Cinema.

Não é que eu preconize o apagamento do racional, mas é preciso que o afeto não seja esvaziado.

Nise da Silveira

O filme sobre Nise da Silveira, “Nise’, é um dos mais bonitos que vi nos últimos tempos. Não se trata de toda obra dela, apenas o início de seu trabalho com Jung e a aplicação prática de seus conceitos.

Embora, deste modo, pareça que descrevi um documentário, não é. Ele traz toda angústia de Nise com o tratamento feito aos doentes mentais da época: choques, lobotomia… A vontade de trabalhar com algo diferente, o acaso, destino, coincidência ou teoria do caos a colocou perto de funcionário da lavanderia que gostava de “belas artes” e se ofereceu para levar o material aos “clientes” de Nise (ela dizia que pacientes precisava  que ser os médicos).

O trabalho com a pintura será o estopim de sua observação junguiana e o alcance de outro tipo de terapia aos doentes mentais com esquizofrenia.

O filme mostra também como, bem  devagar, ela contagia com seu humanismo os enfermeiros que estavam no setor com ela.

Além disso, mostra as histórias tristes destes doentes, como muitas vezes pode ter sido uma falta de cuidado numa primeira crise, uma agressão constante, falta de lazer, vulnerabilidade e invisibilidade social,  muitas vezes a soma de tudo isso e mais.

Nise usa nesta fase todos os recursos, além das artes, para humanização de seu setor e o tratamento de seus clientes. Lembrando que ela dizia que o médico que tinha que ser paciente, ter paciência, e, o paciente era um cliente, pois paciência não era uma virtude observada com os doentes mentais na época.

Chorei diversas vezes no filme, emocionante, sensível, bem dirigido, filmado, excelente roteiro, câmeras bem colocadas, além de excelentes atores.

Recomendo.

Camila Tenório Cunha

21/04/2016

 

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Festa de aniversário de onze anos, com avós partenos, Ana e Darcy.

Festa de aniversário de onze anos, com avós partenos, Ana e Darcy.

O Pequeno Príncipe de 2015:

Na imagem acima estava fazendo onze anos, com meus avós paternos, Dona Ana e seu Darcy.

Se repararem bem havia umas bruxinhas coladas atrás. Eu adorava histórias delas e ainda não havia Harry Potter, mas a magia sempre encantou.

O que devemos preservar dentro de nossos corações depois que os onze anos ficaram 30 anos para trás?

Devemos exatamente manter a fé, a esperança, de que as coisas podem ocorrer com o poder da maior mágica de todas, aquela que não vemos, mas que é essencial e sentimos com os corações: o amor.

Por isso hoje, neste espaço, quero falar sobre “O Pequeno Príncipe”, em especial a animação recente sobre ele,  sobre o poder do coração, do amor, do essencial.

A animação feita recentemente encanta porque fala sobre isso:  o fato de matarmos a criança dentro de nós, e, ao olharmos para as  crianças que são, nos esquecendo da criança que fomos.

Criança que simboliza a imaginação, o riso livre, a liberdade, o amor, e o essencial em nossas vidas, num mundo onde tudo isso se transformou em mercadoria.

Colocar a criança presa numa carteira escolar por horas e horas, sem que ela possa explorar o conhecimento pelo riso, a curiosidade, os jogos, as experiências, os afetos, parece sem sentido se pudermos nos lembrar das crianças que fomos um dia, não? Ao mesmo tempo  que nos esquecemos dela dentro da máquina sistemática de trabalho, em carteiras maiores que as escolares, mas que nos prendem também.

Esta mesma animação questiona a expectativa que colocamos na criança, e,  ao mesmo tempo a vida de trabalho árduo sem amor, sem estrelas, sem sonhos que de repente nos colocamos.

Recomendo a animação que confesso ter gostado até mais do o livro, por ter ido mais profundamente na questão.

Camila Tenório Cunha 29/12/2015

 

 

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Filmes bons para as férias: O Doador de Memórias, Mesmo se Nada der Certo e Divertida-mente. 

Na linha da importância das emoções e sentimentos a animação Divertida-mente introduz as crianças ao debate sobre elas. Lembra aos pais, inclusive, sobre os pilares da construção das personalidades e dos momentos em que talvez estes se desmoronem para dar espaço ao adulto complexo que surgirá. Neste não caberá mais apenas um outro sentimento, todos estarão juntos, em diversas situações.

O Doador de Memórias aprofunda este debate com os maiores, pois fala de uma sociedade onde as emoções foram banidas através de remédios diários.

Não há conflitos, debates, discussões, todavia, também não há amor, crescimento, profundidade humana.

O ser humano – no filme – era um espectro de ser humano: sem o amor, a música, a beleza, a poesia, as cores…Tudo que poderia nos tornar passionais fora retirado para que não houvesse conflito. Porém, não podemos dizer que não havia violência, havia a institucional, só que não era percebida, muito menos sentida. Além disso, havia um grande vazio, a falta de amor.

Penso que lá provavelmente eu trabalharia com a recreação – não teria ficado na dúvida entre isso, direito ou psicologia – porém, talvez não soubesse sobre o meditar com músicas, escrever e apreciar poesias, ou,  dançar livremente numa manhã feliz.

