora triste. Necessário! Todo apoio a você!

  3. Li arrepiado o seu relato… Sou pai de uma participante da manifestação (aluna da UFMG) e estou sem contato direto com ela desde ontem à noite. Imagina a minha ansiedade…

    • profacamilatc

      Henrique, já achou sua filha? Vi o grupo da UFMG passando perto uma hora, estavam serenos, será que ela apenas não deixou celular sem bateria?

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