O protagonista do filme recebia as memórias da humanidade para que houvesse um sábio num momento preciso, só que junto ele conheceu tristezas, alegrias, e, começou a amar. Amar sua amiga de infância, sua irmã, seus pais, a neve, a música, as folhas, seu professor sábio, as cores, os animais… Amou tanto seu “irmão” – o pequeno Gabriel que é colocado na sua “unidade familiar” – que ao perceber que este iria para “Alhures”, a morte institucional, se desesperou.

Desespero e amor, num jovem que descobre amor, cores, poesias: eis o que move e transforma a humanidade.

Lindas imagens reais se misturam com a história humana passada em clipes rápidos no filme: como a imagem de Mandela ou o jovem que se colocou na frente de um tanque na China.

O filme nos remete tanto sobre a importância deste sentimento chamado Amor, que nos torna humanos, como sobre os pilares necessários para uma democracia real, como o conflito. Algo que não significa nem de perto violência, mas debate saudável de ideias. Aqui, ao contrário, somos lembrados que o cessar dos debates que gera a violência real.

No filme “Mesmo se nada der certo”, um filme musicalmente belo do começo ao fim, também fala sobre a importância do Amor fraternal, da amizade, da lealdade, além de questionar a cultura globalizada e nos mostrar caminhos para escapar dela. Isso tudo com uma Nova Iorque pouco mostrada em outros filmes.

Os dois protagonistas, um produtor musical cansado de não encontrar talentos e uma jovem talentosa que despreza a fama, seguem caminhos interessantes de encontros e desencontros, desilusões, apoios nas amizades e amores fraternos.

Todos os filmes citados nos remetem a importância da aventura de Amar: o ser humano, a música, a poesia, a amizade, a lealdade, a vida, as vidas na Terra, a própria família, as pessoas com seus pequenos defeitos, a vivência das nossas emoções sem medo, as histórias humanas, o nascer e pôr do sol, tudo que nos é gratuito neste mundo!

E tudo que nos é gratuito neste mundo é o que nos faz ver mais sentido na vida, por isso estes filmes encantam e valem a pena.

Camila Tenório Cunha, primeiros dias de férias,  11/07/2015

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Irmã Dulce, Mandela e Clube dos Cinco.

Os dois primeiros são lindos e o terceiro apenas representa a falta que faz uma educação que use os exemplos de vida, contido nos dois primeiros, para guiar e debater a vida com  jovens.

    Quando assisti o Clube dos Cinco pela primeira vez discutimos muito como não queríamos que o Brasil (eu era bem jovem) seguisse os valores e ideais de uma sociedade que coloca jovens estudantes em detenção, simples assim, sem fazer um trabalho de leitura, vídeos, debates, dramatização com estes. Larga os jovens lá com seus problemas e distorções, trancados numa sala.

      Na época eu discutia com iguais do movimento estudantil e prevíamos que o avanço da mídia somado enfraquecimento das escolas públicas poderia trazer em pouco tempo uma realidade como aquela dos jovens do filme. O filme não deixa de ser uma crítica, um dos poucos que não enaltece o sistema educacional americano, todavia, o critica. Mas é arrasador perceber os valores que os cercavam: dali para algum entrar metralhando ou explodindo a escola restava uma tênue linha, pois quando se vê a vida apenas como suprimentos de prazeres imediatos, individualistas, onde os fins podem justificar os meios, ela e a dignidade humana fica mesmo em risco.

     Já o filme Mandela, este último premiado, não o coloca como um herói perfeito, mas um homem cheio de defeitos que se constrói pouco a pouco, tendo cada vez mais certeza – ao longo de sua vida – que o caminho da violência não traria solução, apenas repetiria tudo que a humanidade já fez – de errado – na história. No filme amadurecemos com o protagonista e seu sofrimento, com frases e imagens belíssimas.

     Irmã Dulce é pura poesia, também não a coloca como perfeita, a sensibilidade dela estava toda voltada para os doentes, vítimas de doenças também pela falta de alimentação, moradia digna. Contudo, mostra que ela errou ao não se preocupar com a educação também, através do pequeno João, que – após curado – não pôde ficar com ela no convento e se perdeu na vida. Mesmo tendo se recuperado, o João sofreu, embora Irmã Dulce tenha sofrido junto como uma mãe adotiva com seus erros, o filme não a mostra como perfeita, apenas como alguém que amava muito, sentia muita compaixão, sofrendo ao viver num Brasil onde a exclusão, a fome, a pobreza só aumentava (ela faleceu em 1992).

        Penso que Irmã Dulce deve estar bem feliz de onde está:  vendo que a alimentação digna, moradia, escola, saúde agora são programas sociais garantidos aos mais necessitados com o Bolsa Família, Programa Caminhos da Escola, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, que nos fez alcançar a meta da ONU de 2015 em 2012:  com a diminuição da mortalidade infantil, a diminuição da fome e da pobreza. Ela não viu este Brasil de programas sociais, viveu boa parte da vida na ditadura militar em que o Brasil crescia, ficava rico, com muita pobreza e fome. Ela deve estar feliz porque sempre disse que o certo não era o assistencialismo, mas que tudo se tornasse direito do cidadão.

      Nossos jovens precisam ver filmes assim e terem quem os discuta com eles, sobre vidas plenas de pessoas que não foram perfeitas, mas que amaram, sonharam e lutaram por um coletivo melhor, através da bondade, generosidade e não violência.

 Camila Tenório Cunha, 07/12/2014

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O Filme dos Espíritos:

                 

                   Lindo e sensível filme.

              Um dos melhores que vi nos últimos tempos, não é só para quem é espírita, embora vá entender melhor quem estuda a filosofia espírita há tempos.

                    Mas ele tem esta mensagem universal sobre o amor, o entendimento de Deus como fonte de Amor em nós, que supera a visão religiosa pura e simples. Visão que o protagonista, enlutado pela morte da esposa, só se lembra que tinha recebido do pai caiçara há anos, no final.

                    Além disso, trata de vários assuntos: a busca do sentido pela vida e de relações sociais, como um ex-presidiário que vai ajudar na distribuição de sopa e supera sua solidão pós prisão, a vida pelo lado de dentro de um hospital para deficientes físicos e mentais, a vida de quem vê o outro lado e de quem busca apenas acreditar em algo  maior, quem luta pela vida e contra o câncer, em todos os momentos uma única busca, a do  o amor.

                     O filme também possui um roteiro bem amarrado, estruturado em tramas  psicológicos, onde devagar e lentamente todas as dores se encontram.

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            A Árvore da Vida:

                 

                    Há tempos não via um filme de arte. Infelizmente não consegui vê-lo no cinema.

                     Não podemos estar muito sensíveis ao vermos este filme que discute o profundo das relações humanas e desta dentro de nós. O quanto somos nossas lembranças, belas e tristes. Como estas lembranças caminham conosco pela vida e o que podemos aprender com elas.

                    Um pai complicado e violento, uma mãe submissa e religiosa, formam o personagem principal.

                     Cenas de um mundo em formação, nosso mundo, nos remete ao questionamento da Vida, sobretudo, da morte.  Tudo misturado aos personagens traçam tramas psicológicas do filme,  onde a vida é questionada em todo segundo, bem como valores materialistas , dentro de um “protagonista” que questiona o ruim, o bom, o belo e o sentido humanista da vida.

Camila Tenório Cunha

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              Cavalo de Guerra:

            

           Não gosto de filmes que tratem deste assunto: a guerra. Mas já é o segundo filme sobre ela que gosto, e,  ambos, do mesmo diretor.

             É que este diretor faz filmes sobre guerras para nos mostrar o quanto elas são estúpidas, como não fazem sentido.

                Quem não se lembra da amizade entre o pequeno japonês e o menino inglês em “O Império do Sol”?  Entre dois pequenos amigos apaixonados por aviões: a guerra não fazia sentido.

                    Uma cena impressionante em ‘O Cavalo de Guerra”: um inglês e um alemão lutando para salvar um cavalo do arame. No amor pelo animal em sofrimento, mais uma vez o sentido da guerra se perde. E, como toda guerra, pode existir um sentido entre os poderosos, mas entre aqueles que realmente sofrem suas consequências:  não há sentido algum!

                   Além disso, este diretor não faz apologia ao sangue, ao violento, as cenas que seriam cruéis ele nos induz a entender que houve morte, que houve violência. Percebemos pelo olhar do ator Benedict Cumberbatch que a morte se aproximava dele. Os tiros nos induzem à morte de dois jovens desertores alemães. Contudo, em toda cena dolorida, temos a  mensagem pela paz, num filme de guerra.

              Por isso gosto de filmes de guerra do diretor Steven Spielberg, não falam da guerra, mas do quanto elas não fazem sentido, todavia  a amizade, o amor, mesmo na diversidade, fazem.

Camila Tenório Cunha

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         Hugo:

          

           Um filme belíssimo que é uma grande homenagem à sétima arte e sua história. Sensível,  fotografia maravilhosa.

        O pequeno Hugo tem sua filosofia que retrata bem o início de um mundo industrializado”somos todos parte de uma grande engrenagem, se estamos por aqui, é porque temos alguma função nesta máquina, apenas precisamos descobrir qual”.  Esta filosofia o faz continuar a viver apesar da solidão: encontrar sua própria missão. Nossa missão está no sentido social, coletivo, de nossas vidas.

               Já encontramos a nossa?

Camila Tenório Cunha

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          Além da Vida e as Mães de Chico:

                   São dois filmes lindos, que emocionam e seguem caminhos diversos da busca pela fé a afirmação de algo além dos nossos olhos e ouvidos terrestres.

             Assisti aos dois com a minha filha e ao segundo com a minha mãe também, numa época em que vou passar o primeiro aniversário de minha vida sem minha avó querida, estes filmes vieram bem a calhar. Não foi na inocência que peguei aos dois bem agora, nestes dias, foi pensado, precisava dentro de mim desta reafirmação de uma certeza que tenho desde pequena: a de que a vida não acaba no túmulo.

                 O filme Além da Vida  mostra três personagens por caminhos diferentes da espiritualidade, a primeira chega a desencarnar e retorna, como é ateia busca na ciência – relatos de médicos –  estudos de pessoas que quase morreram. Nestes relatos estão coincidências de visões, sentimentos de paz,  entre  pessoas que não se conheciam, além disso, estavam todas inconscientes. Ainda segundo a ciência médica, uma pessoa em estado inconsciente não “cria” novas imagens, contudo, todas voltaram relatando visões novas em suas vidas de um “outro lado”. Outros personagens são: um vidente que acredita que isso é uma maldição, se recusa a praticar este dom, que era americano, e, um menino que acabou de perder seu irmão.  O menino quer muito saber, o vidente quer esquecer. Todavia, por incrível que pareça, a francesa, o americano e o menino se conhecem.

             O filme As Mães de Chico também possui três histórias paralelas, estas emocionam porque no Chico as cartas  falam detalhes da vida que somente parentes e desencarnados  poderiam saber. Um casal que perdeu o filho para as drogas e o suicídio, uma jovem que está pensando em fazer aborto e uma mãe que perdeu seu filho de apenas quatro anos. Entre estas pessoas somente a mãe do pequeno Théo tinha fé, os demais eram descrentes que a vida os empurrou até a fé e a certeza de que nada acaba há sete palmos.

                    Este último emociona porque é um filme baseado em cartas – histórias   reais – de quem viveu esta comprovação de que a vida continua, falado em nossa língua. Sabemos como esperamos uma resposta e uma prova para amenizar a dor da saudade daqueles que partem de nossas vidas, sempre cedo demais, independente da idade biológica da pessoa querida. Acho que estes fatores: nossa língua, nossa cultura, histórias reais  – provas do Além – que trazem um sentimento de esperança e beleza do filme. Muito linda também a cena das mães agradecidas doando coisas que Chico distribuía aos necessitados, embaixo do abacateiro.

               Foi um bom final de semana: festa do meu sobrinho e oportunidade de rever algumas pessoas – de tantas pessoas queridas desta vida – que a vida separa, e, dois filmes sobre a saudade e a certeza – sobretudo a certeza – de que as pessoas queridas continuam vivas do outro Lado.

               Camila tenório Cunha

11/09/2011

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Rio

            Já vi muitas animações no cinema, por gostar desta arte,  por ter sido criança, por ser mãe há 15 anos…

               Por ter visto muitas muitas animações no cinema posso afirmar, sem medo, que Rio é o desenho animado mais bonito que já vi na vida!

              Não se trata apenas de falarmos aqui das técnicas, músicas, fotografias, é mais que isso! O filme aborda os problemas sociais do Rio, como bandidos usando um menino para o crime, com poesia. Aborda as questões ambientais, sociais, sempre com poesia.

                   Carlos Saldanha se superou, usou música, dança e imagens em perfeita sincronia, deu aquele toque de sensibilidade típica da nossa cultura. Não existe, atualmente, nenhum filme de animação que nos permita discutir tanto com as crianças e jovens quanto Rio…

                     Vale a pena levar alunos, filhos, avós, vizinhos, pois é um filme para o cinema, que nos envolve dentro daquele ambiente, nada de deixar para ver quando sair em DVD somente.

            Quem estiver em comunidades distantes vale a pena entrar em contato com o Ministério da Cultura e solicitar que este filme seja exibido em praça pública, no projeto do governo, que leva o cinema aos lugares distantes através de um caminhão.

                 É um direito da população assistir ao filme e um dever governamental que isso ocorra, principalmente se falamos desta animação: Rio.

                              Lógico que em cada idade abordaremos o item mais fácil para ser discutido. Todavia, com a juventude, não podemos deixar de falar das mazelas e discrepâncias sociais causadas por este sistema capitalista: que faz o ser humano se achar no direito de aprisionar com crueldade animais silvestres e usar crianças. Ao mesmo tempo, temos que observar a capacidade humana de sentir compaixão, solidariedade e lutar por estes sentimentos.

                 Além disso, é um filme que traz esperanças na luta pela bondade. Um filme que nos diz: vale a pena lutar pela bondade, pelo que é certo, ético, humano… Assim como valeu a pena tirar minha mãe de casa num domingo de Páscoa, para irmos até o cinema central de São João, que ainda é daqueles antigos, para ver Rio. Ela riu, se emocionou e saiu maravilhada, se esquecendo que está numa fase difícil de sua luta contra o câncer!

                Podem ir ver,  “sem medo de ser feliz”.

                                 Camila Tenório Cunha

24/04/2011

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  “O Solista”

                  Muitos filmes americanos que se passam em L.A. ocultam a produção de sem tetos pela qual o  capitalismo é responsável!!  Neste filme os 90 mil sem tetos que moram em L.A. aparecem, bem como todos os outros males que a exclusão social é capaz de produzir: drogas, doenças mentais, solidão, violência e tudo que a injustiça social traz em seu pacote.

               A pobreza dentro de uma sociedade em que o capitalismo rege todas as relações sociais é extremamente cruel. O filme (e a história) também, ao mostrar a infância e juventude do músico, mostra toda solidão em que ele foi submetido, detalhes como um olhar para fora e um carro em chamas, já que na infância do músico os negros lutavam por direitos civis… Depois a solidão no período de faculdade em que conseguiu a bolsa… Tudo isso e o isolamento dentro da música produziram, sem dúvida, a doença mental e as vozes que ele passou a ouvir diziam como o músico “valia pouco”, exatamente como ele se sentia socialmente.

             “Valer pouco”, uma frase típica de uma cultura  que mede as pessoas pela  conta bancária e a cor de pele, por mais que isso seja uma luta antiga na maioria dos países em que tivemos escravidão.  E esta cultura não é somente a americana, mas todas regidas pelo mesmo sistema econômico. Teve um momento em que prometeram 50 milhões numa política assistencialista aos sem teto, cenas seguintes mostram a repressão policial em cima deles.

                      Trazer todas estas problemáticas pelos olhos de um jornalista que à princípio estava apenas atrás de uma história para sua coluna foi um belo feito deste filme, que me encantou e que vale a pena ser assistido!

Camila Tenório Cunha

22/04/2011

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Achei este texto que escrevi em 2006 e ele continua atual. Sobre o filme Escritores da Liberdade:

Escritores da Liberdade”, uma história baseada em fatos reais.

Direção Richard LaGravenese

2006

Um filme baseado nas experiências de uma professora idealista, cujo primeiro trabalho é uma sala “recém-integrada”, num país dividido por “guetos”, onde orientais, latinos e negros, conviviam sem se misturarem na escola e no bairro.

A professora percebe que não se misturam, pois se hostilizam o tempo inteiro em aula. Ao mesmo tempo a direção da escola não gosta que os professores “falem” no assunto.

Quando desenham a caricatura de um aluno negro a professora aproveita a deixa para falar que os nazistas, segundo ela a maior gangue da história, também desenhava judeus em jornais, para os desprezarem. Os alunos não sabiam o que foi o holocausto. Ao tentar dar O Diário de Anne Frank  para que lessem a diretora proibiu, disse que “estragariam” o livro e não iriam ler. A professora, Dona G, como era chamada pelos alunos, iniciou um trabalho solitário, inclusive com horas extras como recepcionista em um hotel de luxo para pagar livros e jantares aos alunos, para ouvirem histórias com sobreviventes do holocausto. Nas histórias de uma outra repressão os alunos perceberam como todos ali eram reprimidos, e que a cor, os olhos, a crença ou língua, era indiferente na dor.

Num momento a professora coloca uma linha vermelha no chão da sala e pede que todos que gostem de determinado conjunto de rap pisem nela, quase todos pisam, assim ela fez até perguntar “quantos já perderam amigos ou parentes nas guerras de gangues”, neste momento a sala em peso se encontrou na linha. Esta linha que a professora fez, onde os olhares das diferentes gangues se encontraram nos gostos, nas alegrias e na dor, podemos chamar de “Linha da Alteridade”.

Depois estes jovens escreveram diários, leram Anne Frank, conseguiram se ver como sobreviventes de um “holocausto” que estavam ajudando, sem querer, a formar.

O professor  Boa Ventura de Souza Santos diz que: “As pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza”.

A professora, neste filme baseado em fatos reais, conseguiu fazer com que os alunos se vissem, como: iguais na dor/alegria, mesmo que diversos na cultura/ origens.  Ao se verem: perceberam que a guerra entre gangues não fazia sentido. A repressão que se vivia não poderia aumentar mais ainda entre eles, todos ali tinham de alguma forma: sofrido repressão policial, injustiça social, humilhações diversas.

Um dos melhores filmes que já vi para discutirmos alteridade e paz/violência/repressão/racismo, com nossos jovens.

Camila Tenório Cunha.

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Efeito Borboleta:

O filme Efeito Borboleta é mais um destes filmes que estão classificados como “ação” nas locadoras. Contudo, ao analisarmos de perto é mais que um filme de ação, é um filme que nos trás a reflexão sobre o efeito das ações negativas de um adulto e como elas poderiam afetar o futuro de várias crianças, principalmente seus filhos.

No filme o protagonista sofre  lapsos de memória, ele tem como vizinhos um casal de irmãos que os pais se separam e eles ficam com  o pai:  pedófilo com a menina e extremamente violento com o menino. A mãe do protagonista o deixa algumas vezes com este vizinho e ele é abusado junto com a menina, o amigo assiste angustiado, por isso se torna sádico.  O protagonista, por sua vez, de repente se vê nu em frente a este adulto com uma câmara, mas não se recorda de mais nada. Num outro momento, estão jovens, fumando e o amigo, que já é um sádico autoritário, acha uma dinamite e tem a   ideia de  colocá-la na caixa de correio de uma casa. Nenhum dos outros gostaram disto, mas eles se viram forçados por chantagens e ameaças, o mais medroso deles é forçado a ir colocá-la. Novamente o protagonista tem um lapso de memória e só se lembra de estar correndo. O que colocou está em choque e é levado numa ambulância.

Muitos outros episódios tristes acontecem: o que se tornou sádico queimou o cachorro do protagonista vivo, o que foi forçado a colocar a dinamite na caixa enlouquece… A mãe do protagonista o leva para conhecer o pai que está internado num hospício.

Quando a mãe do protagonista resolve dar um basta em tantas tristezas eles se mudam e o protagonista passa muitos anos sem ter lapsos de memória. Vai estudar psicologia e se torna um aluno aplicado, seu foco de pesquisa é exatamente a memória. Então, ao ler seus diários infantis, descobre que pode voltar ao passado e alterar as situações que tivera os lapsos de memória, tendo a consciência de um adulto no corpo de uma criança. Depois desta descoberta resolve voltar ao ponto exato em que iria sofrer abuso, faz um discurso ameaçador ao pai de sua amiga, diz que ele é um pedófilo, que está destruindo a personalidade de sua filha… Todavia, ao voltar ao presente sua amiga (agora namorada)  está bem, porém seu irmão continua violente o sádico. Ele descobre que o pai parou de abusar da amiga após o episódio do “filme” (abuso), todavia descarregava sua raiva e violência no irmão. Deste modo, o episódio da dinamite, do cachorro, a depressão do amigo e outras consequêcias do adulto desequilibrado ainda permanecem no presente.

Muitas tentativas de mudar o presente ocorrem: ao alterar o passado em um ou outro ponto ele nunca conseguia melhorar totalmente a vida presente, pois o adulto desequilibrado afetara profundamente não apenas aos filhos, mas seus círculos de convivências e amizades.

Nenhuma tentativa parecia a certa, em um momento ele se vê sem braços e numa cadeira de rodas, seu amigo está com sua amiga e parece que agora seus amigos  vivem um namoro e o irmão sádico de sua amiga é uma pessoa equilibrada e altruísta. Então, ele tenta descobrir se ela o amaria e ela revela que o amou quando criança, antes da dinamite estourar em seus braços e seu irmão salvar a mãe e o bebê. Na separação dos pais ela poderia escolher entre ficar com o pai ou ir com a mãe, mas ela escolheu ficar com o pai somente para ficar perto dele.

Somente neste instante ele percebe que a chave para alterar o passado de modo certo seria fazer com que sua amiga o detestasse, deste modo na separação dos pais ela ficaria com a mãe. Depois de conseguir isso acorda de novo no presente e seu amigo, outrora um louco, está equilibrado e é seu colega de quarto na faculdade, ele pergunta sobre sua amiga e ele nunca ouvira falar. O protagonista conclui que ela deve ter mudado com mãe antes que brincassem juntos, tudo está bem e ele resolve queimar seus diários. Já fez com ele tudo o que quis.

Um adulto violento e pedófilo, apenas um, bastou para alterar a vida de quatro crianças e o futuro destas. Isso nos faz refletir sobre a importância que um adulto pode ter na vida das crianças e jovens de modo positivo ou negativo, como o negativo poderá afetar o futuro destas, pois podem  se tornar amáveis, equilibradas, altruístas, ou,  sádicas, viciadas e violentas.

A fragilidade da vida infantil também nos faz lembrar o caso atual e verídico  da menina de cinco anos no Rio que foi torturada pelo pai: na separação foi retirada da mãe por uma juíza e uma psicóloga de judiciário ( provavelmente desequilibradas) no mínimo irresponsáveis, pois estas decisões requerem várias testemunhas e muita pesquisa, devido aos maus tratos do pai a pequena pegou meningite e acabou morrendo.

Tudo isso nos trás para a importância e a   responsabilidade de nossos atos com os mais novos, principalmente daqueles que trabalham nos Conselhos Tutelares e judiciários: a vida presente e futura da juventude-infância está nas mãos deles, nem sempre o pai, por exemplo, é o mais indicado, por isso a pesquisa precisa ser criteriosa, mais de um profissional deve ser ouvido, inclusive de fora do judiciário, além dos professores e outros  conhecidos dos responsáveis e da criança. O Efeito Borboleta, por esta reflexão sobre a capacidade que um adulto possui de produzir na criança a crença ou a descrença, o ódio ou a amor,  na vida e no ser humano, é um bom filme.

Camila Tenório Cunha

Sobre o “efeito” e os exemplos que os adultos podem ter nas crianças:

http://www.youtube.com/watch?v=lhsnmECCFsQ&feature=fvsr

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Nosso Lar e Lula:

Tenho dois passados em minha vida: fui a primeira espírita de uma família católica, mudei tão radicalmente minha conduta no seio familiar que logo minha mãe, que foi criada em colégio católico, se converteu ao espiritismo também. No início, quando me dirigia para a  Mocidade ela me deixava na porta desconfiada, eu tinha 14 anos de idade. Alguns anos  antes, quando as angústias de ver crianças da minha idade varrendo ruas, esmolando,   eu questionara sistemas econômicos, e,  assim,  descobrira  que poderia ser diferente,  então surgiu um trabalhador que gritava por justiça social. Virei fã dele e – se pudesse votar – eu e meu avô paterno (metalúrgico)  seríamos os primeiros a votar nele na família, logo que ele surgiu ainda não havia eleição. Quando eu fiz 14 anos já estávamos numa democracia, mas eu e meu avô só votaríamos no Lula dois anos depois, contudo procurei o PT e também comecei a participar da Juventude Petista, ao mesmo tempo em que participava da mocidade.

No meu coração Nosso Lar e minha visão política se casavam, porque afinal, quando li Nosso Lar (a primeira vez aos 14 anos), enxerguei  uma sociedade comunista que funcionava muito bem no plano espiritual. Se lermos com atenção Nosso Lar sequer é uma sociedade socialista, é comunista: quem trabalha tem seu lar, seu bônus garantido e sempre trabalhamos lá pensando no coletivo, comandado por Jesus indiretamente e governado diretamente por conselheiros de grande porte moral, um destes sempre é “eleito” governador em conformidade com sua extirpe elevada.  Lá pensamos no coletivo  mais do que em nós mesmos, porque percebemos como o individualismo adoece as almas também no espaço.

Este ano o primeiro filme que vi e chorei foi “Lula: o filho do Brasil”, ele não é sobre o político que sempre admirei, ele é um filme que espelha a vida sofrida de milhares de brasileiros e nossa cultura de valorização do trabalho, da solidariedade e da fé da maioria do nosso povo.

Outros filmes vieram pelo ano de 2010, mas só fui chorar de novo em “Nosso Lar”, ano passado chorara em “Chico”… Ora, filme bom toca mesmo nosso coração e ao tenho vergonha de dizer que choro neles.

Sei que houve uma campanha, porque sou espírita e estava numa casa espírita quando o dirigente pediu para assistirmos ao filme e votarmos no site. Nós, espíritas, somos unidos, corremos ao cinema, toda minha família foi  na pré-estréia. Todos nós votamos. Não acho errado fazermos campanha pelo que queremos, faz parte da democracia.

Contudo, sei que nós, os Espíritas representamos mais a  classe média, com computadores, hábito de ir ao cinema,  mas não representamos a maioria da população, tenho 38 anos, já pude perceber isso.  Nossa população está dividida entre católicos (ainda) e evangélicos. Quem não é professora há 15 anos como eu (sempre meus alunos estão entre estas duas religiões) poderá  perceber isso ao ver uma igreja evangélica por esquina, além das tradicionais católicas.

Somos espíritas, sabemos muito bem que religiões existem tantas quantas diferenças de pessoas, o importante é que exista uma religião para que cada um possa se “ligar” com nosso Criador e se tornar melhor com seu próximo. Um mulçumano, um budista, um evangélico ou católico que praticam a caridade no seu dia a dia é melhor que qualquer espírita que só vai tomar passe e não se melhora. Nós espíritas sempre afirmamos isso.

Deste modo, temos que compreender que  “Nosso lar” não representaria “o” Brasil lá fora e que “Lula” sim, já que nós espíritas nos mobilizamos para assistir e votar, enquanto a maioria evangélica e católica sequer ficou sabendo desta votação. Mesmo assim o filme do Lula tem tudo que admiramos em termos de ideais, ética e superação, além de ser o retrato fiel de nossa cultura, história e povo.

Escrevi tudo isso para dizer que compreendi muito bem a atitude do Ministério da Cultura de enviar Lula e não Nosso lar, não foi eleitoreira como disseram, foi pensando em representar o Brasil e não uma pequena parte dele, parte que se mobiliza muito bem,  mas que  neste país tão plural não representaria todo restante da população.

Camila Tenório Cunha, 08/10/2010

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Só relembrando:

SICKO

Um casal de amigos acabou de passar o site que podemos abaixar o filme inteiro (eu assisti de locadora):

http://versaude.blogspot.com/2008/06/sicko.html

Recomendo este documentário para todos, até para aqueles que não precisam ou não se importam com o problema de saúde pública.

Nossa elite aprende fácil demais a seguir as piores elites do mundo, a sucatear a educação e a saúde pública.

Verdade que estamos em um governo federal que nunca lutou tanto contra esta elite, e lutou com democracia, sem stalinismos. Sem stalinismo Lula conseguiu entrar em um país com mais de 40 milhões de miseráveis e hoje, setembro de 2009, ele se encontra com 14 milhões. Ainda é muito, é verdade. Contudo, se continuássemos na política neoliberal psdebista, talvez hoje estivéssemos com uns 60 milhões de miseráveis.

Todavia, a luta contra as elites que mamam nas desgraças alheias é grande. A elite dos convênios  vive em um círculo vicioso, sustentada por médicos ambiciosos  que boicotam a saúde pública para que todos tenham medo e busquem aos convênios. Os bons médicos sofrem junto aos desvalidos e na luta por um SUS mais humanizado.

Temos que lutar e gritar que queremos um serviço de saúde pública de qualidade.

Aqui em Ouro Preto, a Santa Casa, que  provavelmente recebe verba do SUS,  só atende convênio e particular. Cheguei com uma colega de trabalho acidentada lá e fomos parar numa UPA, uma fila imensa, então ela preferiu ir para BH, onde os pais dela aguardavam com estrutura.

O convênio da minha mãe subiu para mais de 400 reais, ela ligou no colégio particular onde trabalhava e a funcionária disse que este aumento ocorreu porque um funcionário morreu, e, ela e uma colega estão com câncer e o tratamento é caro. Ela aguarda o cartão novo há meses e este não chega! A conta chegou bem.

Fiz biópsia com agulha fina, mamografia e ultra som em um laboratório famoso aqui, a Axial. Quando o segundo médico que consultei pediu biópsia com agulha grossa e ressonância, eles disseram que o convênio só pagaria a ressonância. A  biópsia com agulha grossa fiz em outro laboratório, a análise citopatológica eles cobravam 56 reais por lâmina, o convênio não pagava.

Então precisei sair, dolorida como estava, atrás de outro laboratório para análise,  um terceiro que o convênio pagasse.

Também fiquei com a sensação de que anestesia este convênio não paga, porque já havia passado por procedimentos assim em SP e não sentira nada! Aqui senti a pior dor do mundo. A primeira biópsia me deixou dolorida por mais de quinze dias!  Lá eles davam uma pomada para eu passar em casa na mama. Depois aplicavam a anestesia e eu nem sentia, ouvia o barulho da punção (um puft!), mas nada de dor. Aqui cada barulho perfurava a alma de tanta dor! Agüentei apenas dois barulhos, depois, sempre chorando, parei e disse que não dava mais. Lá da recepção do laboratório minha mãe disse que ouviu meus choros.

Não está certo isso,  guias e autorizações, cobre isso e não aquilo.  O certo era existir um centro PÙBLICO de tratamento oncológico pelo menos em cada região brasileira. O certo seria que todo cidadão  não precisasse pagar convênio, não fosse refém deles! Como ocorre no Canadá, Inglaterra, França e Cuba (vide filme ótimo do Michael Moore, SOS Saúde, em toda boa locadora).

Aliás, o certo seria que SAÙDE e EDUCAÇÂO não fossem mercadorias! Que ninguém pudesse ganhar e enriquecer em cima destes itens mínimos de cidadania, que todo ser tivesse isto garantido, sem máfias que tentam ganhar dinheiro boicotando a população, para garantir seu tostão.

Continuo indignada e refém de convênios e estradas. Quando atuaremos no ritmo de Lenine, com a vida sendo “tão rara”?

Camila Tenório Cunha

Um poeminha do Drummond:

Qualquer

Qualquer TEMPO é tempo,

A mesma hora da morte

é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo

bastante para a ciência

de ver, rever.

Tempo, contratempo

anulam-se, mas o sonho

resta, de viver.

Carlos Drummond de Andrade.

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Relembrando….

O Contador de Histórias

O Contador de Histórias:

        O Contador de História, filme de Luiz Villaça, é o melhor filme que vi este ano. Não só por ter imagens lindas, cenas bem feitas, mas por tratar de assuntos sérios sobre a criança e o jovem.

Na primeira cena do filme temos o pequeno com 13 anos  deitado na linha do trem à espera da morte. Pensei: ele sofreu alguma violência ou abuso sexual. Uma criança ou jovem com o olhar perdido e à procura da morte: só pode ser isso. Depois a história  volta algumas semanas antes daquela cena e tudo se confirma.

A FEBEM da época era divulgada às classes populares (anos 70) como uma solução para o futuro de seus filhos e assim o pequeno Contador de Histórias  fora parar em uma delas, para dela fugir milhares de vezes. O filme, baseado em uma história real, só vem comprovar que esta política pública que institucionaliza vai pelo caminho errado e as novas Leis de Adoção, sancionada há pouco pelo Lula, caminham na direção certa!

Assim como a política de Renda Mínima, divulgadas e batalhadas pelo senador Eduardo Suplicy, além da ajuda para agricultura familiar,  bolsa família e a bolsa escola, apoio às cooperativas e todas estas políticas públicas que resgatam as famílias das crianças: indicam um caminho mais seguro do que as instituições!

O pequeno Contador de Histórias teve a sorte de ser adotado por uma pedagoga francesa, ainda com a dor da violência sofrida, depois de se achar azarado até por “não” ter sido atropelado por um trem, ele se abrigou de vez na casa desta paciente educadora. Educadora que ele tivera contato antes da violência e que – aparentemente – não se importara muito, contudo, após a violência, buscara lá um abrigo seguro.

Lá na casa da pedagoga ele encontrara um lugar para ouvir histórias sobre monstros marinhos de muitos tentáculos – como aqueles braços dos jovens mais velhos que o violentaram – e de um capitão que matava estes monstros do seu submarino (Vinte Mil Léguas Submarinas, de Verne).  Além de histórias de monstros mortos aprendera a andar de cabeça erguida, a amar sua cor, a se aceitar, e que era digno de carinho e limites!

Recebera na casa da pedagoga algo que podemos chamar de lar e que na FEBEM ele perdera. Um vínculo, sensação de pertencimento, algo que nos faz humanos, sem “vigiar e nem punir”, como a FEBEM costuma fazer, aliás, hoje com nome que lembra casa, mas não acredito que  lembre um lar. Por isso acredito mais no resgate das famílias, em projetos que busquem o tratamento familiar, ou familiares possíveis, e ainda, em ajuda financeira às famílias sem que estas precisem abrir mão de seus filhos ou perdê-los para o trabalho ou a exploração.

Na FEBEM da história, nem a minha categoria profissional escapara, já que havia uma professora de Educação Física, que na visão do pequeno, então com seis anos, lembrava um hipopótamo. Numa idade em que temos tanto a fazer, nem que fosse um polichinelo como brincadeira (estrela-foguete, semelhante ao morto-vivo) depois, ou antes, de outros jogos, lógico, mas não, esta os deixava no polichinelo seco, sem direito à fantasia ou jogos, enquanto lia revistas!!

As pessoas que trabalham nestas Instituições se sentem “carcerários” e não educadores. Acham válido torturar e não pensam que isso é um abuso de poder que pode comprometer ainda mais estes jovens.

Quando alguém se aproxima, sem medo do vínculo, do subjetivo, do afeto: faz milagres aos olhos dos “carcerários”. Educar é criar vínculos, afeto, para ensinar compaixão, humanismo, sem humilhar jamais, é preciso enxergar além nos olhos do educando, o que vai atrás da pupila triste.

A educadora francesa foi mãe sim, fez este papel, todavia, fez um papel que não é impossível aos educadores: oferecer carinho, ouvir e dialogar com respeito. Isso alguns projetos já tentam (como o Aquarela, em São José dos Campos): trabalhar com famílias desestruturadas através da valorização dos diálogos e resgate dos nós de afetos rompidos. Só que é preciso mais: oferecer condições para estas famílias terem qualidade de vida. Isso que tenta fazer o projeto Renda Mínima e isso que nos faz admirar a Reforma Agrária e Urbana, já que ainda temos muitos latifúndios improdutivos, além de “mono plantações”. Quilômetros de cana e soja não matam a fome e espantam as famílias para os viadutos das cidades. Por isso o MST ainda luta: até que cada família esteja produzindo e se alimentando pelos latifúndios que atrasam o Brasil.

Muito já foi feito e muito ainda poderá ser feito para que apareçam mais Contadores de Histórias: crianças que puderam ser ouvidas, respeitadas, amadas e que um dia possam transmitir sabedoria e amor através do seu trabalho, como hoje o  Contador desta história pode fazer. Ele foi resgatado por uma mãe adotiva: que muitos possam ser por suas mães reais!

Camila Tenório Cunha

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